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ESCOLAS NA LINHA DE TIRO

Você já imaginou ter que interromper uma aula de matemática por causa de tiros? Em Salvador, essa não é uma situação hipotética — é a realidade enfrentada por estudantes e educadores em 81% do ano letivo.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Instituto Fogo Cruzado
09/12/2024 às 00h46 Atualizada em 09/12/2024 às 00h50
ESCOLAS NA LINHA DE TIRO

Você já imaginou ter que interromper uma aula de matemática por causa de tiros? Em Salvador, essa não é uma situação hipotética — é a realidade enfrentada por estudantes e educadores em 81% do ano letivo. De cada 200 dias que compõem o ano letivo, em 161 deles há registro de tiros no entorno de alguma escola pública da capital baiana.

Esse número é resultado de um estudo inédito do Instituto Fogo Cruzado e da Iniciativa Negra por uma Nova Política de Drogas, a partir de dados fornecidos pelas secretarias de educação à Defensoria Pública da Bahia. Para mensurar a violência armada no entorno das unidades educacionais, o levantamento partiu do total de tiroteios registrados em Salvador pelo Fogo Cruzado.

Os dados foram cruzados com a localização das escolas municipais e estaduais da capital. No período analisado, de 4 de julho de 2022 a 30 de agosto de 2024, foram mapeados 2.793 tiroteios, e um em cada quatro deles ocorreu no entorno de uma escola (26%), totalizando 728 tiroteios. Em média, são registrados 30 tiroteios por mês em uma distância de até 300 metros dos colégios da cidade.

Mas o dado mais surpreendente — e talvez o mais preocupante — é que 43% desses tiroteios próximos às escolas envolveram a própria polícia, totalizando 315 casos. As forças que deveriam garantir a segurança das instituições de ensino acabam sendo as protagonistas dos confrontos em dias e horários letivos.

A pesquisa também ajuda a entender como a violência armada afeta a realidade das pessoas de formas diferentes, dependendo do CEP que ela ocupa. Veja só: das 593 escolas analisadas, 443 registraram tiroteios em seu entorno ao longo de dois anos. Isso significa que 75% das escolas tiveram suas rotinas alteradas pela violência armada. Contudo, somente em Fazenda Grande do Retiro, por exemplo, registramos 39 ocorrências. 20 bairros concentram 50% dos tiroteios registrados. Destes, 18 possuem população residente negra acima da média soteropolitana.

Como garantir o direito constitucional à educação em um ambiente onde o medo é uma constante? Em julho de 2023, as aulas do turno da manhã foram interrompidas pelo som dos tiros no entorno da escola municipal São Pedro Nolasco, no Nordeste de Amaralina. Alunos, professores e funcionários da escola foram buscar abrigo no chão, para ninguém ficar na linha de fogo. Apesar do susto, ninguém se feriu, mas um projétil atravessou uma panela da escola e deixou claro que ali não é um local seguro. O Nordeste de Amaralina ocupa a 12ª posição no ranking de escolas afetadas pelos tiroteios, com 16 registros no período mapeado.

O impacto vai além dos dias letivos perdidos: escolas enfrentam dificuldades para recrutar professores, o desenvolvimento pedagógico é comprometido e a saúde mental de toda a comunidade escolar deteriora.

Esse cenário, onde a violência armada afeta a educação, já foi mapeado pelo Fogo Cruzado na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Se utilizarmos o mesmo período em que o estudo foi feito em Salvador, veremos que somente na capital do Rio de Janeiro, de 4 de julho de 2022 a 30 de agosto de 2024, 4.276 tiroteios foram registrados. Desses, 2.021 aconteceram perto de escolas, quase metade do número total.

Ao menos 1.404 escolas municipais, estaduais e particulares foram afetadas e, como vimos em Salvador, as polícias também são protagonistas: 832 tiroteios ocorreram durante uma ação ou operação policial. São, aproximadamente, 33 registros de tiroteios envolvendo a polícia por mês, em uma distância de até 300 metros dos colégios. 

A pergunta que ecoa, tanto para Salvador quanto para o Rio de Janeiro, permanece sem resposta: qual o ganho real desta política de segurança baseada no confronto? Quantos grupos armados foram desarticulados depois de tantos tiros? Qual o indicador que mostra o sucesso dessa estratégia?

A escola deveria ser um espaço de transformação e esperança, não de medo e trauma.  Hoje, o que temos são milhares de crianças com sucessivos dias de aulas interrompidos ou de aulas em meio ao fogo cruzado. Esse, certamente, não é o papel da segurança pública.

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