Segunda, 08 de Junho de 2026
25°C 25°C
Salvador, BA
Publicidade

MÚLTIPLAS VOZES

A violência costuma ser legitimada socialmente pelos torcedores e cidadãos brasileiros quando comemoram o punitivismo contra os demais torcedores. por Nicolás Cabrera, Raquel Sousa, João Vitor Sudário, Paula Barreiro e Vitória Silva

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.295
05/10/2025 às 11h23
MÚLTIPLAS VOZES

A maioria dos torcedores latino-americanos que vêm ao Brasil acompanhando seus times ou seleções é recebida, principalmente, pelas forças de segurança locais, quase sempre da mesma maneira.

Segundo um levantamento feito a partir da cobertura midiática, o Observatório Social do Futebol registrou, entre 2023 e 2025, oito partidas com a ocorrência de confrontos entre forças de segurança e torcedores, sendo sete envolvendo clubes e uma em jogo entre seleções. Destacamos a final da Copa Libertadores de 2023, disputada por Fluminense e Boca Juniors, o jogo das eliminatórias da Copa do Mundo entre Brasil e Argentina e a semifinal de Libertadores entre Botafogo e Peñarol, no ano passado. Sabemos que há mais casos, pois nem toda a violência que ocorre em uma partida de futebol vira manchete de jornal.

Dentre os motivos que explicam a recorrência do fenômeno, é importante observar as ações das forças de segurança brasileiras e as diferentes reações que desencadeiam na opinião pública local e estrangeira. A tônica do debate se coloca a partir do uso exacerbado da repressão como característica brasileira.

É preciso pensar a repressão como a última opção. Antes da “cacetada” existem a inteligência e a prevenção. O emprego da força deve ser a etapa final do protocolo de atuação em eventos. No Brasil, parece ser a primeira.

Esse fato provoca reações distintas na opinião pública local e internacional. No Brasil, não parece despertar muitas críticas. O motivo dessa tolerância mereceria uma pesquisa mais profunda e um texto mais robusto. Por enquanto, podemos levantar algumas hipóteses. Uma delas é reconhecer que existe no Brasil uma tradição policial que naturaliza uma repressão que já se tornou costume, visto que estamos falando de uma das forças de segurança mais violentas e letais do mundo.

A violência também é legitimada socialmente pelos torcedores e cidadãos brasileiros ao comemorarem o punitivismo contra os demais torcedores. Podemos observar os argumentos em três pontos: o orgulho da reputação violenta da polícia, a ideia do revanchismo por aqueles que viajam para fora do país e a associação dos torcedores estrangeiros com o racismo e a perturbação da ordem social.

Sabemos que os episódios de racismo contra os torcedores brasileiros não são novidade, visto que em diferentes jogos internacionais torcedores estrangeiros imitam macacos e publicam comentários racistas em redes sociais. Aquilo que pode parecer provocação “normal” para alguns, devido à falta de falta de amplo debate, consciência racial e tipificação penal, é, para a maioria dos brasileiros, um crime extremamente ofensivo. Como reação e em consequência, brasileiros e brasileiras praticam violências como justificativas antirracistas.

Dois problemas surgem aqui: primeiro, responder à violência com mais violência acelera uma espiral incontrolável; segundo, é muito perigoso estigmatizar uma nação inteira sem distinção. Se todo estrangeiro é tratado como racista, o legítimo antirracismo brasileiro resvala para uma perigosa xenofobia. O resultado é que todos se sentem vítimas, ninguém assume a própria violência e cada um legitima a sua própria agressão.

Outro ponto a considerar é o papel da mídia. Seja no Brasil, na Argentina ou no Uruguai, a mídia tradicional e as contas de redes sociais especializadas nesse tipo de cobertura produzem e reproduzem uma visão tendenciosa. Dizem o que seu público quer ouvir: que o violento é sempre o outro. A imprensa brasileira só destaca argentinos racistas; a imprensa argentina ou uruguaia só exibe a violência policial brasileira. Nenhuma delas mente, mas ambas são incompletas, levando a interpretações tão tendenciosas quanto reconfortantes para quem as consome. Podemos destacar, na imprensa brasileira, como a responsabilidade pelos atos violentos é atribuída às torcidas, enquanto a repressão policial é retratada como uma intervenção necessária. Com construções de texto que empregam “precisou intervir” e “conter”, os veículos de comunicação legitimam a violência policial, embora citem o uso de gás de pimenta, cassetetes e balas de borracha. Nesse contexto, a ação policial é naturalizada, além de retratada como desejável e necessária.

Até aqui foram abordadas as ações dos atores que possuem mais destaque na perpetuação das violências nesse campo. Todavia, há personagens invisibilizados que devem ser responsabilizados: os organizadores (CONMEBOL, CBF e federações), que por vezes alteram as regras de acesso, permitindo ou não que bandeiras sejam introduzidas no interior dos estádios, por exemplo, o que afeta o esquema de seguridade; os clubes, legalmente responsáveis pela segurança, que não agem com transparência; os torcedores; e o Estado, que continua sem implementar políticas públicas de prevenção e mediação de conflitos, atuando de modo reativo, permanecendo incapaz de alterar esse cenário a médio e longo prazo.

Para concluirmos, é importante encararmos a situação com a devida responsabilidade que ela merece, visto que grande parte dos conflitos são tanto previsíveis quanto evitáveis. Do contrário, continuaremos a lamentar os infortúnios indesejáveis que tensionam a violência policial, torcedores e os discursos midiáticos.

(*) Nicolás Cabrera - Doutor em Antropologia e Professor Substituto na UFRJ e pesquisador do Observatório Social do Futebol.

(*) Raquel Sousa - Doutoranda em Ciências Sociais na UERJ e pesquisadora do Observatório Social do Futebol.

(*) João Vitor Sudário - Mestrando em Geografia na UFF e pesquisador do Observatório Social do Futebol.

(*) Paula Barreiro - Graduanda em Ciências Sociais na UERJ e pesquisadora do Observatório Social do Futebol.

(*) Vitória Silva - Graduanda em Ciências Sociais na UERJ e pesquisadora do Observatório Social do Futebol.

https://fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.295

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE, assim você estará apoiando o jornalismo independente.!*

*INSCREVA-SE* no Canal do YouTube do PÁGINA DE POLÍCIA - @tvpaginadepolicia  

Clique no *"GOSTEI"* e COMPARTILHE...:

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

FAMÍLIA E PRISÃO: presença inconteste e repercussões invisibilizadas

O conceito da prisionização secundária envolve os impactos da prisão sofridos pelas famílias, que sofrem repercussões ligadas às rotinas das unidades prisionais e ao campo jurídico-penal. Há também desdobramentos econômicos decorrentes do endividamento, consequências no mundo do trabalho e em aspectos das relações sociofamiliares. por Maria Palma Wolff

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

A infraestrutura invisível da vigilância no Brasil (Parte 3): monitoramento político, dissenso e os riscos democráticos da vigilância integrada.

Infraestruturas de vigilância construídas sob governos democráticos podem permanecer disponíveis para usos autoritários futuros. por Rodrigo Firmino, André Pecini e Thallita Lima

ATLAS DA VIOLÊNCIA Há 13 horas

DADOS DO ATLAS DA VIOLÊNCIA DE 2026 EVIDENCIAM AS DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA CONTRA AS MULHERES NO BRASIL

São destaques da publicação os altos índices de letalidade de mulheres negras, a persistência da residência como principal lócus da violência, assim como os índices de reincidência e os tipos de violência que mais afetam as mulheres em cada ciclo da vida. Por Beatriz Schroeder e Deise Nunes

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

PRESENÇA QUE PROTEGE E APROXIMA: O Impacto da Base Fluvial Arpão na Cidadania e Segurança das Comunidades do Solimões.

Desde sua implementação, as ações articuladas na Base Arpão I resultaram na apreensão de toneladas de entorpecentes, como cocaína e maconha do tipo skunk, além de armas, munições e combustíveis ilegais, gerando um prejuízo financeiro direto ao crime organizado estimado em mais de R$ 100 milhões. por Aldo Ramos da Silva Jr. e César Maurício de Abreu Mello

MÚLTIPLAS VOZES Há 13 horas

Da Cooperação Policial ao Unilateralismo Coercitivo: As Implicações da Designação do PCC e do CV como Organizações Terroristas Estrangeiras pelos EUA

Longe de constituir uma política criminal eficiente, a medida delineia-se como um instrumento de coerção geopolítica, capaz de desestabilizar as relações diplomáticas e institucionais entre as duas maiores democracias do continente. por Roberto Uchôa

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
25°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 25°
25° Sensação
6.1 km/h Vento
72% Umidade
0% (0mm) Chance chuva
05h51 Nascer do sol
17h14 Pôr do sol
Terça
25° 24°
Quarta
25° 24°
Quinta
26° 25°
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,19 -0,02%
Euro
R$ 5,99 -0,06%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 345,391,21 -1,54%
Ibovespa
168,668,72 pts -0.21%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio