Terça, 10 de Março de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

A LICENÇA REMUNERADA PARA MATAR:

por que a “gratificação faroeste” no Rio de Janeiro é um retrocesso civilizatório. Por Roberto Uchôa

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.296
26/10/2025 às 14h44
A LICENÇA REMUNERADA PARA MATAR:

Internamente, a gratificação é devastadora para o moral e o profissionalismo da corporação. Ela desvaloriza o investigador íntegro e dedicado, que segue os protocolos e respeita a lei. Esse profissional, cujo trabalho é fundamental para a segurança a longo prazo, não recebe qualquer reconhecimento, enquanto o agente violento e letal é premiado.

A cidade do Rio de Janeiro, mundialmente conhecida por suas belezas naturais e vibrante cultura, é também palco de uma complexa e persistente crise de segurança pública. Em meio a este cenário, a Assembleia Legislativa do estado aprovou, em setembro de 2025, medida que chocou observadores e especialistas: a reintrodução de uma bonificação financeira para policiais civis nos casos de “neutralização de criminosos” ou apreensão de armas de grosso calibre. Conhecida pejorativamente como “gratificação faroeste”, a proposta prevê um acréscimo salarial que pode chegar a 150%. Para um público não familiarizado com as nuances da realidade do Rio, a medida pode parecer uma forma de “endurecer” o combate ao crime. Mas uma análise aprofundada, baseada em décadas de experiência que transita entre a atuação policial e a pesquisa acadêmica, revela que se trata de uma política populista, ilegal e perigosamente contraproducente, verdadeira licença remunerada para matar que sabota a própria essência da segurança pública.

Para compreender a gravidade da decisão, é fundamental, primeiramente, entender o contexto no qual se insere: a intrincada paisagem da segurança no Rio e a divisão de papéis de suas forças policiais.

O cenário: favelas, facções e milícias

O Rio é uma metrópole de profundos contrastes sociais. As favelas, que abrigam parcela significativa da população, são frequentemente territórios nos quais o Estado tem uma presença precária, abrindo espaço para o domínio de grupos armados. Por décadas, esse domínio foi exercido principalmente por facções do narcotráfico, como o Comando Vermelho (CV) e o Terceiro Comando Puro (TCP). Essas organizações controlam vastas áreas, impondo suas próprias leis, gerindo uma economia ilícita baseada na venda de drogas e envolvendo-se em conflitos territoriais extremamente violentos.

Nas últimas duas décadas, um novo e mais complexo ator emergiu com força: as milícias. Diferentemente das facções tradicionais, as milícias são compostas, em grande parte, por agentes e ex-agentes de segurança do Estado (policiais, bombeiros, militares) ou pessoas com ligações a eles. Inicialmente, surgiram sob o pretexto de “proteger” as comunidades do narcotráfico, mas rapidamente se tornaram organizações criminosas sofisticadas. O seu modelo de negócio baseia-se na extorsão sistemática de moradores e comerciantes através da cobrança de “taxas de segurança” e do monopólio de serviços essenciais, como gás, internet e transporte alternativo. A sua infiltração nas instituições e na política faz delas um desafio ainda maior para o Estado.

É nesse campo de batalha urbano que atuam as duas principais forças policiais com missões distintas. A Polícia Militar é a força ostensiva e preventiva. São os agentes uniformizados que patrulham as ruas e, frequentemente, realizam as operações de confronto direto nas favelas. A Polícia Civil, por sua vez, é a polícia judiciária ou investigativa. Seus agentes, que trabalham à paisana, são responsáveis por investigar os crimes após sua ocorrência, coletar provas, identificar autores e instruir os inquéritos que servirão de base para a ação do Ministério Público e da Justiça. Essa distinção é crucial: a força da Polícia Civil não deveria residir no confronto armado, mas na sua capacidade técnica e de inteligência.

A gratificação: um incentivo perverso que sabota a investigação

A “gratificação faroeste” ataca diretamente a lógica do trabalho da Polícia Civil. Ao premiar a letalidade, ela cria um incentivo perverso que desvirtua a missão institucional. O trabalho de investigação é, por natureza, paciente, metódico e intelectual. Requer a construção de redes de informantes, a análise de dados, a vigilância, a interceptação de comunicações e o rastreamento financeiro. O objetivo final não é simplesmente eliminar um criminoso de baixa hierarquia, mas desarticular toda a estrutura organizacional, chegando aos líderes, aos fornecedores de armas e aos responsáveis pela lavagem de dinheiro.

Imagine o cenário prático: durante uma diligência, uma equipe de investigadores localiza um indivíduo responsável pela venda de drogas em pequena escala (conhecido no jargão local como “vapor”). Sob a lógica da investigação, este indivíduo é um ativo valioso. Uma vez detido, ele pode fornecer informações cruciais a respeito de seus superiores, de depósitos de armas ou das rotas logísticas da facção. A sua prisão é o primeiro elo de uma corrente que pode levar à resolução de um caso complexo.

Agora, introduza a “gratificação faroeste”. O mesmo “vapor” deixa de ser um ativo de inteligência e passa a ser uma mercadoria, uma oportunidade de ganho financeiro através da sua “neutralização”. O confronto letal, que deveria ser o último recurso para proteger a vida, torna-se o resultado mais desejável do ponto de vista econômico. A política, portanto, não apenas autoriza, mas incentiva a destruição da prova mais importante de um crime: o testemunho e a informação que o criminoso detém. É, na prática, uma ordem para que a Polícia Civil abandone a sua vocação investigativa e se comporte como uma força de extermínio.

Esse erro não é inédito. Uma política semelhante vigorou no Rio entre 1995 e 1998 e foi extinta precisamente por seus resultados desastrosos. Naquele período, os homicídios decorrentes de intervenção policial dispararam, sem que houvesse uma correspondente melhoria duradoura nos índices de criminalidade. A gratificação alimentou um ciclo de violência e vingança, tornando o trabalho policial ainda mais perigoso e manchando a reputação das instituições. Ignorar essa lição histórica é um ato de profunda irresponsabilidade política.

A ilegalidade flagrante e a corrosão do Estado de Direito

Além de ser uma estratégia de segurança pública comprovadamente falha, a “gratificação faroeste” é uma afronta ao ordenamento jurídico brasileiro. Conforme apontado por instituições como o Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU), a proposta é inconstitucional em múltiplos aspectos.

Primeiramente, padece de “vício de iniciativa”, um termo jurídico que significa que a lei foi proposta pelo poder errado. Matérias relativas ao regime de servidores públicos são de competência exclusiva do Poder Executivo (o governador), não do Legislativo. Mais grave, porém, é a sua colisão frontal com decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 2020, na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, o STF impôs uma série de restrições às operações policiais no Rio de Janeiro, visando especificamente à redução da letalidade policial, que a Corte considerou ter atingido níveis alarmantes. A nova lei não apenas ignora, mas desafia diretamente o espírito e a letra dessa decisão histórica, promovendo exatamente o que o STF tentou coibir.

A medida também incentiva a fraude processual. No Brasil, o “auto de resistência” é o registo oficial para mortes ocorridas em supostos confrontos com a polícia. Historicamente, o mecanismo tem sido utilizado para encobrir execuções sumárias. Ao oferecer uma recompensa pela morte, o Estado cria um poderoso estímulo para que qualquer intervenção resulte em um confronto letal, justificado posteriormente por um “auto de resistência” forjado.

Internamente, a gratificação é devastadora para o moral e o profissionalismo da corporação. Ela desvaloriza o investigador íntegro e dedicado, que segue os protocolos e respeita a lei. Esse profissional, cujo trabalho é fundamental para a segurança a longo prazo, não recebe qualquer reconhecimento, enquanto o agente violento e letal é premiado. Cria-se uma cultura tóxica que recompensa a brutalidade em detrimento da inteligência, aproximando perigosamente a lógica da polícia da lógica dos próprios criminosos que deveria combater. Nas palavras da antropóloga Jacqueline Muniz, a polícia corre o risco de se tornar apenas “um bando armado a mais”.

Conclusão: um caminho para a barbárie, não para a segurança

A “gratificação faroeste” não é uma política de segurança pública; é a sua negação. É uma expressão de populismo penal que explora o medo da sociedade para oferecer uma solução simplista e bárbara para um problema complexo. Ela não tornará o Rio de Janeiro mais seguro. Pelo contrário, aprofundará o ciclo de violência, sabotará a capacidade do Estado de desarticular o crime organizado, aumentará a desconfiança da população na polícia e violará os fundamentos do Estado de Direito.

O verdadeiro caminho para a segurança pública no Rio de Janeiro passa pelo fortalecimento da sua capacidade investigativa e de inteligência, pela reforma das polícias com foco na eficiência e no respeito aos direitos humanos, e pela implementação de métricas de desempenho que premiem a redução da criminalidade e a elucidação de crimes, não a contagem de corpos.

A decisão de sancionar ou vetar essa lei repousa agora sobre o governador do estado. É uma escolha que definirá não apenas o futuro da segurança pública fluminense, mas também o compromisso do Rio com os valores da civilização e da democracia. Sancioná-la seria um erro histórico, um passo deliberado em direção à barbárie institucionalizada.

(*) Roberto Uchôa - Conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e doutorando em Democracia do Século XXI no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.296

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

**INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

ESPERTEZA E OPORTUNISMO: A hipervisibilidade do Smart Sampa enquanto uma estratégia estética de segurança na cidade de São Paulo

A adoção do Smart Sampa, como de outros aparatos de vigilância massiva, é sustentada por uma retórica punitivista que ganha expressão a partir de 2018 - quando Bolsonaro chega ao poder. Por Alcides Eduardo dos Reis Peron

MÚLTIPLAS VOZES  Há 1 semana

POLICIAMENTO EM METAVERSOS: por que a formação policial precisa mudar agora

Metacrimes exigem policiais capazes de atuar em fenômenos que transcendem as fronteiras entre mundos físico e digital. Por Carla Fernanda da Cruz e Francis Albert Cotta

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

UMA PERÍCIA PARA CHAMAR DE SUA: O Caso Master e as controvérsias envolvendo a perícia. 

O que se observa é que neste caso a perícia serviu como uma ferramenta sujeita ao interesse dependente de quem atuou como autoridade requisitante. Por Cássio Thyone Almeida de Rosa

A COR DA QUESTÃO Há 1 semana

Togas no país das maravilhas.

Criança não namora, não se casa, não constitui união estável. Meninas não são esposas. Nisso não pode haver dúvida. Não há aqui qualquer sutileza ou entrelinha a ser considerada. Por Juliana Brandão

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Indicador nacional é passo fundamental para o avanço da investigação criminal no Brasil

Em um país que convive há décadas com a dor de famílias sem respostas e com a sensação de que o crime compensa, ter um indicador nacional de elucidação é mais do que uma conquista técnica. Por Carolina Ricardo

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
29°
Tempo limpo
Mín. 26° Máx. 27°
33° Sensação
6.21 km/h Vento
74% Umidade
38% (0.34mm) Chance chuva
05h37 Nascer do sol
17h51 Pôr do sol
Quarta
27° 26°
Quinta
27° 26°
Sexta
28° 25°
Sábado
28° 26°
Domingo
28° 25°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,16 +0,04%
Euro
R$ 5,99 -0,13%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 382,862,88 +1,65%
Ibovespa
183,332,38 pts 1.34%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio