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QUANDO O ATAQUE TEM GÊNERO

A violência política de gênero raramente começa no grito. Ela se instala na repetição calculada dos desgastes. por Luana de Ávila e Silva Oliveira Fragomeni

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/Edição N.314
24/03/2026 às 16h06
QUANDO O ATAQUE TEM GÊNERO

Luana de Ávila e Silva Oliveira Fragomeni

Vice-presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal e Diretora de Pesquisas Jurídicas da Confederação Brasileira dos Policiais Civis (COBRAPOL).

A violência política de gênero raramente começa no grito. Ela se instala na repetição calculada dos desgastes. O objetivo não é apenas vencer uma divergência, mas tornar insuportável a permanência da mulher no espaço que ela ocupa. Quando a violência quer um rosto, quando quer um nome para moer, quando quer transformar alguém em alvo preferencial de desgaste, escolhe a mulher.

No mês da mulher, nós precisamos conversar. Precisei de três dias para transformar essa experiência em artigo. Três dias para sair do impacto bruto e tentar organizar em palavras algo que me atravessou de forma profunda, para transformar dor em reflexão. Mas chegou um ponto em que silenciar passou a ser conivência. Então, resolvi escrever.

Você não me conhece, mas meu nome é Luana e sou Policial Civil há 12 anos. Quem convive comigo sabe do meu comprometimento, do quanto levo a sério as funções que exerço, o quanto me preparo e tento fazer bem aquilo que me proponho a fazer.

Também sou vice-presidente do Sindicato dos Policiais Civis do Distrito Federal e diretora de pesquisas jurídicas da Confederação Brasileira dos Policiais Civis – COBRAPOL. Minha atuação, tanto na polícia, como na representação política da categoria, é técnica, séria e dedicada. Eu lido com debate público, divergência, disputa de ideias e enfrentamento político. Não sou frágil diante da crítica e não preciso de blindagem contra discordâncias.

Mas o que está acontecendo não é crítica. Não passa uma semana sem um ataque pessoal a mim. Nós temos presidente homem. Temos diretores homens atuantes, combativos, alguns até mais duros que eu. Os ataques genéricos à diretoria existem. Mas, quando o ataque ganha nome, insistência e personalização, o alvo recorrente sou eu. A MULHER.

É sobre isso que precisamos conversar. Porque violência política de gênero não acontece apenas nos partidos ou nos mandatos eletivos. Ela também acontece nos mais diversos espaços de representação, nas entidades de classe e nas instituições. Ela acontece quando uma mulher que ocupa lugar de fala e de liderança passa a ser perseguida, deslegitimada e atacada não pelo que defende, mas por quem é.

A mulher firme é chamada de exagerada. A mulher crítica é tratada como incômoda. A mulher que denuncia misoginia é acusada de vitimismo. E assim se constrói um mecanismo perverso: esvazia-se a substância do que ela diz para desgastar a imagem de quem ela é.

É isso que eu tenho vivido semana após semana. Atacam minha honra. Inventam mentiras. Espalham fake news. Criam caricaturas. Monitoram obsessivamente meu nome para tentar servir ao constrangimento, à vigilância e ao desgaste pessoal. O que existe não é fiscalização legítima, mas perseguição. E esse não foi um fato isolado.

Ao longo do mandato classista fui seguida, filmada, alvo de denúncia falsa, exposta publicamente em razão dessa acusação falsa em rede de TV aberta. Houve arquivamento, mas a reparação não recebeu visibilidade. O dano restou para mim.

E, como se tudo isso não bastasse, resolveram no último episódio atravessar a fronteira mais íntima de todas: a minha família. Trouxeram meu irmão para o centro do ataque. Meu irmão não é policial, não está em campanha, não integra a carreira e jamais participou da política da Polícia Civil. Ainda assim, foi trazido para o centro do ataque, justamente porque sabiam que ali havia dor.

Pegaram talvez o momento mais vulnerável da minha vida. Um momento de desespero real, de sofrimento real, de medo real. E transformaram isso em material de ataque. Fizeram deboche. Fizeram figurinha. Fizeram isso de forma deliberada, para me desestabilizar, para me ferir no mais profundo. Isso não é debate político. Isso é crueldade.

E quando alguém diz que é exagero, que é vitimismo, eu preciso responder com clareza: não, não é. Exagero seria fingir que isso é normal. Exagero seria tratar perseguição reiterada como se fosse embate comum. Exagero seria naturalizar o uso da dor íntima de uma mulher como arma pública de desgaste moral.

É impossível ignorar um dado político relevante: nenhum diretor homem passou pelo mesmo desgaste. O que está acontecendo comigo tem método. Tem repetição. Tem foco. Tem intencionalidade. E tem gênero.

A violência política de gênero raramente começa no grito. Ela se instala na repetição calculada dos desgastes. O objetivo não é apenas vencer uma divergência, mas tornar insuportável a permanência da mulher no espaço que ela ocupa. Quando a violência quer um rosto, quando quer um nome para moer, quando quer transformar alguém em alvo preferencial de desgaste, escolhe a mulher.

Na polícia, isso ganha contornos ainda mais evidentes. Somos cerca de 30% da instituição, mas esse percentual não se converte em presença equivalente nos espaços de chefia, comando e decisão. Quanto mais alto o cargo, menos mulheres.

Ainda ouvimos piadas sexistas como se fossem parte inevitável da cultura policial. Ainda há estruturas que não consideram adequadamente nossos corpos. Ainda há desconfiança sobre a nossa força, autoridade e capacidade de liderar, especialmente departamento mais operacionais ou ligados a delitos mais cruentos.

Nos espaços de representação de classe isso também acontece. Ainda é frequente que mulheres sejam raras em instâncias de debate público e de decisão, e é notório que, por vezes, há o convite por exigência simbólica de representatividade. Raramente se indaga qual a trajetória intelectual ou a contribuição técnica para o debate. A presença feminina é necessária, mas a autoridade intelectual ainda parece sob suspeita.

Esse processo se aprofunda quando aquilo que a mulher afirma precisa ser convalidado por um homem para adquirir legitimidade. Esse mecanismo silencioso de validação masculina opera como uma forma estrutural de violência política de gênero, porque não apenas limita a autoridade das mulheres, mas também as mantém permanentemente em posição de prova

Escrevo isso sem vontade de enfeitar nada. Sem romantizar dor. Eu sou uma pessoa otimista, gosto de transformar dificuldade em construção. Mas, desta vez, eu não estava conseguindo. E talvez aí, tenha emergido a parte mais bonita de todo esse episódio.

A repercussão da denúncia me mostrou uma coisa muito importante: denunciar aciona a rede. E a rede respondeu. Veio apoio, carinho, escuta, acolhimento e uma força recíproca que me emocionou profundamente. Totalmente inesperados.

Isso me devolveu clareza. Clareza de que falar vale a pena. Clareza de que a denúncia não é só exposição da ferida, mas também convocação de presença. Clareza de que o suporte mútuo sustenta de verdade.

Eu escrevi este artigo a partir de uma experiência pessoal, mas que não se esgota em mim. Ele termina na certeza de que a denúncia abre espaço para que outras se reconheçam, se protejam e se levantem também.

É verdade que há momentos em que tentam nos destruir. É verdade que há momentos em que a brutalidade quase nos apaga. Mas também é verdade que, quando a rede vem, a gente volta. A cada gota de acolhimento, nosso oceano fica maior e a gente se recompõe. E, às vezes, como fênix, reerga ainda mais forte.

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