Segunda, 08 de Junho de 2026
25°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Quem pensa nos policiais quando a Segurança Pública chega ao topo das preocupações?

Entre a escalada da criminalidade, o clamor popular e o uso político da pauta da segurança pública estão os policiais que, na prática, foram transformados em escudos humanos, incumbidos de enfrentar ameaças cotidianas à soberania estatal em territórios dominados por facções. Por Juliana Lemes da Cruz

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.301
17/11/2025 às 08h41 Atualizada em 17/11/2025 às 09h08
Quem pensa nos policiais quando a Segurança Pública chega ao topo das preocupações?

A preocupação dos brasileiros com a Segurança Pública atingiu, no último ano, o topo das inquietações nacionais. O dado, revelado por pesquisa Quaest semanas antes da megaoperação realizada nas comunidades do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025, expôs a urgência e a magnitude do problema. O episódio escancarou a necessidade de respostas concretas diante do que se desenha como uma das maiores crises da história recente do país.

Em 2024, a pauta da Segurança Pública já havia dominado o debate das eleições municipais, ganhando ainda mais centralidade desde então. Tudo indica que o tema voltará ao centro da disputa eleitoral de 2026, mobilizando discursos marcados pela polarização político-partidária e ideológica — uma dinâmica que tem contaminado as relações sociais em praticamente todas as esferas.

Nesse cenário de forças opostas, a população se vê duplamente encurralada: de um lado, refém da ação de criminosos que dominam territórios e impõem medo às comunidades; de outro, submetida à inação do Estado, incapaz de conter o avanço do crime organizado e de oferecer respostas eficazes à escalada da violência.

Na edição mais recente do Fonte Segura, o professor Arthur Trindade analisou com clareza o atual panorama da Segurança Pública no Brasil, alertando para a dimensão do desafio enfrentado pelos tomadores de decisão. Ele destacou exemplos internacionais e suas lacunas — o caso da reforma urbana na Colômbia, a criação da Guarda Nacional no México e o regime de exceção em El Salvador.

No Brasil, a persistência da criminalidade e a dificuldade de enfrentamento, somadas à ausência de um Ministério específico para a área, revelam o “não lugar” da Segurança Pública como política estruturante do Estado brasileiro. Esse modelo de condução, inclusive, pode estar contribuindo para o desgaste em torno da tramitação da PEC da Segurança, promessa que ainda não se converteu em avanço concreto para o setor.

No centro desse cenário — entre a escalada da criminalidade, o clamor popular e o uso político da pauta — estão os policiais, especialmente os das corporações militar e civil. Na prática, têm sido transformados em “escudos humanos”, incumbidos de enfrentar ameaças cotidianas à soberania estatal em territórios dominados por facções.

Geralmente, as implicações políticas e jurídicas das decisões tomadas por atores públicos nos diversos níveis de autoridade são conhecidas, exploradas e revisitadas. Destacam-se o alcance das prisões, apreensões, letalidade policial, vitimização e os impactos objetivos diretamente relacionados.  No entanto, pouco ou nada se discute sobre as implicações laborais e psíquicas do cumprimento daquelas decisões refletidas no conjunto dos policiais militares e civis atuantes na ponta.

A designação de um policial formado há 40 dias em uma operação de risco calculado não deve ser entendida como um caso isolado. Isso sinaliza a inobservância de requisitos básicos por parte de atores demandantes que, em regra, dispõem de experiência suficiente para evitar a exposição de policiais pouco experimentados em determinadas missões. Mas quem pensa nisso?

Poucos refletem sobre o fato de que a exposição contínua ao perigo — inerente à função policial — tem provocado o adoecimento crescente desses profissionais. Quanto mais urgente a demanda por respostas, mais exaustivo se torna o trabalho operacional. Essa realidade, por sua vez, compromete a qualidade do serviço prestado, embora raramente se reconheça essa relação.

Dentre as camadas do adoecimento que se processa intramuros das instituições, destaca-se o Transtorno de Estresse Pós Traumático, o TEPT, que chega a demandar a retirada do agente do exercício da atividade-fim, tamanho pode ser o impacto das operações policiais. Por mais que haja treinamento e conformação da realidade das ruas de forma clara e objetiva para o coletivo, a elaboração do que se vivencia remete ao indivíduo em particular.

Na megaoperação do Rio houve quatro óbitos de policiais – dois civis e dois militares -, e mais de uma dezena de feridos, alguns em estado gravíssimo.

Na esteira dessa dinâmica, o sucateamento da estrutura das organizações, a limitação logística (armamento, equipamento, viaturas, câmeras corporais…), e a limitação física (estrutura das edificações/espaços – para treinamento, formação e acolhimento) são elementos que refletem a falta de investimento na polícia.

Em tempos nos quais o crime organizado faz uso de tecnologia e de inteligência para enfrentar o Estado, o investimento nas forças policiais deveria ser prioridade. Garantir a integridade física e psíquica dos profissionais da linha de frente é, portanto, condição indispensável para qualquer tentativa séria de reconstrução da política de Segurança Pública no Brasil.

(*) Juliana Lemes da Cruz - Doutora em Política Social (UFF), Cabo na PMMG e Presidente do Conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.301

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

**INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 13 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 25°
25° Sensação
6.1 km/h Vento
72% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h51 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 25°
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 344,860,97 -1,69%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio