Sexta, 24 de Abril de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Por que informação qualificada é fundamental para entender e enfrentar as facções criminosas no país

Mensurar a atuação desses grupos exclusivamente pelos indicadores criminais é um caminho que tem se mostrado ultrapassado, dada sua disseminação nos setores econômicos e políticos da sociedade brasileira. por Leonardo Silva e Ariadne Natal

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.300
14/11/2025 às 13h46
Por que informação qualificada é fundamental para entender e enfrentar as facções criminosas no país

Ao longo de sua existência, a humanidade vem avançando e acumulando conhecimento a partir de sua capacidade em observar e identificar como os elementos se conectam – e interagem – originando novos objetos e relações. Os diferentes ramos da ciência foram criando métodos de pesquisa, com alguns objetivos. Um deles é tentar antever o que acontecerá amanhã, qual será o resultado da combinação de elementos e interações no ambiente. Projeções econômicas, estimativas populacionais e previsões climáticas não deixam de ser exercícios de futurologia, a partir de métodos científicos, em suas respectivas áreas. Quando nos propomos a analisar fenômenos relativamente recentes, o desafio inicial é justamente selecionar quais dados e evidências iremos considerar.

É nesse lugar que situamos hoje o estudo sobre as facções criminosas no Brasil. Mensurar a atuação desses grupos exclusivamente pelos indicadores criminais é um caminho que tem se mostrado ultrapassado, dada sua disseminação nos setores econômicos e políticos da sociedade brasileira. Tampouco temos um repositório de dados sobre facções criminais tal como encontramos dados populacionais, de saúde ou educação, e, um dos motivos se dá justamente pelos diferentes impactos das atividades que acontecem a partir da atuação dessas organizações criminosas, diversidade essa que pode ser observada, por exemplo, nas diferentes perspectivas dos 82 artigos até agora publicados em outras edições do Fonte Segura[1] sobre o tema.

Controle territorial, tráfico de drogas, homicídios, desaparecimento de pessoas, tráfico de armas, roubos a instituições financeiras e extorsões são crimes que mais diretamente são associados às facções criminosas. Contudo, é preciso colocar nessa equação outras variáveis para que possamos construir um diagnóstico real do problema. Para muito além do narcotráfico, estudos do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (Follow de Products, 2025[2] e Lavagem de dinheiro e enfrentamento do crime organizado no Brasil[3]) demonstraram que esses grupos se inserem em diversos mercados lícitos e ilícitos (tais como combustíveis, bebidas, tabaco, ouro, jogos de apostas e criptoativos), alavancados por sofisticadas estratégias de lavagem de dinheiro, formando um ecossistema com grande capilaridade, influência econômica e capacidade de corromper instituições e atores políticos em diversos lugares do país. Os maiores desafios para o controle e combate às facções criminais está justamente em lidar com sua constante expansão das fronteiras tanto geográficas, quanto de mercado.

Uma das dificuldades na consolidação de tais evidências é que muitas vezes elas são produzidas por órgãos que não têm tradição em políticas de transparência ativa. Em outros casos, os dados se encontram na forma de registros administrativos diversos, que demandam trabalho especializado para sua sistematização. Informações de movimentação financeira, contratos sociais de composições societárias, por exemplo, precisam ser compiladas para que possam, a partir de uma análise combinada, evidenciar a atuação de facções criminosas em diferentes ramos.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) vem ao longo dos últimos anos se debruçando sobre o processo de expansão das organizações criminais de modelo faccionado no território nacional, um fenômeno que afeta múltiplas dimensões da sociedade brasileira. Levantamentos indicam que atualmente existem ao menos 72 facções[4] de base prisional em atuação no país, sendo duas delas (CV e PCC) com atuação transnacional.

Segundo estudo recente realizado pelo FBSP em parceria com o DATAFOLHA[5], 19% dos brasileiros com mais de 16 anos vivem em áreas com a presença do crime organizado. Isto equivale a mais de 31 milhões de pessoas. Na edição de 2024 da mesma pesquisa, esse percentual era de 14%, revelando que o controle territorial por facções criminosas vem crescendo no Brasil na percepção da população[6].

O controle territorial por parte do crime organizado não considera os limites circunscricionais de atuação dos agentes públicos, uma vez que as facções estão constantemente buscando estratégias para consolidar sua atuação nos mercados ilícitos. O controle territorial surge então como pré-requisito para essa atuação – tal observação pode ser exemplificada pela constatação da presença do Comando Vermelho na Amazônia Legal, buscando dominar o território para viabilizar as rotas de drogas. Nesse processo foi observado o uso de violência como forma de subjugar a população, como tem sido apontado pelos relatórios Cartografias da Violência na Amazônia[7], que mostram as altas taxas de mortes violentas intencionais na região em comparação com o restante do país.

Considerando o nível de capilaridade do controle territorial e a diversidade de suas atividades, o combate às facções criminosas no Brasil não pode se limitar à atuação ostensiva/repressiva das polícias. Mesmo que o tráfico de drogas seja uma de suas atividades, decerto não é a única e talvez nem a que mais lhe aufere lucro. Para ser eficientes e sustentáveis ao longo do tempo, o Estado precisa desenvolver ações com atuação de especialistas de diferentes áreas, trabalhando em conjunto, de forma coordenada, para que se desenvolvam fluxos de investigação capazes de mirar nos diferentes mercados de atuação desses grupos criminosos. É necessário ampliar os mecanismos de fiscalização, transparência e inteligência financeira, capazes de produzir informações que identifiquem os circuitos e estrangulem fluxos de recursos, a ponto de afetar e inviabilizar suas operações.

As redes criminosas comprometem a democracia, o desenvolvimento econômico e a qualidade de vida da população. Diante do processo de sofisticação, expansão territorial e diversificação de seus negócios ilícitos e lícitos, entendemos que o enfrentamento ao crime organizado no Brasil exige novas estratégias de atuação por parte do Estado (aqui considerando seus três níveis de atuação) e também a colaboração regular de empresas privadas, tais como as instituições financeiras, empresas de telecomunicações etc. Além disso, o conhecimento produzido por instituições não governamentais tem um grande potencial nessa pauta, pois conseguem articular e combinar evidências que isoladamente pouco informam, mas que em conjunto proporcionam novas perspectivas sobre a atuação das facções criminosas, tal como fizemos ao longo deste artigo, utilizando os dados produzidos pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Referências

[1] Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br  . Acessado em 21/10/2025

[2] Nascimento, Nívio; Pazinato, Eduardo; De Lima, Renato Sérgio; Marques David; Matosinhos, Isabella; De Carvalho Leonardo; Carvalho Thais. Follow the products: Rastreamento de produtos e enfrentamento ao crime organizado no Brasil. Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025.

[3] FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Lavagem de dinheiro e enfrentamento ao crime organizado no Brasil: reflexões sobre o Coaf em perspectiva comparada. São Paulo: Instituto Esfera de Estudos e Inovação, Jun 2025.

[4] FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA; ESFERA BRASIL. Segurança Pública e Crime Organizado no Brasil. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública; Esfera Brasil, 2024. 86 p.

[5] FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA; DATAFOLHA. Pesquisa de vitimização e percepção sobre violência e segurança pública: 2025.

[6] FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA; DATAFOLHA. Pesquisa de vitimização e percepção sobre violência e segurança pública, 2024. 86p.

[7] FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Cartografias da violência na Amazônia. Vol. 3. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2024. Disponível AQUI:

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Cartografias da violência na Amazônia. 2. ed. São Paulo: FBSP, 2023. Disponível AQUI:

FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Cartografias das violências na região amazônica: relatório final. São Paulo: FBSP, 2022. Disponível AQUI:

(*) Leonardo Silva - Doutor em Planejamento Urbano pelo IPPUR/UFRJ e Pesquisador Sênior do FBSP.

(*) Ariadne Natal - Pesquisadora Sênior do Núcleo de Estudos da Violência da USP e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.300

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

**INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 3 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 3 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 3 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 3 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
29° Sensação
5.51 km/h Vento
74% Umidade
100% (16.69mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h23 Pôr do sol
Sábado
27° 26°
Domingo
27° 26°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 -0,88%
Euro
R$ 5,84 -0,58%
Peso Argentino
R$ 0,00 -2,78%
Bitcoin
R$ 409,609,92 -0,35%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio