
Em 26 de junho de 1968, o Rio de Janeiro foi cenário de uma das maiores manifestações populares da história do Brasil: a Passeata dos Cem Mil. Organizada por estudantes, mas amplamente apoiada por artistas, intelectuais, religiosos e trabalhadores de diversas categorias, a passeata se constituiu como um contundente protesto contra a repressão do regime militar instalado em 1964. O estopim imediato do ato foi o assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto, alvejado pela polícia no restaurante estudantil Calabouço, mas o clamor nas ruas refletia um acúmulo de insatisfações com a censura, a violência institucional, a falta de liberdades civis e o cerceamento da vida democrática.

A presença de figuras centrais da música popular brasileira como João da Baiana, Clementina de Jesus, Pixinguinha e Donga conferiu à passeata uma dimensão ainda mais simbólica. Eram artistas que, para além de seus talentos artísticos, representavam a ancestralidade afro-brasileira, a luta por reconhecimento cultural e a afirmação de uma identidade musical construída nas rodas de samba, nos terreiros e nas comunidades populares. Ao se somarem à multidão nas ruas, esses nomes lendários levaram consigo a herança de um povo historicamente silenciado — e a transformaram em resistência.
João da Baiana, herdeiro direto das tradições do samba primitivo do início do século XX, ao lado de Donga e Pixinguinha — este último, gênio do choro e da música instrumental brasileira —, simbolizavam uma trajetória de enfrentamento ao preconceito, à marginalização cultural e à perseguição política que já marcava a história da música popular. Clementina de Jesus, com sua voz ancestral, evocava as cantigas de trabalho, os lamentos dos cativos e os cânticos dos quilombos. Sua participação na passeata carregava o peso da memória coletiva de um Brasil profundo que resistia à opressão desde os tempos coloniais.

A presença desses artistas na Passeata dos Cem Mil foi mais do que um ato político: foi um gesto de coragem, de afirmação cultural e de posicionamento histórico. Ao caminharem entre cartazes, faixas e gritos de ordem, mostraram que a cultura não se cala, que o samba também protesta e que a arte tem lado — o lado do povo, da democracia e da liberdade.
A Passeata dos Cem Mil não foi apenas um marco da luta contra a ditadura militar, mas também um momento de encontro entre política e cultura, entre luta institucional e expressão popular. A participação de João da Baiana, Clementina de Jesus, Pixinguinha e Donga revela o quanto a arte brasileira esteve comprometida com as causas sociais e democráticas, mesmo em tempos de censura e perseguição. Ao trazerem seus corpos, suas vozes e suas histórias para as ruas, esses mestres do samba e da música popular brasileira reafirmaram que a cultura é uma poderosa ferramenta de resistência. O legado desse ato permanece vivo como exemplo de que, em tempos sombrios, é na união entre o povo e seus artistas que renasce a esperança.
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