Sexta, 24 de Julho de 2026
23°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Nem o jaleco nem a toga protegem do racismo

Os crimes cometidos contra a médica Andrea Martins Dias e contra os magistrados Fábio Francisco Esteves e Franciele Pereira do Nascimento mostram que as pessoas negras, mesmo que ocupem espaços de prestígio, são consideradas como alvos pelos racistas. por Juliana Brandão

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.315
30/03/2026 às 10h16
Nem o jaleco nem a toga protegem do racismo

Juliana Brandão

Doutora em Direitos Humanos pela USP e pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Todos os dias, corpos negros carregam a marca da suspeição, do desvalor, do não pertencimento. No seu escrito inspirador “Escrever além da raça”, bell hooks nos deixou a reflexão de que a sua casa é o único lugar onde não existe raça. Isso porque, ao se olhar no espelho e ver a sua imagem, não pensa que ali está diante de uma mulher negra, lavando o rosto. Pensa nos sinais da sua pele, que refletem um corpo sujeito a alterações que acompanham as fases distintas da vida. Contudo, sabe que, assim que sai pela porta, a raça é incontornável, pois a ameaça à vida se coloca no racismo cotidiano, que aprisiona as pessoas negras à subalternidade.

Médicas brancas não são confundidas com bandidos. Porém, o mesmo não vale para médicas negras. Foi esse o caso de Andrea Marins Dias, cirurgiã oncologista, baleada e morta, no último dia 15, em uma perseguição policial.

De acordo com o último Censo, apenas 21,9% dos profissionais formados em medicina são negros.

Fábio Francisco Esteves, juiz estadual, conselheiro do CNJ e Franciele Pereira do Nascimento, juíza auxiliar da presidência do STF, foram alvos de ataques racistas em uma transmissão do Tribunal de Justiça do Paraná (TJ/PR) voltada à defesa da igualdade de gênero, no último dia 18.

São poucas as pessoas negras que compõem a magistratura brasileira. De acordo com o Painel de Monitoramento da Justiça Racial, mantido pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e atualizado em março de 2026, não chega a 15% a porcentagem de juízes negros na magistratura nacional.

Mesmo desafiando as estatísticas em seus respectivos campos profissionais, vemos que essa expressão do ódio pela via do racismo indica a intolerância com a presença de pessoas negras em espaços de prestígio. A médica Andrea foi assassinada por agentes estatais. Os magistrados Fábio e Franciele foram hostilizados em evento promovido pelo Tribunal de Justiça do Paraná. Em comum, nos dois casos, a prática racista promovida nos contornos do próprio Estado, pela polícia e no Poder Judiciário. Corpos negros seguem sendo alvos. Nem o jaleco nem a toga protegem do racismo. A raça então opera como um componente que estratifica posições sociais – e assim se constrói e se dissemina a ideia de que há ocupações nas quais não cabem pessoas negras.

Assegurar normativamente a igualdade e criminalizar o racismo, inclusive como ocorrência penal imprescritível e inafiançável, é um contorno jurídico importante, mas que não alcança a sua expressão estrutural e institucional. A discriminação racial é um marcador que se sobrepõe à classe social, traduzindo-se em um imaginário no qual pessoas negras são desumanizadas e tornadas inaptas para determinadas funções, ainda que alcancem ocupações profissionais de alto nível de escolaridade formal. Nessa linha, estereótipos raciais alimentam a reprodução de discriminações com base no fenótipo. A forma como as pessoas negras são vistas pelos indivíduos brancos e pelas instituições acaba por espelhar as estruturas sociais, imprimindo assim uma forma de ver o mundo na qual a subalternização da população negra é atrelada à cor da sua pele.

Enfrentar esse estado de coisas exige reformulação do pensamento e da ação. A recusa a normalizar o ódio, as suposições de que valor, importância e sucesso são possíveis apenas para pessoas brancas não se situam no terreno da opinião, mas no de formulação de políticas públicas intersetoriais que considerem para sua efetivação a necessidade de arranjos institucionais, envolvendo os diferentes atores federativos, em suas respectivas competências, e a sociedade civil.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.315

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE!*

Se *INSCREVAM* no Canal do YouTube, clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

@tvpaginadepolicia

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Em segurança pública, o seguro não morreu de velho – morreu sem ser testado

Transformar a segurança pública brasileira não passa por mais um plano grandioso anunciado com certeza absoluta. Passa por algo mais difícil e mais humilde: aceitar que não sabemos tudo e construir, juntos, as condições para descobrir.  por Marcelo Zago Gomes Ferreira*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

O DINHEIRO DOS TROUXAS

Existe uma discussão no Congresso para impedir o funcionamento das bets. Por que não levar a coisa mais longe, discutindo seriamente a reabertura de cassinos e bingos e talvez até legalizar o jogo do bicho, tirando-o das mãos dos criminosos?  por Guaracy Mingardi

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

O OLHAR DOS EDUCADORES SOBRE A PRESENÇA DA POLÍCIA NAS ESCOLAS: TENSÕES E POSSIBILIDADES DA PATRULHA ESCOLAR COMUNITÁRIA NO PARANÁ

Quando há presença da polícia na escola, deve estar fundamentada em princípios ético-políticos, necessitando haver uma formação especializada nas dimensões pedagógico-educacional-comunitárias, garantindo compromisso com os direitos humanos e respeitando-se a autonomia pedagógica. por Eliéser Antonio Durante Filho* e Maria de Fatima Quintal de Freitas*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

O ALGORITMO DO ÓDIO: A COOPTAÇÃO DIGITAL E O EXTREMISMO VIOLENTO NAS ESCOLAS

A circulação de conteúdos violentos e ideologias extremistas na internet representa um grave risco para a segurança dos jovens e para a convivência social. por Zaryff Said de Lima e Cesar Mauricio de Abreu Mello

FRONTEIRAS AMAZÔNICA Há 1 semana

GEOMETRIAS DE PODER E TERRITORIALIDADES DO NARCOTRÁFICO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

As conexões entre narcotráfico e crimes ambientais fortaleceram a territorialização do crime organizado, expondo populações indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas à invasão de seus territórios e à violência. por Aiala Colares Oliveira Couto

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
24°
Tempo nublado
Mín. 23° Máx. 25°
24° Sensação
6.89 km/h Vento
74% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h55 Nascer do sol
17h24 Pôr do sol
Sábado
25° 24°
Domingo
25° 24°
Segunda
25° 24°
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,08 -0,23%
Euro
R$ 5,78 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 -3,12%
Bitcoin
R$ 344,420,50 -0,13%
Ibovespa
174,041,95 pts -1.52%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio