Segunda, 07 de Setembro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

RECONHECER A AMEAÇA NÃO BASTA: os limites da inteligência de segurança pública aplicada ao enfrentamento do cibercrime

Há dados, ferramentas e profissionais qualificados no setor público. O que falta é a estruturação de processos e arranjos institucionais.  Por Daiane Londero e Paulo Henryque de Carvalho Carneiro Geraldes

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.30
05/02/2026 às 13h53
RECONHECER A AMEAÇA NÃO BASTA: os limites da inteligência de segurança pública aplicada ao enfrentamento do cibercrime

Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 os golpes bancários digitais, fraudes online, invasões de sistemas e esquemas criminosos articulados por aplicativos de mensagens tornaram-se parte do cotidiano da segurança pública no Brasil. O crime mudou de escala, velocidade e território.

O Estado brasileiro reconhece esse cenário formalmente. O problema está no reconhecimento que ainda não se converteu, de forma clara, em capacidade operacional para as polícias.

Nos últimos anos, documentos estratégicos como a Política Nacional de Inteligência (PNI) e a Política Nacional de Inteligência de Segurança Pública (PNISP) passaram a tratar o ciberespaço como um ambiente relevante de ameaças à ordem pública, às instituições e à segurança dos cidadãos. Já a Doutrina da Atividade de Inteligência (DAI), publicada pela Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) em 2023, destaca a necessidade de antecipação, alerta e assessoramento à decisão diante de riscos digitais. Em termos normativos, portanto, o problema foi identificado.

A dificuldade emerge quando se tenta responder à pergunta central da política pública: como uma ameaça reconhecida no plano estratégico é operacionalizada, na prática, em processos de inteligência capazes de orientar a ação da segurança pública?

As polícias realizam atividade de inteligência há décadas, produzindo conhecimento a partir da coleta de informações, da análise de padrões criminais e do acompanhamento de dinâmicas ilícitas. O que mudou foi o ambiente em que esses crimes se organizam agora.

No ciberespaço, grande parte das informações nasce a partir de fontes abertas, redes sociais e registros digitais. Nesse contexto, termos como Open Source Intelligence (OSINT), Social Media Intelligence (SOCMINT), inteligência cibernética e inteligência de ameaças cibernéticas passaram a ser utilizados de forma indistinta, gerando confusão conceitual e operacional.

Essa confusão não é apenas terminológica. OSINT e SOCMINT são fontes de coleta que produzem dados e registros brutos. Inteligência, por outro lado, resulta da análise, da correlação e da contextualização dessas informações para apoiar decisões estratégicas e operacionais. Quando as fontes de coleta são confundidas com a própria função de inteligência, cria-se a falsa impressão de que monitorar redes sociais ou acumular grandes volumes de dados equivale a produzir inteligência.

Como observa Barros (2025), essa ambiguidade pode estar relacionada à própria forma como a DAI organiza seus conceitos, tradicionalmente classificando a inteligência a partir da origem dos dados, como fontes humanas, técnicas ou abertas. O ciberespaço, porém, não constitui uma fonte em si, mas um ambiente no qual diferentes tipos de dados coexistem. Essa característica tende a dificultar o enquadramento da inteligência cibernética nos modelos clássicos baseados exclusivamente na fonte da informação, contribuindo para a indefinição operacional observada na prática.

Além disso, a DAI não incorporou de forma sistemática modelos conceituais capazes de organizar a leitura das ameaças cibernéticas e orientar ações proativas, tanto no campo das operações cibernéticas quanto no da inteligência no ciberespaço. A ausência desses frameworks dificulta a tradução de diretrizes estratégicas em procedimentos compartilhados, enfraquecendo a coordenação institucional e favorecendo respostas reativas.

Para a segurança pública, esse tipo de conhecimento não possui apenas valor técnico, mas também relevância tático-operacional, na medida em que pode subsidiar a identificação de modus operandi recorrentes, a conexão entre ocorrências aparentemente isoladas e a antecipação de dinâmicas criminosas no ambiente digital. Ainda assim, permanece pouco claro como esse conhecimento é incorporado de forma regular às rotinas de inteligência e à tomada de decisão operacional no âmbito policial.

Há, contudo, exemplos concretos que demonstram a viabilidade dessa operacionalização quando existem arranjos institucionais e fluxos definidos. A Plataforma Tentáculos, desenvolvida e utilizada pela Polícia Federal, constitui uma iniciativa voltada à centralização e correlação de notícias-crime relacionadas a fraudes bancárias eletrônicas. A partir da cooperação com instituições financeiras e de mecanismos de compartilhamento de dados, a plataforma permite identificar padrões, conectar ocorrências e subsidiar investigações de maior alcance.

No caso da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, há pesquisas sendo desenvolvidas na UFRGS e já anunciadas anteriormente nessa coluna, para implementação de melhorias na taxonomia do registro de ocorrências policiais envolvendo estelionatos virtuais. Tal proposta taxonômica busca superar a fragmentação estatística, qualificar o diagnóstico institucional e a atividade de inteligência no enfrentamento à cibercriminalidade.

Fora desses e de outros casos específicos, persiste um vazio operacional. Dados existem, ferramentas existem e há profissionais qualificados no setor público. O que falta é a estruturação de processos e arranjos institucionais, com definição clara de rotinas de coleta, análise e validação de informações, de fluxos de compartilhamento e de capacidades que permitam que o conhecimento produzido subsidie decisões concretas no cotidiano policial.

O paradoxo brasileiro é claro. O Estado reconhece formalmente que o ciberespaço é central para a segurança pública, mas ainda não estruturou como essa ameaça deve ser operacionalizada em inteligência acionável para as polícias. A lacuna não é conceitual no papel. É operacional na prática.

Enquanto essa definição não avançar, a inteligência continuará difusa e opaca, a mistura de conceitos vai prosseguir e as polícias permanecerão reagindo a um crime que já opera em rede, em alta velocidade e para além das fronteiras físicas tradicionais. Reconhecer a ameaça foi um passo importante. Definir como operacionalizá-la permanece como o desafio central.

(*) Daiane Londero - Doutora em Políticas Públicas (UFRGS) e pesquisadora do NEDIPP (UFRGS).

(*) Paulo Henryque de Carvalho Carneiro Geraldes - Especialista em Segurança Cibernética Defensiva (FIAP) e em Políticas e Ações de Inteligência no Enfrentamento ao Crime Organizado (UFRGS).

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.309

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Furto de celulares Há 1 semana

As dinâmicas de roubo e furto de celulares no Brasil

Os roubos e furtos de celulares assumem contornos distintos no Brasil. Nesse cenário, o avanço de tecnologias de proteção e o combate ao mercado ilegal se tornam fundamentais para prevenir esses crimes e reduzir a insegurança associada ao uso cotidiano dos aparelhos em espaços. por Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA: o que os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) apontam sobre a atividade policial

As transformações na criminalidade indicam que o policiamento tradicional – lastreado na presença ostensiva, armas, operações e viaturas – não é mais suficiente para enfrentar a delinquência em tempos de algoritmos, internet e inteligência artificial. por Alexandre Pereira da Rocha

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

DA RUA AO JUIZADO: por que segurança no futebol é política pública (e não só policiamento)

O futebol é um laboratório visível e sensível de escolhas que também estruturam a segurança pública em geral. As escolhas de cada país para a segurança dos eventos desse esporte se apresentam como um reflexo do modelo mais amplo de governança da segurança urbana. por Raquel Sousa

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

A cabeça de bacalhau da segurança pública que atinge em cheio a perícia oficial

Protocolos policiais, que orientam uma atividade que interfere diretamente na liberdade, na intimidade e na integridade das pessoas, devem estar disponíveis de maneira clara, atualizada e verificável. A transparência só se completa quando a sociedade consegue consultar o documento e cobrar sua aplicação. por Cássio Thyone Almeida de Rosa

SEGURANÇA NO MUNDO Há 1 semana

AS EXTORSÕES EM EL SALVADOR E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA DE BUKELE

Por qual motivo, segundo pesquisas, os salvadorenhos apoiam um governo que restringe seus direitos políticos? A resposta está, de novo, na segurança, a área do desempenho governamental que recebe maior aprovação dos cidadãos. por Ignacio Cano

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 26°
29° Sensação
6.06 km/h Vento
73% Umidade
38% (0.36mm) Chance chuva
05h34 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Terça
26° 25°
Quarta
26° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 23°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,13 +0,07%
Euro
R$ 5,96 +0,17%
Peso Argentino
R$ 0,00 -3,12%
Bitcoin
R$ 430,277,01 -0,76%
Ibovespa
185,147,16 pts -0.02%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio