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MERCADO GLOBAL DE COCAÍNA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: o poder visível do sistema financeiro

Enquanto o mundo olhar mais para a produção de cocaína do que para o capital oriundo dessa mercadoria, seguiremos “combatendo o crime” para ocultarmos os verdadeiros criminosos. por Joana das Flores Duarte

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.300
14/11/2025 às 13h54
MERCADO GLOBAL DE COCAÍNA E ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS: o poder visível do sistema financeiro

O mercado global de cocaína é uma das atividades ilícitas mais lucrativas do mundo. As organizações criminosas que o controlam operam em escala local, regional e internacional. A atuação delas não se restringe ao que historicamente foi denominado por economias ilícitas e/ou subterrâneas. Atualmente, essas organizações criminosas são responsáveis pelos maiores fluxos de lavagem de dinheiro em instituições financeiras. Os valores operados nesse mercado chegam aos bilhões e dependem estritamente das instituições financeiras mundiais (bancos) para transformar esse dinheiro ilícito em lícito. A título de exemplo, citemos o relatório de investigação do Senado dos Estados Unidos, publicado em fevereiro de 2012, intitulado U.S Vulneratbilities to Money Laundering, Drugs, and Terrorist Financing: HSBC case history, que, dentre outros temas, aborda as transações ilegais do HSBC México para o HSBC dos EUA (Duarte, 2022).

O processo de financeirização desses mercados não foge à regra dos ditames do capital fictício, embora a base do capital produtivo prossiga em ascensão. Segundo dados do Relatório Mundial da ONU sobre Drogas de 2025 (UNODC, 2025), em um comparativo entre 2022 e 2023, o aumento das apreensões de cocaína foi de 13% e atingiu um marco histórico: o volume registrado em apreensões realizadas pelos Estados-membros da União Europeia (UE) superou 419 toneladas. Na mesma esteira, foi registrado recorde da produção global de cocaína em 2023: 3.708 toneladas, o que significa aumento de 34% em relação ao ano anterior e de 326,67% em uma década. A Colômbia permanece como a maior produtora e distribuidora de cocaína, representando aproximadamente 70% da produção mundial.

Diversos grupos comandam o mercado internacional de drogas, utilizando estratégias sofisticadas para produção, transporte e distribuição. Neste ensaio, destacamos os três cuja atuação se dá em escala global: ‘Ndrangheta (Itália), Kinahan (Irlanda) e Primeiro Comando da Capital (Brasil).

A ‘Ndrangheta tem sua origem na região da Calábria, sul da Itália, e começou a se formar no final do século XIX. Inicialmente composta por pequenos grupos familiares envolvidos em atividades como extorsão, sequestros e proteção ilegal, a organização cresceu silenciosamente, mantendo-se fora dos holofotes em comparação com a Cosa Nostra e a Camorra. No início dos anos 2000, essa organização expandiu sua atuação internacional, tornando-se protagonista no tráfico de cocaína entre a América do Sul e a Europa. Essa transformação se deu, em grande parte, por meio da lavagem de dinheiro de suas atividades e inserção no tráfico internacional de drogas, que, a partir de 1980, torna-se seu principal “negócio”. Estima-se que 3% do PIB italiano tem origem nos negócios da ‘Ndrangheta (Duarte, 2025).

Já a Kinahan Organized Crime Group (KOCG) é originária da Ilha da Irlanda, e também está estabelecida no Reino Unido, na Espanha e nos Emirados Árabes Unidos. Foi designada como uma importante organização criminosa transnacional. A KOCG surgiu no final da década de 1990 e início de 2000 como o grupo de crime organizado mais poderoso a operar na Irlanda. As atividades criminosas da KOCG, incluindo a lavagem de capitais internacionais, geram receitas no Reino Unido, depois reunidas e repassadas a criminosos locais antes de serem entregues a membros de grupos irlandeses fora do Reino Unido. A KOCG também utiliza frequentemente Dubai como centro de facilitação das suas atividades ilícitas (Duarte, 2025).

Em relação ao Primeiro Comando da Capital (PCC), seu contexto de surgimento é completamente diferente das demais organizações, o que também lhe atribui especificidades em relação ao modo operacional e uso já internacionalizado do sistema prisional para a organização e expansão do seu mercado. Fundado oficialmente em 1993, é somente a partir dos anos 2000 que o PCC amplia significativamente seu poder, estruturando uma rede sofisticada para o mercado global de drogas, especialmente cocaína. Atualmente, o grupo é reconhecido como organização criminosa a partir da sanção dos EUA, por lavar dinheiro no sistema financeiro americano. Com ampla atuação na América do Sul, com ramificações internacionais e forte impacto no mercado global de drogas, está presente em mais de 28 países.

A atuação dessas organizações provoca graves consequências, como o aumento da violência, corrupção de instituições públicas, desestabilização política e crises humanitárias. Comunidades inteiras são afetadas pela disputa entre essas organizações, e o mercado de cocaína tanto corresponde aos interesses do grande capital como subsidia materialmente, sob risco e violência, a vida dos mais destituídos de direitos e cidadania, em grande escala os varejistas, as carregadoras e migrantes. No tocante aos desafios, a atuação dos Estados prevalece com um modelo obsoleto de política de guerra às drogas, e não de atuação e regulação junto às organizações financeiras. Enquanto o mundo olhar para a produção de cocaína mais do que para o capital oriundo dessa mercadoria, seguiremos “combatendo o crime” para ocultarmos os verdadeiros criminosos.

Referências:

DUARTE, Joana das Flores. O novo açúcar: a rota da cocaína na perspectiva de gênero. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 30, n. 1, e75162, 2022. Disponível AQUI:

DUARTE, Joana das Flores. Guerra às drogas, organizações criminosas e encarceramento: conexões de poder. Revista de Políticas Públicas, v. 28, n. 2, p. 562–580, 15 jan. 2025. Disponível AQUI: Acesso em: 19 out. 2025.

UNITED NATIONS OFFICE ON DRUGS AND CRIME (UNODC). World Drug Report 2025. Viena: UNODC, 2025. Disponível AQUI:  Acesso em: 19 out. 2025.

(*) Joana das Flores Duarte - Doutora pela PUC/RS; professora na Universidade Federal de São Paulo. Integrante da rede Clacso.

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.300

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