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DEIXANDO PRA LÁ

O preenchimento incompleto de boletins de ocorrência, sob a alegação de que o detalhamento excessivo só alimenta a burocracia, prejudica a investigação de crimes.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/
17/11/2022 às 22h20
DEIXANDO PRA LÁ

Existe uma tendência de darmos pouca importância a crimes do dia a dia. Em muitos casos é até compreensível, alguns são mesmo sem muita importância. Um pequeno furto, uma briga de bêbados, coisas do tipo. Porém, mesmo entre esses dois exemplos citados, podem ocorrer casos em que seria necessária maior atenção do poder público. Um que, à primeira vista, parece apenas uma briga como qualquer outra pode levar, no futuro, a uma morte. E um simples furto pode ser parte de longa séria de crimes praticados pela mesma quadrilha, indicando que se trata de criminalidade profissional. E é sobre esse segundo exemplo que trataremos hoje.

Anos atrás uma amiga, policial militar do Norte, estava num restaurante de Brasília quando teve sua bolsa furtada. Após registrar a queixa, voltou ao local e descobriu que a cena tinha sido filmada por uma câmera de segurança. Animada, voltou à delegacia e informou ao policial de plantão sobre o fato. E ficou indignada com a resposta do plantonista, que disse que o filme não levaria a nada porque não investigavam pequenos furtos. E isso numa polícia que está entre as mais bem pagas do país e conta com um bom efetivo, proporcionalmente melhor do que o da maioria dos estados brasileiros.

Casos do tipo se multiplicam Brasil afora, com a Polícia Civil atuando apenas nos crimes mais violentos, notórios ou que impliquem no roubo, ou furto, de grandes valores. O que significa que quadrilhas que furtam pequenas quantias, ou objetos de pouco valor, são quase que ignoradas. Atuam durante muito tempo impunes, só sendo desmanteladas quando a PM prende um dos integrantes em flagrante, o que leva, algumas vezes, aos demais.

Agora, a pergunta que fica no ar é a seguinte: o que é pouco valor para a vítima? Para o dono de uma rede de lojas, o furto de um Rolex de 5 mil euros pode representar menos do que o de um celular de segunda mão para uma de suas funcionárias. E a questão é que no primeiro caso muitas vezes a polícia vai se mexer, no segundo, possivelmente não. E ambos os bens normalmente são furtados por alguém que tem como “desová-lo” no mercado ilegal. Ou seja, tem uma quadrilha especializada em receptação por trás do crime.

Embora seja fato que nenhuma Polícia Civil tem efetivo para identificar todo indivíduo que cometeu um furto, profissional ou não, a verdade é que os arquivos policiais existem para isso. Não custa nada mantê-los bem alimentados e, através da descrição da vítima ou de uma imagem, tentar identificar o ladrão. Da mesma forma que é feito quando ocorre um roubo a banco. Um passo mais elaborado, porém possível, é identificar todos os crimes do tipo que ocorreram na região. Hoje em dia, graças aos boletins de ocorrência eletrônicos, é perfeitamente possível localizar as queixas de um mesmo tipo numa determinada área, em um período determinado. Com isso, através do cruzamento de dados, talvez seja possível identificar os criminosos. Os passos necessários são três: verificar se existe imagem ou descrição válida, levantar casos similares através do sistema e, se não for possível chegar ao (s) criminosos, manter registro do levantamento feito para que outro policial da área, ao se deparar com caso similar, já tenha um ponto de partida.

Lembro de que, nos anos 80, houve um caso notório de um investigador que identificou um homicida dessa forma. Através da busca entre os boletins de ocorrência, na época apenas datilografados, e sem qualquer sistema de arquivos de modus operandi, ele chegou ao homicida e estuprador que atacava mulheres dentistas no cair da noite em seus consultórios.

Claro que esse é um crime muito mais grave, portanto o “tira” teve autorização da chefia para se dedicar a ele. Mas o que quero frisar é o trabalho. Ele levou semanas de leitura e busca nos BOs, arquivados apenas por data da ocorrência, trabalho que hoje pode ser feito em 15 minutos. Portanto se pode estender essa busca para esses pequenos delitos, mas que indicam crime profissional, como o exemplo que dei de furtos de celulares. Lembrando que, enquanto um crime está funcionando, o criminoso comum não costuma mudar sua forma de agir. E também não muda uma linha de produção que implica em ladrão, receptador e loja que vende o produto.

Esse trabalho, aliás, poderia ser otimizado se as polícias mantivessem um bom arquivo de modus operandi, a maneira como comete determinado crime. Nos últimos 30 anos conversei com inúmeras polícias a respeito e a maior parte das vezes me foi dito que tal arquivo estava em construção. Mas mesmo onde realmente estavam trabalhando nisso esbarraram com um problema: o mau preenchimento do boletim de ocorrência, que fazia com que os campos definidos para estabelecer isso acabassem em branco. E a causa principal era reclamação dos encarregados de que a anotação de detalhes só aumentava a burocracia, que não leva a nada, etc.

Mas veja, existem outros campos preenchidos na maior parte das vezes, como a cor da vítima e estado civil, que não têm muita importância para a apuração de um furto. Portanto, se existe tempo pra isso, que tal acrescentar alguns detalhes do ocorrido? Na verdade, muitas vezes os detalhes estão no histórico do caso, mas é muito mais difícil extrair dados dele do que de campos específicos.

Que a Polícia Civil está com o efetivo defasado e tem péssimos salários na maioria dos estados é fato. Nos últimos anos muitos governadores a deixaram de lado. Porém, parte da inação deriva de costumes que foram se enraizando com o passar dos anos. Portanto cabe às chefias dessas instituições arrancar essas raízes e voltar a investigar crimes que afetam a população mais pobre.

GUARACY MINGARDI - Analista criminal e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

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