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VIVÊNCIAS E RESISTÊNCIAS:

Escutando especialistas (acadêmicos ou não) sobre uma nova política de drogas

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Por Catarina Duarte
29/01/2024 às 14h05
VIVÊNCIAS E RESISTÊNCIAS:

Ser escalada para ir a Salvador e falar sobre o trabalho da Ponte Jornalismo durante a Conferência Internacional Iniciativa Negra por Direitos, Reparação e Justiça, organizada pela Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas nesta semana, foi uma experiência nova, afinal, foi minha primeira vez num evento representando a Ponte.

A Bahia é uma experiência muito foda porque eu sou uma mulher negra que cresceu no sul do Brasil. Foi muito bom estar no lugar com tantos negros, ainda mais em um evento com a presença de negros em cargos de poder, de negros falando sobre ou pesquisando sobre coisas que nos afetam diretamente.

Tem uma fala da Débora Silva do Mães de Maio – que também estava no evento – que, para mim, sintetiza o espírito da Conferência. Ela pontua que os acadêmicos que fazem pesquisas a partir da vivência delas devem entender que elas também são pesquisadoras, entendidas do assunto e não são apenas vítimas da violência.

Para mim, o que mais impactou foi justamente essas pessoas estarem ocupando espaços e dividindo a mesa ao lado do pessoal da Iniciativa, de pesquisadores de fora, de representantes do movimento social.

A Juliete Gamboa, que veio do Equador para o evento, trouxe o relato de uma vida atravessada pela violência. Ela nasceu dentro de um presídio, teve a vida atravessada por várias problemáticas da segurança pública. Ela é uma mulher preta equatoriana. Uma realidade que aconteceu lá, mas, que muito provavelmente, é possível encontrar nas histórias que nós contamos na Ponte. Histórias de pessoas que tiveram vidas semelhantes, trajetórias parecidas e o que elas têm em comum? São negras. Isso me faz pensar que a violência faz parte das nossas vidas, e na da Juliete mas ainda, porque ela foi encarcerada, parte da vida dela é o sistema penitenciário. 

Na roda de conversa sobre comunicação de causas que participei junto com o repórter José Cícero da Agência Pública e o Solon Neto, cofundador da Alma Preta, pude ouvir as perspectivas de pessoas que, por exemplo, são usuárias e que lutam para que sejam compreendidas assim. Ouvi mães que tiveram a família destruída pela droga, negros que tiveram a vida atravessada e que têm experiências diferentes sobre drogas. Foi muito importante para mim ouvir essas contribuições.

O ponto central do evento foi pontuar que, quando falamos de segurança pública e atravessamentos de raça, classe e gênero, falamos a partir da vivência das pessoas negras que são constantemente violentadas. Essa interseção casa com o que a gente trabalha na Ponte, que é pensar uma política de segurança pública e uma nova política de drogas.

O fato é que não há uma discussão efetiva sobre a questão das drogas no Brasil. O debate que está no STF quer pensar só a questão da maconha e ainda por um viés quantitativo. Uma decisão que não vai acabar com o encarceramento em massa. Vamos seguir com o mesmo perfil sendo morto, encarcerado, são pessoas como eu que vão seguir sendo moídos por essa máquina que é a polícia, o Estado, o governo.

Eu conversei com pessoas como o autor de Via Ápia, o Geovani Martins, e foi muito interessante porque o que ele traz no livro casa com a situação que está acontecendo no Rio de Janeiro. O livro narra a vida de cinco jovens no momento da instalação das UPPs no Rio. Conversei também com o Sérgio Rocha, diretor da ADWA Cannabis que faz um aprimoramento genético da maconha, da planta. Ele, negro, enfrentou dificuldades para que esse projeto fosse a frente dentro da universidade. Ele foi o primeiro a conseguir essa aprovação.

E foi importante essas conversas para dar a perspectiva de que a política de drogas é uma discussão que deve ser feita em 360º, pois abarca todos muitos fatores, muitos setores da vida do brasileiro. Esse evento serviu para entender como a política das drogas está em todas as pontas, da economia até o encarceramento em massa.

Por Catarina Duarte

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