Terça, 10 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Masculinidade, saúde mental e prisão: o silêncio que adoece

A agressividade dos homens encarcerados, longe de ser interpretada como um pedido de ajuda, é tomada como risco à segurança e respondida com isolamento, repressão e intensificação da vigilância. Por Gustavo Bernardes

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.299
31/10/2025 às 14h18
Masculinidade, saúde mental e prisão: o silêncio que adoece

A experiência da prisão é marcada pela negação de direitos básicos e pela intensificação de precariedades. Se o encarceramento no Brasil já significa superlotação, violência e condições degradantes, os obstáculos se multiplicam quando o assunto é saúde mental. Entre os homens privados de liberdade, a dificuldade de pedir ajuda diante de um sofrimento psíquico não é apenas produto da precariedade do sistema, mas está intrinsecamente relacionada às normas de masculinidade que atravessam o cotidiano carcerário.

Segundo Butler (2005), o sexo não se limita às distinções anatômicas, pois ultrapassa a mera dimensão biológica do corpo. Trata-se de uma construção normativa da cultura que atua sobre a materialidade corporal, impondo-se como um regime regulador que define, delimita e diferencia os corpos. Essa normatividade cultural, portanto, não apenas descreve os corpos, mas os governa e dociliza, operando como um dispositivo de poder que produz e controla as formas possíveis de existência corporal e de gênero.

Silva et al. (2021) dizem que os discursos e práticas da masculinidade tradicional operam como uma das principais barreiras para que os homens reconheçam, expressem e busquem cuidado para seu sofrimento mental. Segundo os autores, essas normas sociais moldam expectativas de força, invulnerabilidade emocional e autossuficiência, produzindo um vácuo simbólico no qual vulnerabilidades e angústias são percebidas como falhas de caráter.

O estudo de Campos et al. (2017) corrobora achados encontrados em estudos recentes que afirmam que uma das maiores vulnerabilidades da população masculina relacionada à saúde mental diz respeito à grande dificuldade que os homens têm de buscar ajuda para seus sofrimentos psíquicos, o que os leva a acessar tratamento apenas em condições de saúde física ou mental mais agravadas.

Na cultura ocidental, os homens são subjetivados num ideal hegemônico de virilidade. Essa masculinidade hegemônica pressiona o sujeito masculino a mascarar seus sentimentos, suprimindo a expressão afetiva que revelaria fragilidade, o que os leva a raramente chorar em público. Expressar-se afetivamente é interpretado pelo patriarcado como próprio de “frescos”, característica rejeitada pelo masculino.

Portanto, é necessário que os sujeitos convertam fragilidades em condutas “toleráveis”, como agressividade, comportamentos de risco ou controle excessivo sobre o ambiente, em vez de admitir fraqueza e pedir apoio.

A masculinidade como barreira ao cuidado

As pesquisas sobre saúde do homem apontam que o modelo hegemônico de masculinidade constrói sujeitos resistentes ao autocuidado, associando o reconhecimento da dor, da fragilidade ou da necessidade de ajuda a sinais de fraqueza. Esse padrão cultural, reforçado em ambientes de violência como as prisões, transforma o sofrimento psíquico em algo a ser ocultado ou, quando expresso, manifestado em atos de agressividade e indisciplina.

Nardi e Santos (2014) destacam que, em um espaço que já é produtor de “morte social”, a reafirmação da virilidade torna-se imperativo para sobreviver. Ser homem, no cárcere, implica “não falar de sentimentos, fraquezas ou medos” e, sobretudo, não se diferenciar do grupo. Assim, a agressividade aparece como linguagem possível para a expressão do sofrimento, reforçando a associação entre masculinidade e violência.

Silva et al. (2021) enfatizam que essa dinâmica não é apenas individual, mas também se reflete nas instituições de saúde e nos modos de oferta de cuidado. Os serviços tendem, muitas vezes, a não acolher as formas como os homens manifestam sofrimento, seja por desconfiança frente ao relato emocional, seja por priorizar sintomas físicos ou “queixas somáticas”. Assim, o cuidado singular (a clínica individual) corre o risco de reforçar o invisível: aquilo que o homem não verbaliza, seja por vergonha, por medo de desqualificação, por autoestima fragilizada, permanece subdiagnosticado ou mal entendido.

A resposta do sistema: mais controle

O que poderia ser compreendido como sintoma de sofrimento psíquico recebe, no cotidiano prisional, tratamento disciplinar. A agressividade dos homens encarcerados, longe de ser interpretada como um pedido de ajuda, é tomada como risco à segurança e respondida com isolamento, repressão e intensificação da vigilância.

Essa lógica aprofunda o ciclo de adoecimento: quanto mais o sujeito expressa sofrimento de forma violenta, mais o sistema reforça dispositivos de contenção que ampliam a violência institucional.

A literatura mostra que a saúde mental é vista de modo secundário nas políticas prisionais. O Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário (2003) e a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade (2014) reconhecem a necessidade de cuidado integral, mas a prática cotidiana ainda privilegia ações biomédicas, curativas e centradas no corpo físico. O sofrimento psíquico permanece invisível, ou tratado apenas em situações-limite.

O paradoxo da virilidade

O silêncio diante do adoecimento mental se conecta a uma contradição: se, por um lado, os homens presos se mostram vulneráveis às doenças e à violência institucional, por outro, são compelidos a sustentar um ideal de virilidade que nega a fragilidade e impede a busca por cuidado. Como observa Mota (2017), o cárcere se apresenta como um “território eminentemente masculino”, onde práticas machistas tanto dos profissionais de saúde quanto dos internos reforçam a dificuldade de reconhecimento do sofrimento e a baixa adesão às práticas de cuidado.

Essa engrenagem produz uma dupla vulnerabilidade: a de ser homem em uma sociedade que valoriza a virilidade e a de ser preso em um sistema que nega direitos básicos. Como consequência, o sofrimento mental se transforma em violência, seja contra si, seja contra os outros.

Considerações finais

Pensar a relação entre masculinidade, saúde mental e prisão exige ir além da leitura individualizada do adoecimento. Trata-se de compreender como normas de gênero, dispositivos disciplinares e políticas de saúde se entrelaçam para produzir um cenário no qual pedir ajuda é quase impossível. A agressividade não é apenas expressão de violência, mas também linguagem de um sofrimento silenciado

Se a resposta institucional continuar sendo apenas o reforço do controle, estaremos diante de um círculo vicioso: homens que não pedem ajuda porque não podem parecer fracos; que expressam sofrimento por meio da agressividade; e que recebem, como resposta, ainda mais repressão.

Silva et al. (2021) argumentam que romper esse ciclo de silenciamento depende de ações articuladas entre o simbólico e o concreto: é preciso promover um acolhimento sensível ao gênero, capacitando profissionais de saúde para identificar expressões específicas de sofrimento masculino; criar espaços coletivos de diálogo que permitam aos homens compartilhar emoções e fragilidades; investir em políticas públicas e campanhas que desnaturalizem a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza; e integrar o cuidado individual e o coletivo, valorizando iniciativas comunitárias e territoriais.

Assim, enfrentar o silenciamento dos homens implica reconfigurar o modo como a sociedade compreende o cuidado e construir uma cultura de saúde mental baseada na empatia, na escuta e no reconhecimento das múltiplas formas de ser homem.

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. Brasília, 2009.

BRASIL. Ministério da Saúde; Ministério da Justiça. Plano Nacional de Saúde no Sistema Penitenciário. Brasília, 2003.

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Atenção Integral à Saúde das Pessoas Privadas de Liberdade no Sistema Prisional. Brasília, 2014.

BUTLER,J. Cuerpos que importam: sobre os limites materiales y discursivos del ‘sexo’. Buenos Aires: Paidós, 2005.

CAMPOS, Ioneide de Oliveira; RAMALHO, Walter Massa; ZANELLO, Valeska M. Loyola. Saúde mental e gênero: o perfil sociodemográfico de pacientes em um centro de atenção psicossocial. Estudos de Psicologia, v. 22, n.1, p. 68 – 77, 2017.

MOTA, Igor Carlos Cunha. Saúde na prisão: discursos e práticas de homens privados de liberdade sobre a produção de cuidado à saúde ofertada em uma instituição penal do estado da Bahia. Dissertação (Mestrado em Segurança Pública, Justiça e Cidadania) – Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2017

NARDI, Henrique Caetano; SANTOS, Helen Barbosa dos. Masculinidades entre matar e morrer: o que a saúde tem a ver com isso? Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 24, n. 3, p. 931-949, 2014

SILVA, Leonardo Nascimento da; SILVA, Felipe Ramos da; CORDEIRO, Renata dos Santos; SILVA, Roberto Carlos Lyra da. Masculinidades e sofrimento mental: do cuidado singular ao coletivo. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 26, n. 10, p. 4613-4622, out. 2021. DOI: 10.1590/1413-812320212610.09822021. Disponível AQUI:

(*) Gustavo Bernardes - Advogado, especialista em psicologia social pela UFRGS, mestrando em Sociologia no PPGSol/UnB, pesquisador do LabGEPEN/UnB.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.299

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

**INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
29°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
33° Sensação
6.21 km/h Vento
74% Umidade
38% (0.34mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quarta
27° 26°
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 25°
Sábado
28° 26°
Domingo
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,16 +0,04%
Euro
R$ 5,99 -0,13%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 382,862,88 +1,65%
Ibovespa
183,332,38 pts 1.34%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio