
Durante décadas, vestir a camisa amarela da Seleção Brasileira era o maior sonho de qualquer jogador. Convocar um atleta significava reconhecer seu talento, sua regularidade e sua capacidade de representar um país apaixonado por futebol. Hoje, a sensação é outra. A Seleção parece cada vez mais distante do torcedor, dos clubes brasileiros e da própria identidade que a transformou na maior vencedora da história das Copas do Mundo.
A escolha de um técnico italiano para comandar o Brasil simboliza muito mais do que uma simples mudança de comando. Para muitos, representa uma admissão pública de que o país que ensinou o mundo a jogar futebol já não acredita nos próprios profissionais.
É uma decisão que provoca uma pergunta inevitável: se o Brasil não confia em seus treinadores, por que o restante do mundo deveria confiar?
Ao longo das últimas décadas, diversos técnicos brasileiros conquistaram títulos nacionais, continentais e mundiais, formando gerações de atletas e desenvolvendo modelos de jogo reconhecidos internacionalmente. Ainda assim, a Confederação Brasileira de Futebol preferiu buscar fora aquilo que talvez nunca tenha deixado de existir dentro de casa.
A justificativa é sempre a mesma: modernização, experiência internacional, novos conceitos.
Mas será que faltava conhecimento ou faltava coragem para reformar o futebol brasileiro sem abrir mão de sua identidade?
O Brasil sempre foi diferente.
Nunca conquistou cinco Copas do Mundo copiando europeus.
Foi campeão sendo Brasil.
Foi campeão valorizando improviso, criatividade, técnica e alegria.
Foi campeão porque produzia jogadores capazes de decidir partidas impossíveis.
Hoje, parece querer apenas imitar aquilo que os outros fazem.
Outro ponto que provoca enorme desconforto é a política de convocações.
Durante anos, atuar no futebol brasileiro era suficiente para vestir a camisa da Seleção.
Hoje, a impressão é oposta.
Parece existir um passaporte invisível: jogar na Europa tornou-se quase um requisito obrigatório.
Enquanto isso, atletas que se destacam semana após semana no Campeonato Brasileiro, na Copa do Brasil e na Libertadores assistem às convocações pela televisão.
Jogadores decisivos, líderes de seus clubes e em excelente fase acabam ignorados, enquanto atletas que vivem temporadas discretas no exterior continuam recebendo oportunidades quase automáticas.
É claro que muitos brasileiros brilham nos maiores clubes do mundo e merecem estar na Seleção.
O problema não é convocar quem joga fora.
O problema é agir como se quem joga dentro do Brasil não existisse.
Essa postura enfraquece o próprio futebol nacional.
Se os melhores jogadores do Campeonato Brasileiro nunca recebem oportunidades, qual mensagem está sendo passada aos clubes, aos torcedores e às futuras gerações?
A impressão é de que o Campeonato Brasileiro vale milhões em direitos de transmissão, lota estádios, movimenta a economia, mas não serve como vitrine para a principal equipe do país.
Outro tema inevitável é o custo dessa escolha.
O salário do treinador estrangeiro figura entre os mais altos do futebol mundial, representando um investimento milionário da CBF.
Naturalmente, profissionais de alto nível são bem remunerados.
A questão é outra.
Quanto custa abandonar um projeto nacional?
Quanto custa dizer aos técnicos brasileiros que nenhum deles é suficientemente capaz para dirigir a Seleção?
Quanto custa perder a identificação entre o torcedor e a equipe?
Porque futebol também é pertencimento.
A Seleção sempre foi um patrimônio emocional do povo brasileiro.
Hoje, parece uma marca administrada à distância.
O contraste se torna ainda maior quando olhamos para a história.
Em 1958, o mundo conheceu um menino chamado Pelé.
Em 1962, o Brasil confirmou sua força.
Em 1970, apresentou talvez o maior time já visto em uma Copa do Mundo.
Em 1994, voltou ao topo após vinte e quatro anos de espera.
Em 2002, conquistou o pentacampeonato com Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho Gaúcho, Cafu e Roberto Carlos.
Cinco títulos.
Mais do que qualquer outra seleção.
Nenhum país escreveu uma história tão rica.
Mas a partir daí começou um longo processo de frustrações.
Em 2006, um elenco repleto de estrelas sucumbiu diante da falta de intensidade.
Em 2010, a eliminação para a Holanda interrompeu mais um sonho.
Em 2014, diante da própria torcida, veio a maior tragédia esportiva da história da Seleção: os inesquecíveis 7 a 1 diante da Alemanha.
Não foi apenas uma derrota.
Foi um trauma coletivo.
Em 2018, a Bélgica encerrou novamente a caminhada brasileira.
Em 2022, a Croácia eliminou o Brasil nos pênaltis depois de uma classificação que parecia inevitável.
O pentacampeão passou mais de duas décadas acumulando expectativas e colecionando decepções.
Nesse período, outras seleções evoluíram.
A França reformulou sua base.
A Espanha revolucionou seu estilo.
A Alemanha reconstruiu sua formação.
A Argentina reorganizou seu projeto e voltou a conquistar uma Copa do Mundo.
Enquanto isso, o Brasil parece viver de lembranças.
O problema nunca foi apenas o treinador.
Também não é apenas o jogador.
Nem apenas a diretoria.
É um conjunto de decisões que, pouco a pouco, afastou a Seleção de sua essência.
O futebol brasileiro sempre foi respeitado porque revelava talentos em quantidade e qualidade incomparáveis.
Porque seus campeonatos eram fortes.
Porque seus treinadores tinham personalidade.
Porque existia identidade.
Hoje, muitos torcedores sequer conseguem decorar a escalação da Seleção.
Outros preferem acompanhar seus clubes do que assistir aos jogos da equipe nacional.
Isso talvez seja o maior sintoma da crise.
Não se perdeu apenas rendimento.
Perdeu-se conexão.
A camisa amarela já não desperta unanimidade.
A Seleção já não mobiliza o país como antes.
Isso não acontece por acaso.
É consequência de escolhas que privilegiaram estratégias de mercado, agendas internacionais e interesses comerciais, muitas vezes em detrimento da identificação com o futebol praticado dentro do Brasil.
Nenhuma seleção vence apenas olhando para o passado.
Também não se reconstrói uma potência ignorando suas próprias raízes.
O Brasil continua produzindo grandes jogadores.
Continua formando técnicos competentes.
Continua sendo um dos maiores celeiros de talentos do planeta.
O que falta talvez não seja qualidade.
Falta confiança em si mesmo.
Enquanto a camisa da Seleção parecer mais conectada aos centros de negócios do futebol europeu do que aos gramados brasileiros, continuará existindo a sensação de que o maior patrimônio esportivo do país deixou de representar plenamente o seu povo.
Recuperar a identidade não significa rejeitar ideias estrangeiras, mas lembrar que a história das cinco estrelas foi escrita quando o Brasil acreditava no seu próprio futebol.
Talvez a maior convocação que a Seleção precise fazer não seja de um jogador ou de um treinador.
Seja a convocação de sua própria essência.




