Sexta, 11 de Setembro de 2026
23°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

A igreja católica - eterna e sua dimensão temporal

O cenário da Igreja Católica antes da unificação italiana por Giuseppe Garibaldi era diferente do que conhecemos hoje. Até a anexação dos Estados Pontifícios ao Reino da Itália, a Igreja Católica não era apenas uma instituição religiosa, mas também uma potência temporal com territórios próprios, conhecidos como Estados Pontifícios

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: por IVES GANDRA
29/04/2025 às 08h43
A igreja católica - eterna e sua dimensão temporal

Com o Papa Francisco não foi diferente. Ele continuou a grande obra de seus antecessores. Enfatizou a misericórdia, o diálogo inter-religioso e a atenção aos marginalizados. Buscou uma Igreja mais próxima dos pobres e engajada em questões sociais e ambientais

O cenário da Igreja Católica antes da unificação italiana por Giuseppe Garibaldi era diferente do que conhecemos hoje. Até a anexação dos Estados Pontifícios ao Reino da Itália, a Igreja Católica não era apenas uma instituição religiosa, mas também uma potência temporal com territórios próprios, conhecidos como Estados Pontifícios. Esses Estados possuíam uma estrutura administrativa, leis e, inclusive, uma força militar para sua defesa.

Pio IX, o último monarca dos Estados Pontifícios, resistiu à anexação. Após a perda desses territórios, especialmente com a tomada de Roma em 1870, o Papa se declarou prisioneiro no Vaticano, marcando o fim do poder temporal direto da Igreja. A partir desse momento, a Igreja Católica assumiu cada vez mais sua missão espiritual, separando o seu aspecto religioso da gestão de um estado territorial.

Outro ponto interessante a se observar é que, depois de Pio IX, a Igreja Católica reconheceu a santidade de vários papas. Passaram pelas etapas de beatificação e canonização: São Pio X (Papa de 1903 a 1914), canonizado em 1954; São João XXIII (Papa de 1958 a 1963), canonizado em 2014; São Paulo VI (Papa de 1963 a 1978), canonizado em 2018 e São João Paulo II (Papa de 1978 a 2005), canonizado em 2014. Além destes, o Papa Pio IX foi beatificado (um passo anterior à canonização) em 2000 e o Papa João Paulo I foi beatificado em 2022.

Todos os papas, a partir de Pio IX, também enfrentaram desafios da modernidade, definiram dogmas (infalibilidade papal), promoveram a doutrina social da Igreja e buscaram diálogo ecumênico. Também canonizaram santos importantes e navegaram por conflitos mundiais, mantendo sempre a unidade eclesial. Observando o que realizaram pela Igreja Católica, notamos a magnitude de suas obras.

Com o Papa Francisco não foi diferente. Ele continuou a grande obra de seus antecessores. Foi o primeiro papa latino-americano. Enfatizou a misericórdia, o diálogo inter-religioso e a atenção aos marginalizados. Buscou uma Igreja mais próxima dos pobres e engajada em questões sociais e ambientais, mantendo o foco na evangelização.

Evidentemente, por ter vindo de uma ordem criada como reação ao início do protestantismo de Martinho Lutero, a Companhia de Jesus, fundada por Santo Inácio de Loyola, possuía um caráter de disciplina e empenho pela espiritualidade. Inclusive, essa ordem cultivou e levou a fé católica até o Japão, por meio de São Francisco Xavier. O Papa Francisco, um jesuíta, trouxe muito desse espírito, além da grande preocupação com os pobres, até porque vinha da periferia de Buenos Aires.

Ele fez um trabalho extraordinário, mantendo os valores eternos da Igreja, aqueles que são imutáveis, e em tudo aquilo que diz respeito aos aspectos temporais foi, evidentemente, um papa que se adaptou ao seu tempo e falou a linguagem que os mais pobres gostariam de ouvir. Foi um papa santo e exerceu, como todos os seus antecessores, que também foram santos, a caridade como deveria ser vista: com esperança para o futuro e fé no presente.

Não sou eclesiástico, mas apenas um católico apostólico romano. Vou à missa diariamente há mais de 50 anos, leio sobre espiritualidade, faço meditação, rezo o terço, como um cristão e busco a santidade no trabalho ordinário, seguindo os ensinamentos de São José Maria Escrivá.

A Igreja tem os valores eternos, que nunca serão modificados, da espiritualidade e do amor ao próximo. São, pois, aqueles que constam das mensagens que Cristo nos deixou.

Agora, é evidente que a dimensão temporal da Igreja – ou seja, seu contato diário e conhecimento da realidade do mundo, com suas transformações ao longo das épocas – faz com que ela se apresente e se adapte constantemente a tudo aquilo que não ofenda os valores eternos ensinados por Cristo.

É importante lembrar que a cultura ocidental tem raízes profundas na Igreja Católica. A universidade, por exemplo, representa um dos maiores legados culturais da Igreja para o mundo.

No final da Idade Média e início da Renascença, a maior parte das universidades foram fundadas pela Igreja, constituindo uma contribuição cultural de valor inestimável.

Estou absolutamente tranquilo que os valores eternos da Igreja, como a dignidade humana e a caridade, permanecerão imutáveis, pois assentados na certeza de um Pai Criador do céu e da terra. Contudo, é evidente que as adaptações em sua dimensão temporal – no conhecimento e na convivência com a realidade em constante transformação – são um processo contínuo. O próprio Papa Francisco demonstrou essa adaptação em seu contato com o Papa João Paulo II.

João Paulo II modernizou a forma como o Papa se relaciona com os fiéis ao redor do mundo. Rompendo com a tradição de permanecer no Vaticano, ele iniciou inúmeras viagens internacionais, adaptando o conceito de "Urbi et Orbi"para um alcance global e presencial.

Por tudo isso, tenho a tranquilidade de que o Espírito Santo guiará a escolha de um Santo Papa.

Em segundo lugar, confio que os valores eternos da Igreja, ensinados pelo próprio Cristo, Deus vivo, não serão alterados.

E, em terceiro lugar, espero que a Igreja continue a se adaptar às realidades em constante transformação na evolução cultural da humanidade, nos campos tecnológico e científico, e às necessidades de sua presença no mundo. Isso tudo sem jamais perder sua característica primordial, que é a única lição divina dada por Cristo: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Ives Gandra da Silva Martins é professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU, do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis (Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal), presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio -SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
ESTELIONATO... Há 18 minutos

ENTENDA O ESTELIONATO NA SEGURANÇA DA BAHIA

Entre fardas, viaturas e operações ostensivas, cresce o questionamento: estamos diante de segurança efetiva ou apenas de uma grande encenação para produzir sensação de policiamento? por CRISPINIANO DALTRO

MÚLTIPLAS VOZES Há 21 horas

MILITARES NA FORÇA NACIONAL: caminhos legais, governança e controle de desvio de finalidade

A integração formal via Força Nacional sob governança civil estabelece freios democráticos, preserva a autonomia dos governadores e oferece uma resposta técnica e emergencial ao avanço da criminalidade organizada. por Edvaldo Nilo*

TRÁFICO DE PESSOAS Há 22 horas

TRÁFICO DE PESSOAS: Um crime invisível diante de redes criminosas cada vez mais digitais

O tráfico de pessoas se reinventa em ambientes digitais e se conecta a outras modalidades de criminalidade enquanto as instituições ainda enfrentam dificuldades para identificar vítimas, integrar informações e transformar denúncias em investigações. O resultado é um crime que permanece parcialmente invisível justamente quando suas formas de atuação se tornam mais sofisticadas. porAliandra Klützke, Anália Belisa Ribeiro, Ana Luiza Paro Mattiuzo de Conto e Cintia Meirelles e Fernanda Melo

INJÚRIA RACIAL Há 22 horas

Legislação avança no combate ao racismo, mas registros ainda revelam lacunas

O crescimento dos registros de injúria racial em 2025 sinaliza uma maior busca das vítimas pelo reconhecimento institucional da violência. Todavia, a falta de padronização de registros de ocorrências compromete a dimensão real do racismo e limita a capacidade de resposta do poder público. por Juliana Brandão* e Gabriela Oliveira

SEGURANÇA NO MUNDO Há 22 horas

Bukele, os homicídios e a construção de uma narrativa de sucesso em El Salvador

O chamado “modelo Bukele” envolve mais do que uma política de encarceramento: há repressão, desarticulação territorial das maras, mudanças institucionais, produção de estatísticas e a costura de um enredo de eficácia. por André Zanetic

Salvador, BA
27°
Chuvas esparsas
Mín. 23° Máx. 26°
29° Sensação
5.34 km/h Vento
77% Umidade
100% (4.22mm) Chance chuva
05h31 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Sábado
26° 23°
Domingo
26° 24°
Segunda
25° 24°
Terça
26° 24°
Quarta
27° 24°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,08 -0,46%
Euro
R$ 5,90 -0,48%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 418,886,84 +0,74%
Ibovespa
187,416,70 pts -0.45%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio