Quarta, 09 de Setembro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

RETROSPECTIVA 2021: DEBATE SOBRE A LEI ORGÂNICA DAS POLÍCIAS MILITARES

As PMs são a espinha dorsal da segurança pública, mas recebem tratamento de instituições de segunda categoria. momento deveria ser usado para discutir regulação de aspectos intrínsecos da categoria e a relação com a sociedade.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: GLAUCO SILVA DE CARVALHO
08/01/2022 às 12h07
RETROSPECTIVA 2021: DEBATE SOBRE A LEI ORGÂNICA DAS POLÍCIAS MILITARES

Tem gerado grande polêmica o encaminhamento da Lei Orgânica das Polícias Militares. As Polícias Militares hoje são a espinha dorsal da segurança pública no Brasil, sendo responsáveis por mais de 80% de todas as apreensões de armas e pelas prisões em flagrante de toda a repressão a entorpecentes no Estado de São Paulo. Porém, aprecie-se ou não tal afirmação, por sua condição de “militar”, elas têm sido tratadas como “instituições de segunda classe”. Explicamos.

Diversos bons artigos têm sido produzidos por pesquisadores, analistas, professores e profissionais da área para discutir a lei orgânica das polícias. Cito aqui as duas matérias publicadas pela Folha de São Paulo, edição de 6 de fevereiro de 2021, no espaço Tendências e Debates. Dos três articulistas, dois são particulares amigos, respeitados profissionalmente e sérios intelectualmente. O Coronel José Vicente (que assina o primeiro texto conjuntamente com o ex-ministro Raul Jungmann) e o Coronel Elias Miler da Silva. José Vicente e Jungmann fizeram críticas ao projeto que está em tramitação no Congresso Nacional, propondo, de maneira não explícita, profunda modificação, enquanto Miler da Silva defendendo suas proposições e aprovação.

Fico, neste particular aspecto, com o Coronel José Vicente. E gostaria de abordar alguns aspectos ainda não esmiuçados. Em primeiro lugar, os militares, em quase toda a história da República, nem mencionemos o Império, sempre foram tratados como cidadãos de segunda classe. Inacreditavelmente, as praças (soldados, cabos e sargentos) só começaram a votar em 1988, com a Constituição da redemocratização. Não há um estatuto legal, à semelhança de outras Instituições como Polícias Civis e Forças Armadas, que regule a vida, direitos e deveres de seus integrantes. Quer dizer, os deveres estão amplamente previstos no Regulamento Disciplinar. No caso específico de São Paulo, os direitos e garantias são previstos em uma miríade de leis esparsas, o que demonstra o desprezo do Estado por uma categoria profissional, ao mesmo tempo em que se dificulta a extremo a localização exata de quais são seus direitos e suas garantias.

Em segundo lugar, não se pode, a par de todos os problemas existentes na segurança pública, piorar ainda mais o que merece e precisa ser aperfeiçoado. A eleição para Comandante-Geral é ideia estapafúrdia. Essa hipótese gerará divisões internas, perseguições e a criação de facções políticas em seu interior. As eleições, com ampla participação apenas dos integrantes da própria organização, geram corporativismo desmedido, ausência de controle popular e ânsia por retirar dos governos benefícios para a categoria profissional, de forma injusta.

Sob a alegação de que a participação de todos os integrantes da organização, ou pelo menos todos de determinada categoria profissional, torna o escrutínio mais justo, por que não toda a sociedade participar de sua escolha? Num país de baixo controle público do Estado, em que todos querem ser independentes, vide as universidades (que pecaram severamente pela falta de transparência, como se verificou não muito tempo atrás, no caso de salários acima do teto), as ouvidorias, as advocacias públicas, etc, o que se pretende é criar Estados dentro do Estado.

Como último aspecto, no Brasil fala-se em Lei Orgânica das Polícias. Na realidade, deveria-se tratar de Lei das Polícias. Pois é imperioso haver, como na Inglaterra, em Portugal e na Espanha, capítulos regulando não apenas aspectos intrínsecos e orgânicos das polícias, todas elas e suas correlações, mas também as relações com a sociedade em si. Quais os direitos dos cidadãos frente ao Estado, bem como, também, seus deveres. Cito como exemplo a abordagem, ingresso em domicílios, a conduta do indivíduo que será abordado, etc. Isto servirá como garantida de direitos para o cidadão, previsão de condutas e segurança de atividade para o policial.

Por fim, a lei aprofunda a crise de identidade das Polícias Militares. São “polícias” ou são “militares”? Essa “disfunção” as acompanha desde o fim da Primeira República. E não será nesse governo que teremos avanços.

Tenho plena convicção que Bolsonaro fez apenas um balão de ensaio para verificar a aceitação e o recebimento de tais ideias pela sociedade e pela comunidade política como um todo. Ciente de suas limitações frente às Forças Armadas, que deram claros sinais de respeito pela democracia, a transformação das Polícias Militares em uma única “gendarmerie”, uma quarta força armada, a exemplo do Chile, Itália e França, poderia ser uma alternativa de suporte militar para suas bravatas e anseios. Não se espere nada de democrático desse governo. Que as forças políticas democráticas, à esquerda e à direita, se oponham a desideratos autoritários e estapafúrdios. A antipatia a determinados governos estaduais não justifica a mudança de arquitetura constitucional no campo da segurança pública. Governos passam. Instituições permanecem.

GLAUCO SILVA DE CARVALHO - Bacharel em Direito (USP), mestre e doutor em Ciência Política (USP). Coronel da reserva da PMESP, foi diretor de Polícia Comunitária e Direitos Humanos e Comandante do Policiamento na Cidade de São Paulo.

*Artigo originalmente publicado na edição número 75 do Fonte Segura, em 10.02.2021

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Código de ética Há 3 semanas

Tema 1.412: decisão do STF é vista como nova distração diante dos excessos da Suprema Corte

Decisão no Tema 1.412, relatado pelo ministro Edson Fachin, reacende questionamentos sobre a atuação do Supremo Tribunal Federal, enquanto a proposta de um código de ética para ministros enfrenta resistência dentro da própria Corte. por Bel. Gerson Monção dos Santos

CONFIRA MATÉRIA Há 3 semanas

Polícia Civil da Bahia: decisão do TJBA afasta idade mínima de 55 anos para aposentadoria de servidores que ingressaram antes de 2020

Liminar também determina o pagamento dos proventos pela integralidade, considerando a última remuneração, e pode beneficiar policiais que tiveram o pedido negado ou aposentadorias calculadas pela média. por CLÁUDIO FABIANO BALTHAZAR

Urgência da Razão Há 2 meses

Prisão Desproporcional: A Urgência da Razão e da Justiça 

Até onde pode ir a Justiça? Um idoso, com problemas de saúde e sem antecedentes recentes, continua preso após ser vítima de um golpe na compra de passagens aéreas. por Yuri Matos Mato

“Política Digital Há 2 meses

Especialista lança livro sobre Inteligência Artificial e a nova era das campanhas eleitorais

Livro revela como Inteligência Artificial, dados e comportamento do eleitor estão redefinindo as campanhas políticas no Brasil.

Conselho da Polícia Há 2 meses

Conselho da Polícia Civil retoma tensão antiga da segurança pública

A regulamentação do Conselho Nacional da Polícia Civil recoloca uma tensão antiga da segurança pública brasileira: a necessidade de construir padrões nacionais mínimos para a investigação criminal sem reduzir a autonomia dos estados a uma formalidade. por David Pimentel Barbosa de Siena

COLUNISTAS.
COLUNISTAS.
Aqui você encontra profissionais que fazem a diferença trocando experiências e falando de tudo um pouco. Nossos Colunistas são especialmente convidados para dividir com você suas vivências cotidianas em um bate-papo recheado de utilidade e variedade. Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nesse espaço “opinião” não refletem necessariamente o pensamento do Página de Polícia, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 26°
29° Sensação
4.95 km/h Vento
73% Umidade
20% (0.12mm) Chance chuva
05h33 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 22°
Domingo
26° 23°
Segunda
25° 24°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,10 +0,32%
Euro
R$ 5,94 +0,49%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 427,901,30 +0,76%
Ibovespa
186,414,84 pts -0.51%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio