Sexta, 24 de Julho de 2026
23°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

Quem pensa nos policiais quando a Segurança Pública chega ao topo das preocupações?

Entre a escalada da criminalidade, o clamor popular e o uso político da pauta da segurança pública estão os policiais que, na prática, foram transformados em escudos humanos, incumbidos de enfrentar ameaças cotidianas à soberania estatal em territórios dominados por facções. Por Juliana Lemes da Cruz

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.301
17/11/2025 às 08h41 Atualizada em 17/11/2025 às 09h08
Quem pensa nos policiais quando a Segurança Pública chega ao topo das preocupações?

A preocupação dos brasileiros com a Segurança Pública atingiu, no último ano, o topo das inquietações nacionais. O dado, revelado por pesquisa Quaest semanas antes da megaoperação realizada nas comunidades do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, em 28 de outubro de 2025, expôs a urgência e a magnitude do problema. O episódio escancarou a necessidade de respostas concretas diante do que se desenha como uma das maiores crises da história recente do país.

Em 2024, a pauta da Segurança Pública já havia dominado o debate das eleições municipais, ganhando ainda mais centralidade desde então. Tudo indica que o tema voltará ao centro da disputa eleitoral de 2026, mobilizando discursos marcados pela polarização político-partidária e ideológica — uma dinâmica que tem contaminado as relações sociais em praticamente todas as esferas.

Nesse cenário de forças opostas, a população se vê duplamente encurralada: de um lado, refém da ação de criminosos que dominam territórios e impõem medo às comunidades; de outro, submetida à inação do Estado, incapaz de conter o avanço do crime organizado e de oferecer respostas eficazes à escalada da violência.

Na edição mais recente do Fonte Segura, o professor Arthur Trindade analisou com clareza o atual panorama da Segurança Pública no Brasil, alertando para a dimensão do desafio enfrentado pelos tomadores de decisão. Ele destacou exemplos internacionais e suas lacunas — o caso da reforma urbana na Colômbia, a criação da Guarda Nacional no México e o regime de exceção em El Salvador.

No Brasil, a persistência da criminalidade e a dificuldade de enfrentamento, somadas à ausência de um Ministério específico para a área, revelam o “não lugar” da Segurança Pública como política estruturante do Estado brasileiro. Esse modelo de condução, inclusive, pode estar contribuindo para o desgaste em torno da tramitação da PEC da Segurança, promessa que ainda não se converteu em avanço concreto para o setor.

No centro desse cenário — entre a escalada da criminalidade, o clamor popular e o uso político da pauta — estão os policiais, especialmente os das corporações militar e civil. Na prática, têm sido transformados em “escudos humanos”, incumbidos de enfrentar ameaças cotidianas à soberania estatal em territórios dominados por facções.

Geralmente, as implicações políticas e jurídicas das decisões tomadas por atores públicos nos diversos níveis de autoridade são conhecidas, exploradas e revisitadas. Destacam-se o alcance das prisões, apreensões, letalidade policial, vitimização e os impactos objetivos diretamente relacionados.  No entanto, pouco ou nada se discute sobre as implicações laborais e psíquicas do cumprimento daquelas decisões refletidas no conjunto dos policiais militares e civis atuantes na ponta.

A designação de um policial formado há 40 dias em uma operação de risco calculado não deve ser entendida como um caso isolado. Isso sinaliza a inobservância de requisitos básicos por parte de atores demandantes que, em regra, dispõem de experiência suficiente para evitar a exposição de policiais pouco experimentados em determinadas missões. Mas quem pensa nisso?

Poucos refletem sobre o fato de que a exposição contínua ao perigo — inerente à função policial — tem provocado o adoecimento crescente desses profissionais. Quanto mais urgente a demanda por respostas, mais exaustivo se torna o trabalho operacional. Essa realidade, por sua vez, compromete a qualidade do serviço prestado, embora raramente se reconheça essa relação.

Dentre as camadas do adoecimento que se processa intramuros das instituições, destaca-se o Transtorno de Estresse Pós Traumático, o TEPT, que chega a demandar a retirada do agente do exercício da atividade-fim, tamanho pode ser o impacto das operações policiais. Por mais que haja treinamento e conformação da realidade das ruas de forma clara e objetiva para o coletivo, a elaboração do que se vivencia remete ao indivíduo em particular.

Na megaoperação do Rio houve quatro óbitos de policiais – dois civis e dois militares -, e mais de uma dezena de feridos, alguns em estado gravíssimo.

Na esteira dessa dinâmica, o sucateamento da estrutura das organizações, a limitação logística (armamento, equipamento, viaturas, câmeras corporais…), e a limitação física (estrutura das edificações/espaços – para treinamento, formação e acolhimento) são elementos que refletem a falta de investimento na polícia.

Em tempos nos quais o crime organizado faz uso de tecnologia e de inteligência para enfrentar o Estado, o investimento nas forças policiais deveria ser prioridade. Garantir a integridade física e psíquica dos profissionais da linha de frente é, portanto, condição indispensável para qualquer tentativa séria de reconstrução da política de Segurança Pública no Brasil.

(*) Juliana Lemes da Cruz - Doutora em Política Social (UFF), Cabo na PMMG e Presidente do Conselho do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.301

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

**INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Em segurança pública, o seguro não morreu de velho – morreu sem ser testado

Transformar a segurança pública brasileira não passa por mais um plano grandioso anunciado com certeza absoluta. Passa por algo mais difícil e mais humilde: aceitar que não sabemos tudo e construir, juntos, as condições para descobrir.  por Marcelo Zago Gomes Ferreira*

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

O DINHEIRO DOS TROUXAS

Existe uma discussão no Congresso para impedir o funcionamento das bets. Por que não levar a coisa mais longe, discutindo seriamente a reabertura de cassinos e bingos e talvez até legalizar o jogo do bicho, tirando-o das mãos dos criminosos?  por Guaracy Mingardi

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

O OLHAR DOS EDUCADORES SOBRE A PRESENÇA DA POLÍCIA NAS ESCOLAS: TENSÕES E POSSIBILIDADES DA PATRULHA ESCOLAR COMUNITÁRIA NO PARANÁ

Quando há presença da polícia na escola, deve estar fundamentada em princípios ético-políticos, necessitando haver uma formação especializada nas dimensões pedagógico-educacional-comunitárias, garantindo compromisso com os direitos humanos e respeitando-se a autonomia pedagógica. por Eliéser Antonio Durante Filho* e Maria de Fatima Quintal de Freitas*

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

O ALGORITMO DO ÓDIO: A COOPTAÇÃO DIGITAL E O EXTREMISMO VIOLENTO NAS ESCOLAS

A circulação de conteúdos violentos e ideologias extremistas na internet representa um grave risco para a segurança dos jovens e para a convivência social. por Zaryff Said de Lima e Cesar Mauricio de Abreu Mello

FRONTEIRAS AMAZÔNICA Há 6 dias

GEOMETRIAS DE PODER E TERRITORIALIDADES DO NARCOTRÁFICO NA AMAZÔNIA BRASILEIRA

As conexões entre narcotráfico e crimes ambientais fortaleceram a territorialização do crime organizado, expondo populações indígenas, quilombolas, camponesas e ribeirinhas à invasão de seus territórios e à violência. por Aiala Colares Oliveira Couto

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
24°
Tempo limpo
Mín. 23° Máx. 25°
24° Sensação
4.74 km/h Vento
78% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h55 Nascer do sol
17h24 Pôr do sol
Sábado
25° 24°
Domingo
25° 24°
Segunda
25° 24°
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,08 -0,05%
Euro
R$ 5,78 -0,02%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 351,374,49 +0,26%
Ibovespa
176,723,63 pts -0.46%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio