Sexta, 23 de Outubro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

O perigo da história única na discussão da maioridade penal

Não há solução rápida, pronta ou mágica para o enfrentamento da violência. A sanha punitivista, marcada pela reiterada retomada da discussão da redução da maioridade penal, cumpre o papel do desserviço.  Por Juliana Brandão

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.313
19/03/2026 às 12h35
O perigo da história única na discussão da maioridade penal

Juliana Brandão

Doutora em Direitos Humanos pela USP e pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Foi mais uma vez por pouco que a redução da maioridade penal não prosseguiu no debate legislativo. A PEC da Segurança Pública, aprovada no último dia 4 de março, em primeiro turno na Câmara, trazia entre seus pontos a previsão de um referendo sobre o rebaixamento da idade penal de 18 para 16 anos, em casos de crimes violentos.

Em um acordo costurado para não obstruir a votação da PEC, a discussão da redução ficou para um até breve, com a sinalização de que não tardará a voltar. E é certo que o tema permanece em latência, no bojo dos casos do cachorro Orelha, em Florianópolis, e do estupro coletivo, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

O quanto somos impressionáveis e vulneráveis frente a uma narrativa, é o poderoso chamado que Chimamanda Adichie nos fez, aos nos alertar para os perigos da história única. Trazendo esse pensamento para a leitura que coloca em xeque a idade penal, que juridicamente temos hoje, reduzimos o conflito com a lei, na adolescência, a uma versão que apenas contempla como saída o endurecimento do viés punitivo. E esse continua sendo endereçado àqueles que estão massivamente presentes no sistema socioeducativo, considerando o recorte racial – os adolescentes negros.

Em nome da urgência e da resposta rápida, o remédio é o discurso moralizante. Travado no calor dos acontecimentos, sem lastro técnico, ele é catalisador da narrativa que satisfaz manchetes, mas não enfrenta questões estruturais.

De forma alguma quero aqui minimizar a complexidade de atos infracionais, sobretudo os de natureza grave. Justamente o contrário. Assumindo que temos aí questões que transcendem a esfera do privado e impactam o coletivo, precisamos lançar mão de estratégias que ataquem as causas, com planejamento e sem improviso.

Justiça não se confunde com vingança.  Tampouco admite espetáculo para sua realização. Exige equilíbrio e parâmetros.  Por isso, o populismo penal e legislações penais de emergência não são estratégias que reduzem a criminalidade. Precisamos sim de políticas públicas baseadas em evidências,  que dão a real dimensão dos desafios que temos na segurança pública.

Temos então que colocar em questão que a ênfase nas notícias de atos infracionais alimenta a falsa ideia de que adolescentes são os grandes responsáveis pelas ocorrências mais bárbaras no Brasil. O que temos constatado pela dinâmica dos dados é o extermínio da juventude pobre e negra.

A violência letal contra adolescentes, na contramão de um quadro de decréscimo dos índices gerais das mortes violentas intencionais, deu origem a 2.103 mortes violentas em 2024. No mesmo período, houve diminuição do número de adolescentes cumprindo medida socioeducativa em meio fechado. (Anuário Brasileiro de Segurança Pública,  FBSP/2025). No recorte racial, eram negros cerca de 7 em cada 10 adolescentes em medidas de meio fechado (Sinase, 2024).

É possível afirmar que um contingente de 0,5% dos adolescentes brasileiros foi apreendido por ato infracional ou inserido em algum tipo de medida socioeducativa em 2024, tomando por base a população de 12 a 17 anos identificada pelo Censo 2033 do IBGE (16.860.754 adolescentes). Além disso, é importante que se diga que os atos infracionais mais frequentes entre os adolescentes não são os crimes contra a vida, mas os crimes de roubo (31,7%) e o tráfico de drogas (27%). (Sinase, 2024).

Não há solução rápida, tampouco pronta ou mágica para o enfrentamento da violência. Assim é que a sanha punitivista, marcada pela reiterada retomada da discussão da redução da maioridade penal, cumpre o papel do desserviço, desconsiderando dados estatísticos. A história única acaba figurando como mais uma das expressões do racismo, emprestando lentes interpretativas que apenas reforçam que adolescentes negros não são merecedores de dignidade e respeito.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.313

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Quem protege também precisa ser cuidado

Pesquisa identifica sinais relevantes de sofrimento psíquico e reforça a necessidade de prevenção e cuidado institucional permanente. por Luana Maria Lima Alves, Silvia dos Santos de Almeida e Alethea Maria Carolina Sales Bernardo

MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Menos registros, mais perguntas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes

A queda inédita nos registros de estupro de vulnerável em 2025 suscita a questão: estamos diante de uma redução efetiva da violência ou de uma mudança na capacidade de identificá-la e denunciá-la?. por Luciana Temer*

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Material de abuso sexual infantil: novas dinâmicas da violência no ambiente digital

A violência sexual contra crianças e adolescentes ganha novas dimensões no ambiente digital. Os microdados revelam a predominância de meninas entre as vítimas e a expressiva presença de adolescentes entre os autores. por Cauê Martins*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Ladrões do Centro paulistano

Pesquisa exploratória sobre determinados crimes no centro da capital paulista identificou alguns padrões de comportamento de ladrões, traficantes e receptadores de bens roubados na área. por Guaracy Minga

Desaparecidas Há 2 semanas

O aumento dos desaparecimentos e a urgência de respostas institucionais mais adequadas

O desaparecimento de pessoas continua sendo fenômeno de difícil compreensão, atravessado por diferentes causas e trajetórias. Enquanto os registros crescem, persistem lacunas na produção de informações, na articulação entre instituições e em uma legislação que ainda não contempla adequadamente essa diversidade. por Deise Nunes*

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo limpo
Mín. 25° Máx. 26°
28° Sensação
17.14 km/h Vento
78% Umidade
99% (1.19mm) Chance chuva
05h04 Nascer do sol
17h32 Pôr do sol
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 24°
Terça
27° 25°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL NA BAHIA

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM PERNAMBUCO

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM SERGIPE

```
Economia
Dólar
R$ 5,05 +0,07%
Euro
R$ 5,67 +0,11%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 437,911,59 +0,39%
Ibovespa
204,120,13 pts -1.15%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio