
Em conversa franca no programa Arena Oeste, realizado em São Paulo no dia 23 de outubro de 2025, a jurista Eliana Calmon, ex-ministra do Superior Tribunal de Justiça e primeira mulher a ocupar a Corregedoria Nacional de Justiça, fez duras críticas à condução dos processos envolvendo os atos de 8 de janeiro de 2023 e ao que chama de “ativismo político” do Supremo Tribunal Federal (STF). Aos 73 anos, Calmon afirmou não falar como militante, mas como “cidadã preocupada com o rumo das instituições”.
Segundo ela, o episódio foi transformado em uma “narrativa política” para inviabilizar a participação de Jair Bolsonaro nas eleições de 2026. “O 8 de janeiro foi o fechamento de uma história construída para tirar Bolsonaro do jogo político”, disse, questionando a caracterização dos atos como tentativa de golpe. “Não há golpe com idosos e vendedores ambulantes, sem soldados e sem armas”, ironizou.
A jurista recordou que, após a derrota eleitoral de 2022, Bolsonaro participou do processo de transição e viajou para os Estados Unidos antes das manifestações. Para Calmon, o caso foi inflado por interesses eleitorais e pela necessidade de consolidar a inelegibilidade do ex-presidente. “Há uma narrativa em curso dentro do Judiciário para afastar Bolsonaro antes de 2026”, afirmou.
Críticas ao Supremo
Calmon dedicou parte da entrevista a apontar o que considera o “excesso de poder” do STF, descrevendo-o como um “tribunal político” isolado da sociedade e movido por disputas internas. “Não vejo possibilidade de os ministros admitirem erros. Vivem numa bolha, com o ego inflado, e atuam fora do que a Constituição prevê”, disse. Para ela, a Corte deveria restringir-se a questões constitucionais, deixando demandas comuns para os tribunais inferiores.A ex-ministra voltou a criticar o ministro Alexandre de Moraes, dizendo que o magistrado estaria em “descontrole”, e defendeu uma reforma institucional que limite o alcance do Supremo. Também atacou a postura da OAB, que, em sua visão, “deixou de defender a Constituição para se alinhar ao sistema”.
A “descondenação” de Lula
Outro ponto polêmico da entrevista foi a afirmação de que Bolsonaro teria provocado o STF a “resgatar Lula” para impedir o avanço da direita. Segundo Calmon, quando o então presidente sugeriu transformar o Supremo em uma corte constitucional, acendeu-se um alerta dentro da instituição. “O bote para a salvação do Supremo chama-se Lula da Silva”, resumiu, associando a anulação das condenações da Lava Jato ao temor de mudanças estruturais.
Especialistas, no entanto, lembram que as irregularidades da Lava Jato foram comprovadas por mensagens obtidas na Operação Spoofing e que as anulações de Lula se basearam em falhas processuais, não em acordos políticos — pontos que Calmon não abordou.
Um discurso que divide opiniões
A entrevista rapidamente ganhou destaque nas redes, sendo celebrada por setores bolsonaristas e criticada por juristas e jornalistas que a consideram parte de uma ofensiva política contra o STF. Calmon, que construiu sua reputação combatendo a corrupção dentro do Judiciário, agora volta ao debate público como voz dissonante em um cenário de forte polarização.
Ao questionar a narrativa oficial sobre o 8 de janeiro e denunciar o que chama de “ativismo judicial”, Eliana Calmon reacende uma discussão antiga: até onde o Supremo pode ir sem ultrapassar os limites do poder que a Constituição lhe confere. Sua fala reflete a crescente desconfiança em relação às instituições, mas também evidencia como o discurso jurídico se tornou campo de disputa política no Brasil.
Entre o alerta e a provocação, a ex-ministra devolve à arena pública uma pergunta essencial: o Judiciário está a serviço da lei ou de narrativas?
ARENA OESTE #24 – Eliana Calmon - Magistrada, Jurista e Professora
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