Segunda, 08 de Junho de 2026
25°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

A PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção: Congresso Nacional ‘batendo cabeça’

O arranjo institucional que está emergindo no Congresso Nacional não viabiliza soluções para o principal desafio do setor, qual seja, a desarticulação e a precária cooperação entre os órgãos e entre os entes federados. por Luis Flavio Sapori e Rafael Alcadipani

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.306
27/12/2025 às 04h41
A PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção: Congresso Nacional ‘batendo cabeça’

Diante da pressão popular, o Congresso Nacional está envolvido no reordenamento institucional da segurança pública brasileira, o que é bastante positivo. Temos uma janela de oportunidade para corrigir distorções normativas de modo a incrementar a eficácia do aparato repressivo do Estado no enfrentamento da criminalidade violenta como um todo, não apenas do crime organizado. Entretanto, os dois instrumentos jurídicos em pauta no Congresso, o PL Antifacção e a PEC da Segurança Pública, padecem de sérios problemas e, como se não bastasse, não estão articulados entre si.

O parecer apresentado pelo deputado Mendonça Filho (União Brasil–PE) sobre a PEC da Segurança Pública alterou por completo o texto original enviado pelo Executivo. O parlamentar aproveitou a tramitação para incluir na Constituição Federal dispositivos próprios da legislação penal e da execução penal, endurecendo punições para integrantes de facções criminosas. Entretanto, tais medidas já foram contempladas no recém-aprovado PL Antifacção no Senado, sem necessidade de constitucionalização.

O ponto mais delicado do parecer diz respeito ao redesenho proposto para o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP). O texto original já transpunha para a Constituição normas presentes na lei que criou o SUSP em 2018 e, ainda que ampliasse o poder da União na definição das diretrizes nacionais, preservava o espírito de coordenação federativa. Surpreendentemente, a proposta de Mendonça Filho vai na direção oposta: empodera excessivamente os Estados e enfraquece a responsabilidade federal. Exemplo disso é a introdução do Artigo 144-B, que cria um sistema de políticas penais e entrega a cada governo estadual a definição do regime disciplinar interno e a regulamentação de visitas, atendimentos jurídico, religioso e escolar. Tal medida amplia as prerrogativas dos governadores na execução penal, na prática relativizando uma legislação nacional que deveria ser uniforme.

Além disso, o parecer ignora a necessidade de articulação entre União, Estados e municípios na formulação e implementação das políticas de segurança — elemento central para o funcionamento do SUSP. Em vez disso, determina apenas que cada ente federado elabore sua própria política, fomentando fragmentação e descontinuidade. O proposto Artigo 144-A trata a cooperação federativa como mera atuação em forças-tarefa intergovernamentais, coordenadas sempre pelo ente que as propuser. Na prática, o SUSP é reduzido a um arranjo de cooperação operacional entre Estados, rebaixando o papel do governo federal e, especialmente, da Polícia Federal. O parecer consegue, assim, desfazer o pouco avanço que a lei de 2018 havia proporcionado. Caso aprovado nesses termos, o SUSP estará definitivamente implodido, agravando ainda mais a parca articulação da política de segurança pública do país.

Como se não bastasse, há nítidas incongruências com algumas institucionalidades prescritas pelo PL Antifacção. A começar pelas normativas distintas no que diz respeito aos fundos federais que financiam o sistema prisional e a segurança pública. O PL Antifacção cria um imposto específico, a Cide-Bets, cuja arrecadação será repassada integralmente ao Fundo Nacional de Segurança Pública (FNSP). Este fundo tem sua atribuição ampliada, devendo financiar também a construção, ampliação, modernização e aparelhamento de estabelecimentos penais. O governo federal tem a tarefa de reestruturar os fundos federais vinculados à política de segurança pública, de forma a reduzir sobreposições. Tal reestruturação deve considerar a integração do FNSP, do Fundo Penitenciário Nacional (FUNPEN), do Fundo Nacional Antidrogas (FUNAD) e do Fundo para Aparelhamento e Operacionalização das Atividades-fim da Polícia Federal (FUNAPOL). A PEC da Segurança Pública, por sua vez, garante a manutenção do FNSP e do FUNPEN, não mencionando os demais fundos federais, e apenas ressalta a maior porcentagem no repasse de recursos para os estados mediante o mecanismo de repasse fundo a fundo. Caso seja mantida nesses termos, a PEC da Segurança Pública tende a inviabilizar o fortalecimento do FNSP nos termos propostos pelo PL Antifacção, colocando em cheque a criação da Cide-Bets.

Aspecto mais problemático é a definição do grau de responsabilidade do Executivo federal no enfrentamento das facções criminosas, tipificação penal reconhecida por ambos os documentos legais. O PL Antifacção concebe as Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (FICCOs) como principal mecanismo de atuação conjunta e coordenada dos órgãos responsáveis pela investigação, persecução penal e inteligência em segurança pública no enfrentamento a organizações criminosas. Atribui à Polícia Federal a coordenação das FICCOs, ficando em segundo plano os Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos), forças-tarefa coordenadas pelos Ministérios Públicos. O PL Antifacção fomenta essa dualidade indesejável das forças-tarefa, mantendo-se foco crônico de desarticulação institucional. A PEC da Segurança Pública, por seu turno, prescreve prioritariamente a construção de forças-tarefa entre as unidades federativas, empoderando o aparato policial estadual em detrimento da Polícia Federal. É destacada a expressão força-tarefa intergovernamental e interinstitucional, admitida a participação do Ministério Público. Está estabelecido também que as forças-tarefa serão coordenadas por órgão designado pelo ente federativo proponente. Observa-se, portanto, que a PEC da Segurança Pública tende a fortalecer as prerrogativas dos estados no enfrentamento das fações criminosas ao passo que o PL Antifacção garante atribuições mais efetivas ao Executivo federal.

O afã de construir algo a toque de caixa e com olhar apenas eleitoreiro gera um Frankenstein normativo que de nada ajudará nosso país. A ausência de um debate técnico consistente desperdiça tempo precioso que o país não tem, afastando-nos de soluções estruturais para a grave crise da segurança pública no Brasil. O arranjo institucional que está emergindo no Congresso Nacional não consegue viabilizar soluções para o principal desafio do setor, qual seja, a desarticulação e a precária cooperação entre os órgãos e entre os entes federados. Basta de Frankensteins normativos na segurança pública brasileira.

(*) Luis Flavio Sapori - Professor da PUC-MG e associado sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

(*) Rafael Alcadipani - Professor Titular da Fundação Getulio Vargas – Escola de Administração de Empresas de São Paulo e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.306

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 12 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 12 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 12 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 12 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 12 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 25°
25° Sensação
6.11 km/h Vento
68% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h51 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 25°
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 346,465,67 -1,24%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio