
Salvador (BA) – Um forte desabafo escrito por Crispiniano Daltro, policial civil aposentado e voz ativa no debate sobre a segurança pública na Bahia, reacendeu discussões sobre o papel e a representatividade do Sindicato dos Policiais Civis do Estado da Bahia (SINDPOC). Em seu texto, intitulado Nova Ordem da Polícia Civil: "ESPÍRITO DE PORCO", o autor denuncia o que considera uma grave inversão de valores dentro da instituição e do sindicato, a partir de 2008.
Segundo Daltro, até março daquele ano, havia um forte sentimento de "espírito de corpo" entre os policiais civis, marcado por solidariedade mútua, união nas lutas da categoria e respeito às normas de convivência interna.
CQ15
"Lembro que no meu carro tinha instalado um rádio com a frequência da Central de Polícia e, até aí no HGE, já convoquei o CQ15, em socorro de um Policial Civil. Até para greve, o CQ15 também servia, para que o policial fosse atendido."
— Crispiniano Daltro
Vídeo abaixo:
A crítica principal recai sobre o processo de transformação da Polícia Civil em uma estrutura que ele classifica como "militarizada", com forte centralização de poder nas mãos dos delegados, em prejuízo da autonomia de investigadores, escrivães e demais servidores civis. "A hierarquia deixou de ser funcional e passou a seguir moldes militares, contrariando o que estabelece a Lei nº 6.677/94, que rege os servidores civis do estado", argumenta.
Sindicato sob domínio da cúpula da Polícia
Daltro acusa ainda o SINDPOC de ter se distanciado da base que deveria representar. Segundo ele, desde maio de 2008, o sindicato estaria sob influência direta da cúpula da Polícia Civil, perdendo sua função de defesa dos interesses dos servidores de base. "Esse sindicato não pertence mais aos policiais civis da Bahia. Quem manda hoje são os delegados", critica.
A denúncia se estende ao campo da comunicação institucional. O autor lamenta a suposta censura que impede investigadores e escrivães de se manifestarem publicamente sobre investigações, atribuindo exclusivamente aos delegados o direito à fala. "O sentimento de pertencimento e respeito mútuo foi substituído por um modelo autoritário, sem diálogo e sem alma", completa.
Linguagem apagada, história esquecida
O texto faz referência à linguagem tradicional da corporação, como o código "CQ15", utilizado em situações de emergência policial, que, segundo Daltro, teria sido praticamente extinto do vocabulário institucional. "Até o significado simbólico de expressões como essa foi apagado das mentes dos policiais", lamenta.
Para ele, a mudança na cultura da Polícia Civil reflete uma perda de identidade e de valores institucionais fundamentais, que antes garantiam o funcionamento coeso e a solidariedade entre os agentes.
Da união ao desalento
Crispiniano Daltro finaliza seu texto com um tom amargo e crítico, atribuindo a "tragédia institucional" vivida pela Polícia Civil baiana ao domínio prolongado de um mesmo grupo sobre o SINDPOC. "Desde maio de 2008, o sindicato está sob o controle de policiais que, ao invés de defenderem a base, alinharam-se aos interesses do governo. Hoje, é chamado jocosamente de SINDGOV."
A publicação gerou repercussão entre antigos e atuais membros da corporação. Embora não haja, até o momento, um posicionamento oficial do sindicato, o texto de Daltro ecoa uma insatisfação que parece latente entre parte da categoria — e reacende o debate sobre autonomia sindical, comando institucional e os rumos da Polícia Civil na Bahia.
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