Sexta, 24 de Abril de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Por que a fórmula para superar a violência e a prisão não funciona no Brasil

É necessário ouvir quem vive nas vielas, nos becos e nos morros, quem sofre com a prisão e com a falta do mínimo existencial. por João Marcos Buch

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.306
27/12/2025 às 09h02
Por que a fórmula para superar a violência e a prisão não funciona no Brasil

A segurança pública voltou a ocupar o centro das discussões políticas no Brasil. Os confrontos da polícia em comunidades periféricas e favelas, com prisões espetaculosas e mortes violentas, fazem a sociedade cobrar respostas imediatas das autoridades. Apesar das promessas, as ações do Estado continuam revelando contradições profundas. De um lado, reforça-se a ideia de que é preciso expandir o aparato repressivo e prender; de outro, multiplicam-se as famílias que buscam justiça diante de intervenções policiais que terminam em prisão e morte. Entre esses extremos, persiste um descompasso que compromete qualquer projeto consistente de superação da violência e do encarceramento.

Nos últimos anos, conforme o noticiário, muitos governos estaduais ampliaram orçamentos para aquisição de armas de alto calibre, muitas vezes importadas, bem como para aumento e construção de unidades prisionais. O discurso é conhecido: só com mais força e prisão será possível enfrentar facções criminosas e tráfico de drogas em expansão. Contudo, esse movimento convive com outra realidade. Em gabinetes do Judiciário, como o meu, chegam mães e pais que perderam seus filhos em operações policiais. Pedem informações sobre as investigações, mas esbarram em negativas ilegais, apesar das garantias constitucionais de acesso. A discrepância entre o investimento em repressão e a ausência de respostas para as vítimas revela a face mais dura do problema: o Estado se arma, mas não escuta.

A contradição também aparece quando observamos episódios que chocam o país. A recente operação nos complexos do Alemão e na Penha, no Rio de Janeiro, deixou mais de 120 mortos. As imagens de familiares carregando corpos da mata para a rua chocaram o mundo e reabriram debates sobre letalidade policial. Ao mesmo tempo, longe dos holofotes, o Observatório de Violência em Florianópolis apresentou um estudo detalhado sobre quem morre na capital catarinense, considerada a mais segura do país. Os dados mostram que a segurança não é distribuída de forma igual: moradores de territórios periféricos, sobretudo jovens negros, concentram as mortes decorrentes de ação policial. O que parece estatística ganha nome, cor e endereço.

Há também um distanciamento entre os compromissos institucionais e a prática cotidiana da justiça criminal. O Conselho Nacional de Justiça lançou o plano Pena Justa, criado após o Supremo Tribunal Federal declarar o estado de coisas inconstitucional do sistema prisional brasileiro (ADPF 347). O plano propõe reduzir a superlotação, melhorar a infraestrutura das prisões, garantir acesso à educação e trabalho e fortalecer a reinserção social de egressos. Contudo, na rotina do sistema de justiça criminal, multiplicam-se habeas corpus questionando prisões preventivas decretadas e indeferimentos de medidas alternativas à prisão que muitas vezes poderiam tomar outro desfecho, com menos custos para tantas vidas. A teoria avança, a prática resiste.

Esse conjunto de cenários aponta para a existência de dois Brasis que convivem sem se tocar. Há o Brasil oficial, que responde à violência com mais violência, expande operações e constrói presídios. É o país que administra tragédias, mas pouco investe em preveni-las. E há o Brasil real, formado pelas vítimas históricas da desigualdade: crianças que crescem sem direitos básicos, adolescentes invisibilizados e jovens que, quando não são mortos precocemente, passam a integrar estatísticas de encarceramento. Esses dois Brasis disputam o mesmo território, mas raramente dividem o mesmo diálogo.

Superar a violência exige mais do que equipamentos novos ou operações espetaculares, muito mais do que o encarceramento. Exige reconhecer que as políticas públicas falham quando ignoram o cotidiano das comunidades periféricas e que as prisões se tornaram depósito humano de uma juventude cujo único erro foi nascer do lado de lá da margem. É necessário ouvir quem vive nas vielas, nos becos e nos morros, quem sofre com a prisão e com a falta do mínimo existencial; entender suas dificuldades e a desigualdade que as atravessa. Sem essa escuta ativa, qualquer ação estatal se torna unilateral e reforça o ciclo que deveria combater.

O Brasil enfrenta um caminho longo e urgente. E esse caminho passa, inevitavelmente, pelo encontro entre o Estado e as populações que historicamente foram deixadas à margem. Somente quando esses mundos se aproximarem será possível construir políticas nacionais capazes de desconstruir a cultura do encarceramento em massa e de enfrentar a violência de modo real, humano e eficaz. Até lá, a fórmula continuará a não funcionar — e continuará custando a liberdade; pior, custando vidas.

(*) João Marcos Buch - Desembargador e Pesquisador do LabGEPEN.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.306

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 3 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 3 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 3 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 3 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
29° Sensação
5.51 km/h Vento
74% Umidade
100% (16.69mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h23 Pôr do sol
Sábado
27° 26°
Domingo
27° 26°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 -0,88%
Euro
R$ 5,84 -0,58%
Peso Argentino
R$ 0,00 -2,78%
Bitcoin
R$ 409,609,92 -0,35%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio