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2026: centenário de Waldir Pires

Neste artigo, Maurílio Lopes Fontes celebra os 99 anos de Waldir Pires: trajetória democrática, legado ético e urgência de preservar sua memória política na Bahia.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: por Maurílio Lopes Fontes
22/10/2025 às 14h00
2026: centenário de Waldir Pires

Neste dia 21 de outubro Francisco Waldir Pires de Souza completaria 99 anos. A data marca o início da contagem regressiva para o centenário de um dos nomes mais importantes da política baiana e brasileira da segunda metade do século XX e início do século XXI.

Em um momento histórico marcado por ameaças à democracia, relembrar a trajetória de Waldir Pires é mais do que um exercício de memória – é um ato de resistência. Sua vida pública, pautada pela ética, compromisso com os direitos sociais e defesa intransigente das instituições democráticas, é um farol em tempos de incertezas. Celebrar seu legado é reafirmar que a democracia não é apenas um regime político, mas uma conquista que exige vigilância, coragem e compromisso permanentes.

Há um apagamento – deliberado ou não – da memória de Waldir Pires, que dificulta o reconhecimento de sua grandeza por parte das novas gerações. A escassez de homenagens, de registros públicos e de iniciativas que preservem sua trajetória revela uma lacuna preocupante na valorização da história política da Bahia e do Brasil.

Resgatar sua trajetória é mais do que reverenciar um personagem histórico: é reafirmar os valores democráticos que defendeu com resiliência, coragem e coerência ao longo de mais de 60 anos de vida pública.

A criação do Instituto Waldir Pires e do Memorial dedicado à sua trajetória singular representará um passo fundamental na preservação da memória política, tantas vezes relegada ao esquecimento. Mais do que homenagear um homem público de rara integridade, essas iniciativas assumem o papel de guardiãs de uma história que se confunde com a própria identidade da Bahia – uma história que merece ser lembrada, valorizada e transmitida às futuras gerações.

São tarefas que exigem esforços coletivos e articulados, envolvendo universidades, iniciativa privada e instituições governamentais comprometidas com a preservação da memória política. Somente por meio dessa convergência de saberes, recursos e responsabilidades será possível garantir que o legado de Waldir Pires seja devidamente valorizado e documentado.

Diante da proximidade do centenário de Waldir Pires, o silêncio não é uma opção para a Bahia. Esta data histórica exige celebrações à altura de sua trajetória, um movimento que ecoe sua voz em defesa da democracia e da justiça social. Permitir que este marco passe despercebido seria compactuar com o apagamento da memória de um dos políticos mais dignos da vida pública brasileira.

Portanto, cabe à sociedade baiana, às suas instituições e ao poder público a responsabilidade de transformar o centenário de Waldir Pires em um grande ato cívico, reafirmando que seu legado permanece como um farol indispensável para os desafios do presente e do futuro.

Trajetória

Waldir Pires assumiu a Secretaria de Governo da administração Régis Pacheco em 1951 com menos de 25 anos, em 1954 se elegeu deputado estadual pelo PTB na aliança vitoriosa que apoiou Antônio Balbino de Carvalho Filho, espécie de mentor do político acajutibense, que em 1958, já filiado ao PSD, ganha a eleição para deputado federal e logo após assumir o mandato ocupa a vice-liderança do governo de Juscelino Kubitschek, cargo que o coloca em posição privilegiada no embate com a UDN, que fazia oposição ao presidente da República, assim como fizera a Getulio Vargas.

Em 1962, com menos de 36 anos, Waldir Pires disputa o governo da Bahia em enfrentamento com Lomanto Junior, seu contemporâneo na Assembleia Legislativa entre 1955 e 1959. Nesta legislatura, filiado a UDN, Antônio Carlos Magalhães também exerceu mandato de deputado estadual. Três governadores da Bahia. Lá também estava Josaphat Marinho.

A postura de D. Augusto Álvaro da Silva, conhecido como Cardeal da Silva, influenciou o voto contrário do eleitorado católico e conservador da Bahia em Waldir Pires, cujo peso em sua derrota não pode ser desprezado. A proximidade de Waldir com os comunistas era inaceitável para o religioso.

Lomanto Junior ganhou a eleição com 396.051 votos (50,92%). Waldir Pires obteve 362.428(46,60%). Uma diferença de apenas 33.623 votos (4,32 pontos percentuais), cujo resultado pode ser atribuído a fatores conjunturais da política, a exemplo do uso da máquina pública em favor do jequiense, mas também à oposição, não menos ferrenha, à candidatura de Waldir Pires do jornal A Tarde, à época o mais importante veículo de comunicação do estado da Bahia.

Em março de 1963, Waldir Pires assume o cargo de Consultor- Geral da República (equivalente atualmente ao Advogado-Geral da União ) a convite do presidente João Goulart. Ele permaneceu no cargo até o alvorecer do golpe de 1964, quando, ao lado de Darcy Ribeiro, então ministro-chefe da Casa Civil, deixou o Palácio do Planalto em sua aventura de exilado político.

Waldir Pires não via o Direito como um escudo para os poderosos, mas como uma ferramenta de emancipação social. Seus pareceres não se limitavam à letra fria da lei – eram interpretações vivas da Constituição de 1946, voltadas à promoção da justiça e da soberania nacional. Em um país marcado por desigualdades profundas, ele acreditava que a legalidade não deveria ser neutra diante da injustiça.

Um dos pareceres mais emblemáticos de sua gestão tratou da remessa de lucros por empresas estrangeiras. Waldir Pires defendeu juridicamente a proposta de limitar a transferência de recursos ao exterior, argumentando que o capital internacional não poderia operar livremente sem contrapartidas sociais. Seu parecer sustentava que o controle sobre esses fluxos era compatível com os princípios constitucionais e necessário para preservar a autonomia econômica do país.

Outro documento de grande impacto foi o parecer sobre a reforma agrária, tema que dividia o país. Waldir Pires analisou a constitucionalidade da desapropriação de terras improdutivas, desde que acompanhada de indenização em títulos da dívida pública. Ele fundamentou sua posição na ideia de que a propriedade, para ser legítima, deveria cumprir sua função social – um princípio consagrado na Constituição e ignorado pelas elites agrárias.

Além dos temas centrais, Waldir assinou pareceres sobre projetos de desenvolvimento regional e infraestrutura, voltados à integração econômica do país. Ele buscava garantir que as políticas públicas tivessem respaldo jurídico sólido, sem renunciar à equidade. Seus pareceres abordavam desde incentivos fiscais até mecanismos legais para fomentar o crescimento em áreas historicamente marginalizadas, como o Nordeste.

Duas décadas depois da disputa pelo governo do estado, em 1982 Waldir Pires foi candidato ao Senado. Luís Viana Filho apoiado pelas forças conservadores ganhou a eleição. Em 1985, escolhido por Tancredo Neves e mantido por José Sarney, assume o Ministério da Previdência Social.

A grande vitória ao governo da Bahia, em 1986, que ainda hoje emociona aqueles que gostam de política e reconhecem em Waldir Pires a resiliência e a capacidade de enfrentar um longo inverno baiano, acumulando forças para derrotar o carlismo, é um marco na história da Bahia. Sua renúncia ao governo do estado, em 1989, e os desdobramentos políticos nos anos seguintes na Bahia, carecem de mais espaço para análise aprofundada.

Em 1990, filiado ao PDT, Waldir Pires obteve a maior votação para a Câmara dos Deputados, consolidando seu nome na política estadual, após a derrota na eleição presidencial de 1989, em que formou chapa com Ulysses Guimarães.

A “derrota” de Waldir Pires para Waldeck Ornelas na disputa por uma vaga no Senado é um dos maiores escândalos da política estadual nos anos recentes, resultado da força do carlismo espraiada pelos vários tentáculos da máquina pública. Waldir Pires “perdeu” uma cadeira no Senado por 3.066 votos devido a circunstâncias bastante conhecidas no estado.

Em 1998, no Partido dos Trabalhadores, Waldir Pires retorna à Câmara dos Deputados para exercer, no plano federal, seu terceiro e último mandato eletivo. Em apartes, nas várias ocasiões em que discursava, o tratamento dirigido a ele era de senador Waldir Pires, cujo direito legítimo de ocupar assento na Câmara Alta fora subtraído pelas manobras de Antônio Carlos Magalhães na disputa anterior.

Waldir Pires foi o primeiro ministro da Controladoria-Geral da União (CGU) entre 2003 e 2006, depois ministro da Defesa até julho de 2007. No cargo, estabeleceu os parâmetros de combate à corrupção, escoadouro de recursos que deveriam ser investidos em educação, saúde, infraestrutura, dentre outras.

Sua derradeira disputa eleitoral, em 2012, para a Câmara de Vereadores de Salvador, encerra uma trajetória de vitórias e derrotas, mas, acima de tudo, de compromisso inabalável com a democracia e os interesses nacionais.

(*) Maurílio Lopes Fontes é mestre em Marketing, Comunicação e Consultoria Política (Espanha).

Contato: fontesmkt@gmail.com

As histórias de Waldir Pires [2014]

Publicado no Jornal A Tarde, edição de 21.10.2025

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