
Ontem, pela manhã, os moradores da cidade do Rio de Janeiro acordaram e se viram diante de mais um confronto entre as forças de segurança do Estado e criminosos — uma situação recorrente ao longo das últimas décadas na poética Cidade Maravilhosa. Até o presente momento, o saldo oficial aponta mais de seis dezenas de mortos, entre policiais e bandidos, além de outras dezenas de feridos.
No contexto dessa tragédia, o que se observa é uma disputa de narrativas entre o governador do Rio de Janeiro e o Governo Federal. Ambos parecem tentar se esquivar de suas responsabilidades constitucionais, enquanto a população permanece refém de uma instabilidade social crescente — privada de serviços básicos como saúde, educação e o simples direito de ir e vir.
Nessa troca de acusações, o pano de fundo é político. O que se percebe é a busca pela consolidação do poder a qualquer custo, mesmo que isso signifique ignorar o valor da vida humana e a importância da atuação conjunta entre as esferas de governo. O resultado é um cenário em que as ações de enfrentamento se tornam paliativas, enquanto os problemas estruturais continuam a gerar novos ciclos de violência.
O que agora se assiste no Rio de Janeiro já vem ocorrendo, em menor escala, em outros estados brasileiros. Caso medidas preventivas a médio e longo prazo não sejam adotadas, o que hoje causa espanto se tornará cada vez mais comum.
Sou um observador e acredito que segurança pública precisa ser construída de maneira holística. Não basta apenas investir em viaturas, armamentos, tecnologia e efetivo. Acima de tudo isso, é impossível planejar segurança sem educação, saúde, cultura, esporte, urbanização e atenção à vulnerabilidade social.
As diferentes esferas de governo precisam pôr de lado as divergências político-partidárias e se sentar à mesa para dialogar. A sociedade clama por soluções reais e sustentáveis, e não por discursos fragmentados que apenas perpetuam o caos.
A violência que hoje choca o país é o reflexo de um modelo de segurança pública que atua no efeito, não na causa. Enquanto a política for tratada como campo de batalha e não como instrumento de integração, o Brasil continuará perdendo vidas e oportunidades de mudança. A reconstrução da paz social depende da coragem de enxergar além do confronto e investir no que, de fato, transforma: o ser humano.
Autoria: Laudelino Conceição (Lao)
Escrivão de Polícia Civil da Bahia




