
Um jornal que tem um ombudsman, deve ser celebrado. Não que aqueles que não tenham não mereçam respeito. Imprensa profissional é coisa séria e necessária à democracia. Pesquisado sobre o assunto, descobri que apenas a “Folha de S. Paulo” e “O Povo”, do Ceará, mantém a figura do ombudsman em seus quadros. Do jornal paulista, maior do país, colho informações sobre o cargo.
Na matéria “Ombudsman da Folha tem seu mandato renovado por mais um ano”, publicada em maio, leio que Alexandra Moraes é a 15ª profissional, 7ª mulher, a exercer a função criada em 1989. Consta que a palavra “ombudsman”, de origem sueca, significa “representante do cidadão” e que a imprensa adotou nos anos 1960 e o Brasil na década de 1980. Para exercer a função, Alexandra não pode ser demitida e ainda tem estabilidade de mais seis meses após deixar o cargo.
Acompanho a coluna da ombudsman com frequência. Na maioria das vezes concordo com suas posições, que considero assertivas e corajosas. Em novembro passado, Alexandra apontou enviesamento do jornal na coluna “E isso lá é jeito de falar sobe a reforma administrativa?”, dizendo da extemporaneidade de se trazer da reforma, enquanto o país pegava “fogo por outros motivos”.
Acertando em boa parte das vezes, Alexandra por vezes cede à tentação de “isentismo” do jornalismo brasileiro. No artigo “Leitora repete a pergunta: cadê a ‘extrema esquerda’ nos jornais”, alude a carta que indaga pela cobertura que estaria faltando de um evento na sede da APEOESP (sindicato dos professores do estado de São Paulo) em que o Partido da Causa Operária (PCO) celebra o aniversário dos atentados do Hamas. A leitora elogia a forma com que o jornal trata as ameaças da extrema direita à democracia e deseja o mesmo comportamento com a extrema esquerda, questionando se tal conduta não se devia ao fato de que esta é percebida como quase inexistente ou residual.
Na mesma coluna, um leitor pergunta sobre o porquê de só existirem artigos pró-Israel na seção Tendências e Debates. A questão é exatamente essa. A Folha não é isenta, A Tarde não é isento, eu e o leitor também não, portanto o único motivo para se condenar a APEOSP e o PCO, um partido minúsculo que não ameaça ninguém, é a parcialidade do jornal, ocupado em defender os seus interesses.
Desconhecer o genocídio contra os palestinos, cujo tratamento dado pelo jornalismo brasileiro sugere que seja efeito de uma guerra, é muito mais absurdo do que ignorar o PCO, que bizarramente celebra o atentado. O genocídio envergonha, mas permanece silenciado pela grande imprensa, que hesita e dar nome de terrorista ao Estado sionista que trabalha para exterminar um povo inteiro.
Insistir em justificar o morticínio pelo lamentável atentado que vitimou 1,2 mil pessoas em 7 de outubro de 2023, é falta de senso de proporção, algo que não faria mal a Folha, a ombudsman e a grande mídia do país.
*Carlos Zacarias de Sena Júnior, graduado em História pela Universidade Católica do Salvador (1993), mestre em História pela Universidade Federal da Bahia (1998) e doutor também em História pela Universidade Federal de Pernambuco (2007), Professor do Departamento de História da UFBA.Contato: zacasenajr@uol.com.br
Publicado no Jornal A Tarde, (Coluna do autor), edição de 17/10/2025.

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