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Segurança pública, dados e território: o avanço da vigilância digital nas cidades

Como a integração de dados, plataformas e dispositivos digitais vem reconfigurando o controle do espaço urbano.  Por Rodrigo Firmino

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.310
17/02/2026 às 22h36
Segurança pública, dados e território: o avanço da vigilância digital nas cidades

O debate sobre o uso de tecnologias digitais na segurança pública costuma ser marcado por uma promessa sedutora: mais dados significariam mais controle, mais eficiência e, portanto, mais segurança. Câmeras inteligentes, centros integrados de comando e controle, reconhecimento facial, monitoramento em tempo real e plataformas algorítmicas aparecem no discurso oficial como soluções técnicas para problemas históricos e profundamente sociais. Essa narrativa tecnossolucionista, no entanto, tende a encobrir efeitos territoriais, políticos e sociais produzidos pela incorporação dessas tecnologias no cotidiano das cidades. Nas últimas décadas, as tecnologias da informação e comunicação passaram a estruturar uma nova camada de gestão urbana e da segurança, baseada na codificação da vida cotidiana. Pessoas, movimentos, comportamentos e espaços são traduzidos em dados, comparados a padrões e classificados segundo critérios de risco. Trata‑se de um processo longe de ser neutro. Ao operar por meio de classificações, correlações e previsões, essas tecnologias redefinem fronteiras, produzem zonas de exceção e reorganizam a experiência urbana sob lógicas de vigilância permanente. A cidade passa a ser tratada como um território monitorável, previsível e, idealmente, controlável.

Os grandes centros de comando e controle ilustram bem esse modelo. Vendidos como expressão máxima da integração e da eficiência, eles reforçam uma visão centralizadora da gestão da segurança pública, na qual o território é observado à distância, por telas, mapas e algoritmos. Fixos e fluxos urbanos (ruas, pessoas, veículos, eventos) passam a ser administrados como variáveis técnicas. Nesse enquadramento, a complexidade da vida urbana corre o risco de ser reduzida a indicadores operacionais, enquanto decisões políticas passam a se apoiar em uma suposta objetividade tecnológica. Exemplos recentes no Brasil ajudam a materializar essa lógica. Em São Paulo, o programa Smart Sampa aposta na integração massiva de câmeras, sensores e sistemas de reconhecimento facial, articulando diferentes bases de dados sob a promessa de respostas rápidas ao crime. No mesmo estado, a chamada Muralha Paulista amplia essa estratégia para uma escala regional, conectando municípios por meio de infraestruturas compartilhadas de monitoramento e análise de dados. Em ambos os casos, a centralização da informação aparece como eixo estruturante da política de segurança.

Além desse modelo centralizado, expande‑se uma forma mais difusa e capilar de vigilância. Câmeras privadas, aplicativos colaborativos, redes sociais e dispositivos conectados transformam cidadãos comuns em agentes ativos do monitoramento cotidiano. Observação, registro e denúncia tornam‑se práticas naturalizadas, compondo aquilo que vem sendo descrito como uma cultura da vigilância. Essa dispersão do controle não reduz seu alcance; ao contrário, amplia sua presença no cotidiano e torna mais opaca a definição de responsabilidades, limites e mecanismos de controle democrático. No plano territorial, os efeitos são profundos. A segurança digitalizada contribui para a produção de múltiplas camadas de território que se sobrepõem ao espaço urbano formal. Além do território legal e administrativo, consolida‑se uma camada digital, baseada em dados e algoritmos, e uma terceira camada marcada pela gestão privada de espaços supostamente públicos. Empresas de segurança, condomínios e associações de moradores passam a monitorar ruas e praças, estabelecendo regras próprias de acesso, permanência e circulação.

Curitiba oferece um exemplo emblemático desse movimento com a chamada Muralha Digital, que articula vigilância pública e privada em escala metropolitana. Ao integrar câmeras de condomínios, comércios e órgãos públicos, o programa amplia o campo de observação sobre o espaço urbano e tensiona os limites entre o que é público e o que é privado. Dinâmica semelhante pode ser observada no Rio de Janeiro, com o Cívitas, iniciativa que reforça a lógica dos centros integrados de comando e controle, agora sob a retórica da cidade inteligente e da gestão orientada por dados.

Esse processo tende a reforçar dinâmicas de exclusão e segregação. Tecnologias de vigilância não se distribuem de maneira homogênea pelo território: elas se concentram em áreas consideradas estratégicas ou valorizadas e incidem de forma mais intensa sobre populações já vulnerabilizadas. No contexto brasileiro, essa assimetria dialoga diretamente com o racismo estrutural que historicamente organiza a produção do espaço urbano e a ação do Estado. Corpos negros e periféricos tendem a ser mais frequentemente associados a categorias de risco, suspeição e desordem, tornando-se alvos preferenciais de abordagens, monitoramentos e classificações algorítmicas. O resultado é a normalização de territórios seletivamente vigiados, nos quais determinados grupos são permanentemente suspeitos e outros, sistematicamente protegidos, incorporando a exceção à gestão cotidiana do espaço urbano.

Na América Latina, marcada por desigualdades urbanas históricas e persistentes, esse modelo encontra terreno fértil. A securitização tecnológica frequentemente ocupa o lugar de políticas públicas estruturais, funcionando como resposta rápida e visível a demandas por segurança, sem enfrentar suas causas sociais. Ao mesmo tempo, o Estado muitas vezes legitima ou terceiriza o controle do espaço público, abrindo caminho para formas fragmentadas de governança urbana, pouco transparentes e fortemente orientadas por interesses privados. Em Salvador, o Observatório da Cidade Inteligente ilustra como segurança, gestão urbana e produção de dados passam a ser articuladas em uma mesma plataforma. Sob o discurso da integração e da inovação, informações sobre mobilidade, serviços urbanos e vigilância convergem, reforçando a centralidade dos dados na tomada de decisões e ampliando o alcance das práticas de monitoramento sobre a vida cotidiana.

Questionar o uso de tecnologias digitais na segurança pública não equivale a rejeitar a tecnologia em si. Trata‑se de recusar o determinismo tecnológico e a ideia de que dispositivos técnicos possam, isoladamente, dar conta de conflitos sociais complexos. O ponto central é político: quem controla os dados, quem define os critérios de risco, quem decide onde e sobre quem a vigilância incide?

Para além do fetiche da eficiência, torna‑se necessário recolocar o território e o espaço público no centro da discussão. Segurança não pode ser reduzida a controle, nem tecnologia apresentada como solução neutra. No centro desse debate estão as formas de vida urbana que vêm sendo produzidas, os direitos que são tensionados e o tipo de cidade (e de cidadania) que se consolida a partir da digitalização crescente da gestão da segurança pública.

(*) Rodrigo Firmino - Arquiteto e urbanista, doutor em Planejamento Urbano e Regional, professor titular do Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana na PUCPR e pesquisador nas áreas de segurança, vigilância, tecnologias digitais e território urbano. Coordenador do Jararaca: Laboratório de Tecnopolíticas Urbanas, e membro-fundador da Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade (LAVITS).

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.310

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