
Ao ler a matéria publicada pelo Sindpoc, intitulada “Policiais participam de ação de bem-estar e saúde mental em Salvador”, não há como negar o mérito da iniciativa.
O projeto “Polícia Cidadã” levou atendimento médico, psicológico e estético gratuito aos servidores do Complexo Policial 3D, em Itapuã.
A ação ofereceu desde serviços básicos, como aferição de pressão e testes de glicemia, até atendimentos mais complexos, como audiometria, assistência psicológica e eletrocardiograma — tudo pensado para aliviar, por um instante, a rotina pesada dos policiais civis.
Mas, diante de tanta boa vontade, surge uma questão inevitável: essa responsabilidade não seria do DEMEP — o Departamento de Saúde do Policial Civil?
Não caberia ao Estado garantir, de forma permanente, o acompanhamento da saúde física e mental de uma categoria que lida diariamente com riscos extremos, violência e tensão constante?
O que o sindicato apresenta como conquista voluntária talvez devesse ser, na verdade, uma cobrança firme ao governo por políticas estruturadas de cuidado e prevenção.
É louvável que o Sindpoc se mova diante da omissão estatal. Contudo, é preciso cuidado: essas ações não podem servir de cortina de fumaça para o descaso do governo.
A administração estadual, sob a bandeira do partido dos trabalhadores, trata servidores da segurança pública — policiais, professores, médicos e enfermeiros — como peças intercambiáveis de uma máquina.
Mas o policial é diferente. Ele carrega diariamente uma ferramenta letal, um instrumento capaz de tirar vidas.
Não é apenas um trabalhador: é alguém que, mesmo aposentado, jamais se desvincula da responsabilidade e do peso de portar uma arma.
Ainda assim, o Estado ignora essa condição e continua a negar direitos fundamentais como a paridade e a integralidade.
Enquanto o governo se acomoda em ações de aparência, o desgaste psicológico, o alcoolismo, a dependência de medicamentos e o adoecimento mental crescem silenciosamente dentro das delegacias.
Não se trata de luxo, mas de sobrevivência.
O problema é que, em meio às boas intenções, o Sindpoc parece ter esquecido seu verdadeiro papel.
A entidade que deveria estar na linha de frente das lutas salariais e estruturais limita-se a reproduzir o papel do próprio Estado: ameniza sintomas, mas não enfrenta causas.
Enquanto o governo trata a segurança pública com descaso, o sindicato se refugia em ações paliativas e midiáticas.
Hoje, a categoria vive momentos de apreensão e indignação.
A questão da PARIDADE e integralidade atormenta os que estão prestes a se aposentar, e a diferença de reajustes entre ativos e inativos — concedida no último acordo salarial — expõe o desprezo pelos aposentados.
Ainda assim, o silêncio do sindicato é ensurdecedor.
É bonito promover ações de saúde e bem-estar, mas é triste perceber que elas também servem para mascarar a inércia sindical.
Enquanto o Sindpoc comemora massagem e manicure, questões urgentes como a paridade, a integralidade e a defesa da categoria seguem esquecidas.
O que deveria ser luta virou festa — e, dentro da entidade de classe, até a simples filiação de um policial civil é tratada como um grande evento.
É louvável cuidar da saúde, mas é vergonhoso usar essas ações como cortina de fumaça para esconder a omissão.
Enquanto o governo se exime e o sindicato se distrai, os direitos da categoria continuam sendo corroídos.
No Sindpoc de hoje, tudo é motivo de comemoração — menos o que realmente importa.
E, nesse cenário, quem paga o preço é o policial, que segue sozinho, entre o descaso e o silêncio.
Autoria:
Crispiniano Daltro
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