Segunda, 08 de Junho de 2026
25°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

O perigo da história única na discussão da maioridade penal

Não há solução rápida, pronta ou mágica para o enfrentamento da violência. A sanha punitivista, marcada pela reiterada retomada da discussão da redução da maioridade penal, cumpre o papel do desserviço.  Por Juliana Brandão

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.313
19/03/2026 às 12h35
O perigo da história única na discussão da maioridade penal

Juliana Brandão

Doutora em Direitos Humanos pela USP e pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Foi mais uma vez por pouco que a redução da maioridade penal não prosseguiu no debate legislativo. A PEC da Segurança Pública, aprovada no último dia 4 de março, em primeiro turno na Câmara, trazia entre seus pontos a previsão de um referendo sobre o rebaixamento da idade penal de 18 para 16 anos, em casos de crimes violentos.

Em um acordo costurado para não obstruir a votação da PEC, a discussão da redução ficou para um até breve, com a sinalização de que não tardará a voltar. E é certo que o tema permanece em latência, no bojo dos casos do cachorro Orelha, em Florianópolis, e do estupro coletivo, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

O quanto somos impressionáveis e vulneráveis frente a uma narrativa, é o poderoso chamado que Chimamanda Adichie nos fez, aos nos alertar para os perigos da história única. Trazendo esse pensamento para a leitura que coloca em xeque a idade penal, que juridicamente temos hoje, reduzimos o conflito com a lei, na adolescência, a uma versão que apenas contempla como saída o endurecimento do viés punitivo. E esse continua sendo endereçado àqueles que estão massivamente presentes no sistema socioeducativo, considerando o recorte racial – os adolescentes negros.

Em nome da urgência e da resposta rápida, o remédio é o discurso moralizante. Travado no calor dos acontecimentos, sem lastro técnico, ele é catalisador da narrativa que satisfaz manchetes, mas não enfrenta questões estruturais.

De forma alguma quero aqui minimizar a complexidade de atos infracionais, sobretudo os de natureza grave. Justamente o contrário. Assumindo que temos aí questões que transcendem a esfera do privado e impactam o coletivo, precisamos lançar mão de estratégias que ataquem as causas, com planejamento e sem improviso.

Justiça não se confunde com vingança.  Tampouco admite espetáculo para sua realização. Exige equilíbrio e parâmetros.  Por isso, o populismo penal e legislações penais de emergência não são estratégias que reduzem a criminalidade. Precisamos sim de políticas públicas baseadas em evidências,  que dão a real dimensão dos desafios que temos na segurança pública.

Temos então que colocar em questão que a ênfase nas notícias de atos infracionais alimenta a falsa ideia de que adolescentes são os grandes responsáveis pelas ocorrências mais bárbaras no Brasil. O que temos constatado pela dinâmica dos dados é o extermínio da juventude pobre e negra.

A violência letal contra adolescentes, na contramão de um quadro de decréscimo dos índices gerais das mortes violentas intencionais, deu origem a 2.103 mortes violentas em 2024. No mesmo período, houve diminuição do número de adolescentes cumprindo medida socioeducativa em meio fechado. (Anuário Brasileiro de Segurança Pública,  FBSP/2025). No recorte racial, eram negros cerca de 7 em cada 10 adolescentes em medidas de meio fechado (Sinase, 2024).

É possível afirmar que um contingente de 0,5% dos adolescentes brasileiros foi apreendido por ato infracional ou inserido em algum tipo de medida socioeducativa em 2024, tomando por base a população de 12 a 17 anos identificada pelo Censo 2033 do IBGE (16.860.754 adolescentes). Além disso, é importante que se diga que os atos infracionais mais frequentes entre os adolescentes não são os crimes contra a vida, mas os crimes de roubo (31,7%) e o tráfico de drogas (27%). (Sinase, 2024).

Não há solução rápida, tampouco pronta ou mágica para o enfrentamento da violência. Assim é que a sanha punitivista, marcada pela reiterada retomada da discussão da redução da maioridade penal, cumpre o papel do desserviço, desconsiderando dados estatísticos. A história única acaba figurando como mais uma das expressões do racismo, emprestando lentes interpretativas que apenas reforçam que adolescentes negros não são merecedores de dignidade e respeito.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.313

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 11 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 11 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 11 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 11 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 11 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 25°
25° Sensação
6.07 km/h Vento
69% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h51 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 25°
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 +0,41%
Euro
R$ 5,99 +0,53%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 347,793,85 +2,65%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio