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A MILITARIZAÇÃO DA AMAZÔNIA E A ESCALADA DE CONFLITOS REGIONAIS: efeitos potenciais do contexto na Venezuela

A região noroeste da Amazônia enfrenta atualmente desafios significativos devido à presença de grupos armados ilegais e economias ilícitas centradas na mineração de ouro e no narcotráfico. A região também contém minerais estratégicos. Por Rodrigo Botero García

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.307
02/02/2026 às 08h38 Atualizada em 02/02/2026 às 08h59
A MILITARIZAÇÃO DA AMAZÔNIA E A ESCALADA DE CONFLITOS REGIONAIS: efeitos potenciais do contexto na Venezuela

A região noroeste da Amazônia enfrenta atualmente desafios significativos devido à presença de grupos armados ilegais e economias ilícitas centradas na mineração de ouro e no narcotráfico. A região também contém minerais estratégicos. 

A intervenção militar dos Estados Unidos na Venezuela parece ser uma fase inicial de uma estratégia regional mais ampla, cujo objetivo é exercer pressão por mudanças políticas que se alinhem aos seus interesses econômicos. Esses interesses incluem principalmente o controle das reservas de petróleo e de “terras raras”. Além disso, essa estratégia busca estabelecer uma dinâmica competitiva com a China na região, onde já detém uma vantagem econômica substancial por meio de seus acordos com diversos países amazônicos, incluindo Brasil, Colômbia, Peru, Bolívia, Guiana e Equador. (1)

Os países do BRICS (Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul) adotaram o ouro como moeda alternativa para o comércio global, buscando reduzir a dependência do dólar americano e a influência do sistema financeiro dos EUA sobre os bloqueios e sanções econômicas de Washington. Essa mudança levou a um aumento significativo na produção e nas compras de ouro, incluindo investimentos substanciais por parte de países árabes, com o objetivo de mitigar os riscos de instabilidade em meio à incerteza global.

Os eventos recentes podem desencadear um movimento regional de forças políticas e econômicas, bem como de grupos armados ilegais. Esses grupos estão se adaptando à incerteza política desencadeada pela captura de Nicolás Maduro e pela consolidação inicial de Delcy Rodríguez como presidente interina. Os Estados Unidos fizeram progressos significativos em suas negociações com o novo governo, particularmente em termos de garantia de acesso ao petróleo e suspensão dos embargos comerciais.

Embora seja verdade que o petróleo tenha sido o tema central nos discursos de Trump, também é verdade que os interesses de sua administração e de figuras estratégicas como Elon Musk estão focados na transição energética, em minerais, comunicações e inteligência artificial, como refletido na declaração chocante sobre a Ucrânia feita no início de seu mandato.

A Venezuela possui reservas consideráveis ​​de coltan, terras raras, diamantes, ouro, estanho e outros minerais. Esses recursos atraíram a atenção das principais potências comerciais, em particular os Estados Unidos, a China e a Rússia. As regiões onde essas reservas minerais estão localizadas apresentam uma presença significativa de grupos armados e gangues criminosas (2) principalmente colombianos, brasileiros e venezuelanos. O governo Trump designou grupos armados como o Tren de Aragua e o ELN da Colômbia como alvos militares. Esses grupos têm presença e controle sobre os territórios e minerais em questão.

Ao mesmo tempo, o governo colombiano iniciou um processo de diálogo e coordenação com os Estados Unidos para lidar com as ameaças representadas por “grupos armados, que são ameaças regionais”. Grupos armados ilegais colombianos interpretaram isso como uma ameaça direta à sua segurança, tanto nacional quanto internacionalmente (3). Desde o final do ano passado, o governo colombiano tem trabalhado em estreita colaboração com o governo brasileiro para combater grupos de garimpeiros ilegais. Constatou-se que esses grupos atuam em conjunto com grupos armados colombianos, envolvidos no tráfico de ouro, armas e drogas. Na sequência de uma operação militar contra atividades ilegais de mineração de ouro no Equador, que resultou na morte a tiros de quase uma dúzia de soldados por grupos armados ilegais colombianos (operando em conluio com autoridades corruptas), o presidente Noboa intensificou as operações militares na região. Em um desenvolvimento relacionado, o Peru iniciou esforços de colaboração com a Colômbia para desmantelar organizações criminosas ao longo da fronteira, marcando um passo significativo na dinâmica de segurança e governança da região.

A região noroeste da Amazônia enfrenta atualmente desafios significativos devido à presença de grupos armados ilegais e economias ilícitas centradas na mineração de ouro e no narcotráfico. A região também contém minerais estratégicos, com diferentes níveis de comércio, ilegalidade e desinformação governamental sobre o real potencial de seus depósitos.

Nesse contexto, existe a possibilidade de os Estados Unidos darem maior ênfase à sua política ofensiva militar regional, com o objetivo de garantir o acesso a esses recursos naturais. Concomitantemente, o governo chinês continuará a alocar recursos substanciais para o desenvolvimento da iniciativa “Rota da Seda e Cinturão da Seda” (4). Essa iniciativa envolve a utilização da infraestrutura regional e a aquisição de recursos minerais e energéticos.

Existe uma alta probabilidade de que a cooperação militar dos EUA aumente e que o financiamento de programas de cooperação priorize esse aspecto, podendo levar a uma redução no apoio a políticas de desenvolvimento econômico e à proteção de grupos sociais vulneráveis. Devido às tendências de longo prazo na demanda global por ouro, minerais estratégicos, drogas e armas, é altamente provável que a região amazônica continental se torne um local de crescente conflito em meio à tensão geopolítica entre os Estados Unidos e a China.

Referências

1. Douglas C. Youvan. Silver and Gold in Global Finance: The Strategic Role of Precious Metals in the BRICS Financial System. 2024

2. Amazonia in Dispute, Climate Security, and Socio-Environmental Conflicts in the Northwestern Amazon: Foundation for Conservation and Sustainable Development-Igarapé Institue. 2025

3. Is a criminal alliance coming? ELN would agree to join forces with ‘Mordisco’ in the event of a US attack on Colombia. Caracol Radio, Colombia. 2026

4. The New Silk Road: China in Latin America. China in Latin Ammerica. Environment and Society Association. 2025

5. https://insightcrime.org/es/noticias-crimen-organizado-brasil/

(*) Rodrigo Botero García - Diretor-Geral, Fundación para la Conservación y el Desarrollo Colombia (FCDS) Janeiro de 2025.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.307

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