
Lançado em 1988, “Eles vivem”, de John Carpenter, é um clássico dos filmes B. Na história o operário sem teto John Nada (Roddy Pipper), deambulando por Los Angeles, encontra, numa igreja abandonada, uma caixa repleta de óculos de sol. Nada segue seu caminho e ao pôr o acessório, as lentes lhe revelam algo que não conseguia enxergar. Na realidade apavorante que passa a enxergar, Nada vê alienígenas que interagem com pessoas comuns. Os óculos ainda permitem que veja mensagens subliminares por trás das peças de publicidade que infestam a cidade. Enxergando a realidade, o protagonista lê “obedeça” em propagandas aparentemente inocentes. Em cédulas de dinheiro, a frase “este é o seu Deus”. Nada passa, então, a tentar fazer com que as pessoas ponham os óculos para que consigam enxergar a realidade.
Impossível não dizer que as intenções do diretor norte-americano não tenham a ver com a denúncia do capitalismo e da ideologia. Responsável por sucessos como “Halloween” (1978), “Fuga de Nova York” (1981), “O enigma do outro mundo” (1982), entre outros, Carpenter não é conhecido por ser um cineasta marxista ou mesmo de esquerda. No entanto, o filósofo esloveno Slavoj Žižek, que roteirizou e apresentou o documentário “Guia pervertido da ideologia” (2012), percebendo o modo crítico como Carpenter representou a ideologia capitalista, classificou “Eles vivem” como “uma das obras primas de esquerda esquecidas de Hollywood”.
Assisti “Eles vivem” em inícios dos anos 1990. A película me voltou à lembrança depois que uma colega, bolsonarista, veio ao meu perfil, numa rede social, onde eu comentava sobre a importância e os números superlativos das manifestações do dia 21 de setembro para dizer: “Oh mentira!! Passei por lá e vi um pingo de gente kkkkkkk”. Espantado com a ousadia e, pior, com a evidente dissonância cognitiva da pessoa, que se referia à manifestação em Salvador, onde veículos chegaram a apontar a presença de 50 mil pessoas, reagi com indignação e um pouco de vergonha alheia.
Todos temos histórias parecidas sobre pessoas que, frente a realidade, diante de dados, ou confrontada com fatos, consegue dissentir com seu interlocutor apenas porque o considera de esquerda (ou petista, como preferem dizer). O bolsonarismo elevou o quadro de dissonância cognitiva dessas pessoas a enésima potência, daí que tenhamos personagens mobilizados por líderes perversos agindo como hordas de fanáticos em inúmeros espaços e ocasiões.
“Eles vivem” combina gêneros distintos. Numa cena, Nada se engalfinha por longos cinco minutos com seu amigo Frank (Keith David) para tentar fazê-lo pôr os óculos. Ao final da pancadaria, Nada diz: “Você não é o primeiro idiota que acorda desse pesadelo. A vida está uma porcaria, e vai piorar”. Não sei dizer se os bolsonaristas vão precisar de uns sopapos para acordar para a realidade, mas que está difícil, todos sabemos que está.
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.
Contato: zacasenajr@uol.com.br

Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 03.10.2025.
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