Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Nós, policiais ou não, e a Reforma Administrativa (PEC 38): quem precisa de inimigos? (Parte I)

A Proposta de Emenda Constitucional engessa sobremaneira as possibilidades de aumento salarial do funcionalismo, desrespeitando frontalmente as categorias policiais que já atravessam anos de defasagem remuneratória. Por Lívio José Lima-e-Rocha

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.299
31/10/2025 às 12h38 Atualizada em 31/10/2025 às 12h49
Nós, policiais ou não, e a Reforma Administrativa (PEC 38): quem precisa de inimigos? (Parte I)

A Proposta de Emenda Constitucional engessa sobremaneira as possibilidades de aumento salarial do funcionalismo, desrespeitando frontalmente as categorias policiais que já atravessam anos de defasagem remuneratória.  

“Dourar a pílula” é uma expressão popular com origem no hábito de farmacêuticos do passado de envolver remédios amargos em camadas douradas ou açucaradas para diminuir a rejeição. Em tese, remédios servem para melhorar a saúde. No caso da PEC 38/2025, a atual proposta de Reforma Administrativa, a pílula é mais parecida com um veneno elegantemente embalado. A proposta não visa melhorar a condição dos servidores públicos, incluindo os profissionais da segurança pública. Seu objetivo central é precarizar o serviço público.

Primeiro, vamos retirar alguns elefantes da sala. Nos anos 90, em uma época de poucos canais de TV, os governos veiculavam, com frequência próxima à lavagem cerebral, propagandas que comparavam a gestão pública a um elefante: grande, desajeitado e um obstáculo ao desenvolvimento do país. Reduziam uma questão complexa a uma lógica binária: público = ruim; privado = bom. Hoje, sabemos que o objetivo era a chamada “privataria”: precarizar intencionalmente os serviços e seu funcionalismo para justificar privatizações e concessões lesivas ao Erário. Pensando bem, o que mudou desde então?

O segundo elefante é a confusão deliberada entre melhorar a gestão pública e precarizar o setor público. A PEC vende a precarização como se fosse melhoria. Para evitar uma revisão extensa da literatura, mantemos a discussão simples, porém não simplória: a sociedade quer uma administração pública melhor. Estudos da área sempre criticaram o mecanicismo (servidores como engrenagens sem visão do todo), o insulamento burocrático (tecnocratas isolados da realidade política) e os cargos comissionados usados para nepotismo e apadrinhamento. São problemas complexos, que exigem soluções igualmente complexas.

Agora que retiramos os principais elefantes da sala, vejamos o que a PEC 38/2025 tem para melhorar o trabalho na segurança pública.

Qualquer proposta séria de gestão começa por um diagnóstico preciso. Na segurança pública, ele é alarmante: baixa procura por cargos (algumas polícias estaduais precisaram abrir concurso três vezes no mesmo ano), evasão de aprovados (concursos com taxas de 10% a 20% de desistência) e, o mais grave, o adoecimento mental dos policiais. Conforme o Anuário Brasileiro da Segurança Pública de 2025, o suicídio é a maior causa de morte entre policiais ano após ano. Trata-se do ponto final de um acúmulo de fatores, não de um ato repentino. Assim disposto esse cenário do trabalho policial, o que esperar de uma Reforma Administrativa? Esperamos o aperfeiçoamento de mecanismos de gestão de pessoas que estimulem o ingresso, permanência saudável e progressão funcional de quem decide ser policial. Não é o caso da PEC 38/2025.

Começando pelo básico: salário. Assim como na política de arcabouço fiscal, a PEC engessa sobremaneira as possibilidades de aumento salarial do funcionalismo, desrespeitando frontalmente as categorias policiais que já atravessam anos de defasagem  remuneratória, como boa parte dos policiais estaduais, especialmente aqueles que estão nos últimos lugares do ranking nacional da categoria. O município ou Estado que teve recorde de arrecadação poderá repassar algo para os policiais? Não pode. O município ou Estado precisa melhorar o salário inicial dos policiais para reduzir a evasão das carreiras. Pode aumentar? Não pode. Uma organização policial está com defasagem decorrente de longos períodos sem contratação e um governador resolve repor o máximo de policiais em um concurso público. Pode? Não, não pode ter concurso que tenha vagas além de 5% do total dos cargos.

O segundo problema para os policiais é o foco da PEC 38/2025 no que vamos nos referir como política de bonificação: inclui cumprimento de metas, avaliação periódica de desempenhos, regras de bonificação por resultado e afins. Novamente: problemas complexos exigem soluções complexas. Não há demanda por  soluções simplórias como as propostas pelo texto da PEC 38/2025. Alguém está defendendo que não deve haver avaliação de desempenho? Ninguém. Mas existe uma distância entre ter avaliação que vise combater a inércia e a avaliação que force um ritmo de trabalho nada saudável. Se a PEC já veda a negociação salarial da categoria, restará ao policial investir na tentativa de alcançar a bonificação por resultado. Lembram-se de como anda a saúde mental dos policiais? Segundo a PEC, o policial que se afastar por período superior aos 30 dias anuais de férias não receberá a bonificação pela qual faz jus. Por conseguinte, se gozar de um segundo período de férias (aliás, a PEC PROÍBE mais de 30 dias férias no período anual) ou afastar-se em licença-maternidade, licença-paternidade ou para tratar da saúde, nada de bônus.

Um dos mecanismos para reter profissionais é a progressão horizontal: o salário melhora com o tempo de serviço, independentemente de promoções. Já a progressão vertical ocorre via concurso interno, para quem almeja maiores responsabilidades hierárquicas. Ambas são complementares, não excludentes. Novamente, lembrem-se da saúde mental: muitos buscam estabilidade e qualidade de vida, sem ambição de comando. Pela PEC 38/2025, que extingue a progressão horizontal, um policial com 20 anos de carreira pode acabar ganhando o mesmo que um recém-ingressado.

A PEC 38/2025 contém outros ataques ao trabalho policial. Discorreremos sobre esse pontos futuramente.

(*) Lívio José Lima-e-Rocha - Investigador de Polícia e professor de Gestão Pública na Polícia Civil do Estado de São Paulo. Mestre (FGV) e doutorando (UFABC) em gestão e políticas públicas. Pesquisador em Segurança Pública e Cidadania (Mackenzie). Associado sênior e conselheiro fiscal do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.299

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

**INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Colunismo de intriga Há 2 semanas

2026 será o ano dos ataques aos parentes dos inimigos da direita

Um influencer fascista pregou essa semana nas redes sociais que é preciso agir logo e pegar a filha de Alexandre de Moraes. Esse sujeito só é diferente dos jornalões por ser mais autêntico, sincero e explícito. por MOISÉS MENDES

Constituição Cidadã Há 4 semanas

Entre a Constituição Cidadã e a Insegurança Jurídica

É triste para os operadores do direito (magistrados, membros do Ministério Público e advogados) ver o país vivenciar essa insegurança jurídica, chamada de ativismo judicial. por Ives Gandra da Silva Martins

A NOSSA AMAZÔNIA Há 4 semanas

PATAGÔNIA, A NOSSA AMAZÔNIA

A Amazônia, cujo maior território se encontra no Brasil, (e inclui também Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a maior floresta tropical mundial, resguardo da biodiversidade e do controle do clima do orbe terrestre, podemos dizer que é a nossa Patagônia, assim como esse vasto território no sul do continente, repartido entre a Argentina e o Chile, seria a Amazônia destes dois países.por CARLOS PRONZATO

Brasil sequestrado. Há 1 mês

Síndrome de Estocolmo

Tudo bem se amamos odiar o presidiário, seus filhos e tudo o que o fascismo representa. Mas precisamos voltar a discutir temas urgentes. O Brasil precisa se livrar de seus sequestradores. por Carlos Zacarias de Sena Júnior

IGHB Há 1 mês

IGHB, ESSA LUZ NÃO VAI SE APAGAR

Mas, apesar de qualquer polêmica política, o governo tem o dever de distribuir os impostos que correspondem à cultura, de forma democrática. Em virtude desta angustiante situação, em setembro, o IGHB lançou a campanha “Não deixe esta luz se apagar”

COLUNISTAS.
COLUNISTAS.
Aqui você encontra profissionais que fazem a diferença trocando experiências e falando de tudo um pouco. Nossos Colunistas são especialmente convidados para dividir com você suas vivências cotidianas em um bate-papo recheado de utilidade e variedade. Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nesse espaço “opinião” não refletem necessariamente o pensamento do Página de Polícia, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
26° Sensação
2.28 km/h Vento
75% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 501,718,01 -0,08%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio