Segunda, 08 de Junho de 2026
25°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Na TV e na internet: práticas de comunicação que transformam ex-presos

Quando novelas, séries, influenciadores e instituições passam a retratar o egresso como cidadão, e não como ameaça, cumprem função reparadora. por José Lucas Azevedo

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.302
01/12/2025 às 05h24
Na TV e na internet: práticas de comunicação que transformam ex-presos

Quando novelas, séries, influenciadores e instituições passam a retratar o egresso como cidadão, e não como ameaça, cumprem função reparadora. 

Por muito tempo, o tema da prisão foi apresentado na televisão e na internet a partir da violência, da punição e da caricatura. O resultado é o reforço de um estigma que acompanha pessoas egressas do sistema prisional muito depois de cumprirem suas penas. Um olhar social que as reduz à condição de “ex-presas”, como se o erro fosse uma tatuagem indelével.

Mas, nos últimos anos, a comunicação e o entretenimento começaram a explorar caminhos mais complexos: histórias realistas, vozes autênticas e influenciadores que humanizam quem viveu o cárcere. A mensagem implícita pode ser poderosa e capaz de reconhecer humanidade e reconstruir vínculos sociais.

QUANDO A NOVELA PROMOVE POLÍTICAS PÚBLICAS

Na ficção recente, um caso chama atenção: Ryan, personagem da novela “Dona de Mim” (TV Globo, 2025), vivido pelo rapper e ator L7NNON (Lennon Frassetti). O jovem tenta reconstruir a vida após a prisão e depara com dilemas reais — a dificuldade para conseguir trabalho, a desconfiança social e o peso de carregar um passado público.

Diferente de representações antigas, a trama evita o estereótipo do “criminoso arrependido” e mostra o cotidiano ambíguo da reinserção social: o esforço para seguir regras, reconstruir afetos e enfrentar um sistema que, na prática, ainda não está preparado para acolher. O efeito é pedagógico. Quando a audiência acompanha a rotina de um personagem que enfrenta burocracias e preconceitos reais, abre-se espaço para empatia e reflexão social.

Também este ano, a nova versão da novela Vale Tudo, cuja versão original data de 1998, mostrou a capacidade de engajamento do entretenimento. Em 2025, o remake da novela exibiu uma cena em que a personagem Lucimar descobre, pela televisão, a possibilidade de buscar ajuda da Defensoria Pública da União (DPU) para resolver questões de pensão. Poucos dias depois da exibição, o serviço real para o cidadão registrou recorde de atendimentos[1].

A lição é direta: quando a TV comunica direitos de forma acessível, o público responde. Esse modelo de entretenimento-educação (Singhal; Rogers, 2002) poderia ser replicado para temas como documentação civil, trabalho e apoio psicossocial a egressos — serviços que já existem, mas são desconhecidos pela maioria da população. Uma simples menção em horário nobre pode transformar informação em política pública efetiva.

DA FICÇÃO AO FEED: NOVAS NARRATIVAS DIGITAIS SOBRE O CÁRCERE

Se a televisão ainda é um canal de massa, a internet se tornou o território da reconstrução individual, mas de grande capilaridade também. Plataformas como Instagram e TikTok abrigam hoje narrativas que desafiam a visão estigmatizada do cárcere e mostram que o recomeço é possível.

O atleta Alex Lopes (@lopes.alexx) usa o Instagram para compartilhar sua trajetória de ressocialização e sucesso esportivo. Suas postagens de treinos, medalhas e depoimentos sinceros não escondem o passado, mas o ressignificam. O tom é natural, ele fala como quem vive, e não como quem “pede desculpas”. Esse enquadramento da pessoa antes da pena, e não a pena antes da pessoa se mostra fundamental para reconstruir cidadania (GOFFMAN, 1988).

Outro exemplo vem da psicóloga Thamiris Castro, que, a partir de sua atuação em presídios, trouxe à rede social TikTok relatos curtos sobre as dores, histórias e desafios psicológicos de quem está privado de liberdade. Ela traduz o sistema prisional para um público jovem, com linguagem leve e vídeos curtos, mas sem diluir a complexidade do tema. É o tipo de comunicação que precisa ser adotado de forma pública, pois informa, educa e desarma preconceitos (CNJ; PNUD, 2023).

Também emergem as chamadas criadoras de conteúdo digital que possuem relacionamentos com pessoas privadas de liberdade. São influenciadoras que produzem conteúdo sobre a rotina de visitas e relacionamentos afetivos[2]. Embora parte da audiência consuma com curiosidade, a exposição tem efeito colateral positivo ao humanizar e “dar rosto” às famílias que vivem o sistema prisional de fora para dentro, lembrando que a prisão não atinge apenas o indivíduo, mas todo o seu entorno afetivo.

COMUNICAÇÃO COMO POLÍTICA DE REPARAÇÃO

Pesquisas de comunicação pública e direitos humanos apontam que a representação social das pessoas egressas está no centro da luta pela ressocialização. Erving Goffman (1988) definiu o estigma como um “atributo desqualificante” que nega à pessoa o reconhecimento pleno de humanidade. No Brasil, essa negação é agravada por desigualdades raciais e econômicas que atingem majoritariamente jovens, negros e pobres. Tal rótulo os acompanha fora dos muros (WACQUANT, 2001).

Por isso, a comunicação é parte fundamental de uma boa política pública. Quando novelas, séries, influenciadores e instituições passam a retratar o egresso como cidadão, e não como ameaça, cumprem função reparadora. Mudam o enquadramento social, deslocam o foco da culpa para a oportunidade e aproximam o público de histórias possíveis.

O Estado tem papel central nesse processo. Campanhas de informação sobre serviços, incentivos a empresas contratantes, programas de mídia educativa e parcerias com roteiristas e criadores de conteúdo podem consolidar um ecossistema narrativo de segunda chance (CNJ; PNUD, 2023).

A partir de novas narrativas, a sociedade pode entender que o recomeço é um direito. E esse entendimento coletivo pode começar onde as pessoas olham todos os dias: na tela da TV e no feed do celular.

Referências

CNJ; PNUD. Caderno IV – Metodologia de Enfrentamento ao Estigma e Plano de Trabalho para sua Implantação. Brasília: Conselho Nacional de Justiça; Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, 2023.

CNN BRASIL. Efeito Vale Tudo: Defensoria bate recorde de acessos com cena de Lucimar. São Paulo: CNN Brasil, 2024. Disponível AQUI: Acesso em: 26 out. 2025.

GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. 4. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1988.

SINGHAL, Arvind; ROGERS, Everett M. Entertainment-Education: A Communication Strategy for Social Change. Mahwah: Lawrence Erlbaum Associates, 2002.

VEJA. Blogueirinhas de porta de cadeia fazem sucesso nas redes sociais. São Paulo: Abril, 2024. Disponível AQUI: Acesso em: 26 out. 2025.

WACQUANT, Loïc. Punir os pobres: a nova gestão da miséria nos Estados Unidos. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2001.

[1] CNN, 2025. Efeito “Vale Tudo”? Defensoria bate recorde de acessos com cena de Lucimar

[2] VEJA, 2025. Blogueirinhas de porta de cadeia fazem sucesso nas redes sociais

(*) José Lucas Azevedo - Jornalista e mestre em Comunicação Digital e Dados pela Fundação Getúlio Vargas; pesquisador do LABGEPEN.

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.302

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

**INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 13 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 25°
25° Sensação
6.1 km/h Vento
72% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h51 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 25°
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 345,391,21 -1,54%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio