
Helen Santos de Souza completaria quatro anos no domingo. A festa já estava sendo preparada no sábado, mas ela não teve a oportunidade de comemorar mais um ano de vida. Na noite de sábado, 12 de abril, no bairro de Água Fria, Zona Norte do Recife, uma bala perdida atravessou o caminho da criança. No dia seguinte, data do seu aniversário, Helen morreu no Hospital da Restauração.
No domingo, 4 de maio, Raul Roberto Malaquias de Almeida, 58 anos, caminhava pela Rua Mineirolândia, em San Martin, na Zona Oeste do Recife, quando foi surpreendido por uma rajada de tiros. Homens armados chegaram em um carro e abriram fogo contra um jovem que estava no local. Raul, um trabalhador sem qualquer envolvimento com o alvo dos disparos, foi atingido por uma bala perdida e não resistiu aos ferimentos.
Helen e Raul foram vítimas de disputas das quais não faziam parte e os casos chamam atenção para uma estatística alarmante: cinco pessoas foram vítimas de balas perdidas durante disputas pelo controle territorial no Grande Recife, somente em 2025. É a realidade da violência armada que se repete, ano após ano, em diversas regiões metropolitanas do Brasil.
Dados do Instituto Fogo Cruzado comprovam uma escalada nas disputas territoriais na região. No total, 21 pessoas foram baleadas em disputas até o início de maio deste ano. No mesmo período, em 2024, não havíamos registrado nenhuma vítima e somente um tiroteio nessas circunstâncias.
Em 2025, já mapeamos 15 tiroteios em disputas. Em menos de cinco meses, quase triplicaram o número de confrontos registrados em todo o ano anterior.
Em 2024, foram seis episódios de janeiro a dezembro.
O aumento expressivo revela a intensificação de conflitos que colocam a população na linha de tiro e geram impactos econômicos, de saúde e mobilidade. Os confrontos, antes concentrados em poucas áreas, agora se espalham por diversos bairros, ampliando o raio da violência e multiplicando o número de vítimas. Em todo 2024, seis bairros do Grande Recife registraram tiros em disputas. Esse ano, em menos de cinco meses, 13 bairros já registraram casos.
Esta, evidentemente, não é uma realidade apenas de Recife. Na região metropolitana do Rio de Janeiro, já foram registradas 48 pessoas baleadas durante disputas por controle de território em 2025. Nove foram vítimas de balas perdidas, incluindo duas crianças. Em pouco menos de cinco meses, contabilizamos 93 tiroteios em disputas entre grupos armados.
Em Salvador e região metropolitana, os números também assustam: 56 tiroteios com 40 baleados em 2025 — com uma vítima de bala perdida. Um caso emblemático ocorreu em 31 de janeiro, na região central de Salvador, quando cinco integrantes do Comando Vermelho fugiram da polícia pela rua João do Vinho e invadiram uma casa, fazendo a mãe e seus dois filhos de reféns.
Eram 5h quando criminosos e reféns apareceram numa live em uma rede social. "Quero a imprensa aqui", dizia um dos criminosos. Era possível ver que outro aplicava uma chave de braço na dona de casa. Duas horas depois, a família foi liberada e os homens foram presos. Tudo abundantemente documentado em vídeo nas redes sociais.
O método adotado pela facção é emblemático para entendermos a dimensão do risco, do medo e dos traumas que a violência armada proporciona para uma ampla parcela da população urbana no Brasil atualmente.
A pergunta que permanece sem resposta após cada criança baleada, após cada trabalhador morto, é: qual a política pública adotada para lidar com essa situação? Ela está colaborando para resolver o problema, apenas enxuga gelo ou pior, o está agravando? Vale lembrar que a responsabilidade pela expansão dos grupos armados é compartilhada entre os governos estaduais e federal.
A ausência de propostas e de uma política de segurança integrada, nacionalmente planejada, é proporcional ao medo da população. A violência está no topo das preocupações dos brasileiros e os dados ajudam a entender a razão disso. Ainda assim, as respostas dada pelos governantes não apontam para um futuro melhor.
Tomemos a principal medida proposta pelo atual governo federal, a PEC da Segurança Pública. A proposta apresenta mudanças no sistema de segurança brasileiro, com alguns aspectos positivos, como o fortalecimento de uma coordenação nacional através do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). Mas, a verdade é que se pode esperar pouco ou quase nada dela. Sua principal “inovação” é fortalecer o policiamento ostensivo por meio da Polícia Rodoviária Federal. A ideia, em resumo, é termos mais uma polícia fazendo mais operações como essas que acontecem há décadas e que foram absolutamente incapazes de conter o crescimento exponencial das facções criminosas.
A PEC, no entanto, não menciona como o governo federal pretende controlar o mercado ilegal de drogas e armas, como pretende fomentar o aumento da baixíssima taxa de elucidação de crimes e menos ainda como lidar com o sistema prisional, que a cada ano faccionaliza mais e mais pessoas. Também não faz nenhuma menção ao controle do uso da força, mesmo diante de sucessivos casos de abusos estampando jornais dia após dia. Ou seja, apesar da realidade apontar para um lado há décadas, o governo novamente optou para ir para outro.
Por quanto tempo mais a população brasileira vai ter que esperar por uma política de segurança pública que proteja a vida de crianças como Helen e não permita que festas de aniversário se transformem em velórios?
Maria Isabel Couto
Diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado
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