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Da contratação de um técnico estrangeiro ao distanciamento do futebol brasileiro: a crise de identidade da camisa mais vitoriosa da história

Durante décadas, vestir a camisa amarela da Seleção Brasileira era o maior sonho de qualquer jogador. Convocar um atleta significava reconhecer seu talento, sua regularidade e sua capacidade de representar um país apaixonado por futebol.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Editoria de Esportes
10/07/2026 às 13h35
Da contratação de um técnico estrangeiro ao distanciamento do futebol brasileiro: a crise de identidade da camisa mais vitoriosa da história

Durante décadas, vestir a camisa amarela da Seleção Brasileira era o maior sonho de qualquer jogador. Convocar um atleta significava reconhecer seu talento, sua regularidade e sua capacidade de representar um país apaixonado por futebol. Hoje, a sensação é outra. A Seleção parece cada vez mais distante do torcedor, dos clubes brasileiros e da própria identidade que a transformou na maior vencedora da história das Copas do Mundo.

A escolha de um técnico italiano para comandar o Brasil simboliza muito mais do que uma simples mudança de comando. Para muitos, representa uma admissão pública de que o país que ensinou o mundo a jogar futebol já não acredita nos próprios profissionais.

É uma decisão que provoca uma pergunta inevitável: se o Brasil não confia em seus treinadores, por que o restante do mundo deveria confiar?

Ao longo das últimas décadas, diversos técnicos brasileiros conquistaram títulos nacionais, continentais e mundiais, formando gerações de atletas e desenvolvendo modelos de jogo reconhecidos internacionalmente. Ainda assim, a Confederação Brasileira de Futebol preferiu buscar fora aquilo que talvez nunca tenha deixado de existir dentro de casa.

A justificativa é sempre a mesma: modernização, experiência internacional, novos conceitos.

Mas será que faltava conhecimento ou faltava coragem para reformar o futebol brasileiro sem abrir mão de sua identidade?

O Brasil sempre foi diferente.

Nunca conquistou cinco Copas do Mundo copiando europeus.

Foi campeão sendo Brasil.

Foi campeão valorizando improviso, criatividade, técnica e alegria.

Foi campeão porque produzia jogadores capazes de decidir partidas impossíveis.

Hoje, parece querer apenas imitar aquilo que os outros fazem.

Outro ponto que provoca enorme desconforto é a política de convocações.

Durante anos, atuar no futebol brasileiro era suficiente para vestir a camisa da Seleção.

Hoje, a impressão é oposta.

Parece existir um passaporte invisível: jogar na Europa tornou-se quase um requisito obrigatório.

Enquanto isso, atletas que se destacam semana após semana no Campeonato Brasileiro, na Copa do Brasil e na Libertadores assistem às convocações pela televisão.

Jogadores decisivos, líderes de seus clubes e em excelente fase acabam ignorados, enquanto atletas que vivem temporadas discretas no exterior continuam recebendo oportunidades quase automáticas.

É claro que muitos brasileiros brilham nos maiores clubes do mundo e merecem estar na Seleção.

O problema não é convocar quem joga fora.

O problema é agir como se quem joga dentro do Brasil não existisse.

Essa postura enfraquece o próprio futebol nacional.

Se os melhores jogadores do Campeonato Brasileiro nunca recebem oportunidades, qual mensagem está sendo passada aos clubes, aos torcedores e às futuras gerações?

A impressão é de que o Campeonato Brasileiro vale milhões em direitos de transmissão, lota estádios, movimenta a economia, mas não serve como vitrine para a principal equipe do país.

Outro tema inevitável é o custo dessa escolha.

O salário do treinador estrangeiro figura entre os mais altos do futebol mundial, representando um investimento milionário da CBF.

Naturalmente, profissionais de alto nível são bem remunerados.

A questão é outra.

Quanto custa abandonar um projeto nacional?

Quanto custa dizer aos técnicos brasileiros que nenhum deles é suficientemente capaz para dirigir a Seleção?

Quanto custa perder a identificação entre o torcedor e a equipe?

Porque futebol também é pertencimento.

A Seleção sempre foi um patrimônio emocional do povo brasileiro.

Hoje, parece uma marca administrada à distância.

O contraste se torna ainda maior quando olhamos para a história.

Em 1958, o mundo conheceu um menino chamado Pelé.

Em 1962, o Brasil confirmou sua força.

Em 1970, apresentou talvez o maior time já visto em uma Copa do Mundo.

Em 1994, voltou ao topo após vinte e quatro anos de espera.

Em 2002, conquistou o pentacampeonato com Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu e Roberto Carlos.

Cinco títulos.

Mais do que qualquer outra seleção.

Nenhum país escreveu uma história tão rica.

Mas a partir daí começou um longo processo de frustrações.

Em 2006, um elenco repleto de estrelas sucumbiu diante da falta de intensidade.

Em 2010, a eliminação para a Holanda interrompeu mais um sonho.

Em 2014, diante da própria torcida, veio a maior tragédia esportiva da história da Seleção: os inesquecíveis 7 a 1 diante da Alemanha.

Não foi apenas uma derrota.

Foi um trauma coletivo.

Em 2018, a Bélgica encerrou novamente a caminhada brasileira.

Em 2022, a Croácia eliminou o Brasil nos pênaltis depois de uma classificação que parecia inevitável.

O pentacampeão passou mais de duas décadas acumulando expectativas e colecionando decepções.

Nesse período, outras seleções evoluíram.

A França reformulou sua base.

A Espanha revolucionou seu estilo.

A Alemanha reconstruiu sua formação.

A Argentina reorganizou seu projeto e voltou a conquistar uma Copa do Mundo.

Enquanto isso, o Brasil parece viver de lembranças.

O problema nunca foi apenas o treinador.

Também não é apenas o jogador.

Nem apenas a diretoria.

É um conjunto de decisões que, pouco a pouco, afastou a Seleção de sua essência.

O futebol brasileiro sempre foi respeitado porque revelava talentos em quantidade e qualidade incomparáveis.

Porque seus campeonatos eram fortes.

Porque seus treinadores tinham personalidade.

Porque existia identidade.

Hoje, muitos torcedores sequer conseguem decorar a escalação da Seleção.

Outros preferem acompanhar seus clubes do que assistir aos jogos da equipe nacional.

Isso talvez seja o maior sintoma da crise.

Não se perdeu apenas rendimento.

Perdeu-se conexão.

A camisa amarela já não desperta unanimidade.

A Seleção já não mobiliza o país como antes.

Isso não acontece por acaso.

É consequência de escolhas que privilegiaram estratégias de mercado, agendas internacionais e interesses comerciais, muitas vezes em detrimento da identificação com o futebol praticado dentro do Brasil.

Nenhuma seleção vence apenas olhando para o passado.

Também não se reconstrói uma potência ignorando suas próprias raízes.

O Brasil continua produzindo grandes jogadores.

Continua formando técnicos competentes.

Continua sendo um dos maiores celeiros de talentos do planeta.

O que falta talvez não seja qualidade.

Falta confiança em si mesmo.

Enquanto a camisa da Seleção parecer mais conectada aos centros de negócios do futebol europeu do que aos gramados brasileiros, continuará existindo a sensação de que o maior patrimônio esportivo do país deixou de representar plenamente o seu povo.

Recuperar a identidade não significa rejeitar ideias estrangeiras, mas lembrar que a história das cinco estrelas foi escrita quando o Brasil acreditava no seu próprio futebol.

Talvez a maior convocação que a Seleção precise fazer não seja de um jogador ou de um treinador.

Seja a convocação de sua própria essência.

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