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“MAIOR ECONOMIA DO PAÍS, PIOR SALÁRIO: A crônica desvalorização dos Policiais Civis em São Paulo e Bahia”

RETRATO CRUEL... Enquanto São Paulo responde por 1/3 do PIB brasileiro, salários da Segurança Pública estão entre os mais baixos do país; Bahia, 7ª economia, repete cenário de abandono e desmotivação profissional.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: por CARLOS NASCIMENTO
21/05/2025 às 12h16 Atualizada em 21/05/2025 às 12h53
“MAIOR ECONOMIA DO PAÍS, PIOR SALÁRIO: A crônica desvalorização dos Policiais Civis em São Paulo e Bahia”

A CONTRADIÇÃO DE SÃO PAULO: Riqueza Estadual x Miséria Salarial

São Paulo não é apenas o estado mais rico do Brasil – é um gigante econômico cujo Produto Interno Bruto (PIB) supera R$ 3 trilhões, equivalente ao de países como Argentina ou Portugal. Sozinho, responde por 33% da economia nacional e concentra os principais centros financeiros, industriais e logísticos do país. No entanto, quando o assunto é a remuneração dos profissionais que garantem a segurança pública, o estado fica na lanterna, ocupando a 2ª pior posição no ranking salarial dos policiais civis, atrás apenas da Bahia.

Um estudo recente, citado pelo G1 (19/05/2025), revela que um Delegado da Polícia Civil em São Paulo recebe, em média, um salário inicial abaixo de R$ 10 mil – valor considerado insuficiente diante do alto custo de vida no estado e dos riscos inerentes à profissão.

 Enquanto isso, agentes e escrivães sobrevivem com salários de miséria, em um cenário de abandono e desigualdade gritante. Enquanto delegados já enfrentam remuneração insuficiente, as demais carreiras da Polícia Civil recebem vencimentos que beiram o absurdo - com diferenças salariais abissais que chegam a 300% ou mais entre as funções. Essa distorção histórica transforma a hierarquia policial em um verdadeiro apartheid salarial, onde a base da pirâmide trabalha em condições análogas ao subemprego, mesmo exercendo funções essenciais para a segurança pública.

BAHIA: O Pior Cenário Nacional

Se São Paulo está mal, a Bahia está pior. O estado, que ocupa a 7ª posição no ranking econômico brasileiro, com um PIB de R$ 402 bilhões (4% do PIB nacional), é o campeão em remuneração precária para Policiais Civis, segundo o portal delegados.com.br. Propostas de reajuste anunciadas pelo governo baiano foram recebidas com frustração: um suposto aumento, divulgado após meses de impasse, foi classificado como "tabela depressiva" por sindicalistas (Página de Polícia), pois não repõe sequer a inflação acumulada nos últimos anos.

SINDICATOS EM CRISE E A REVOLTA DA CATEGORIA

A insatisfação não se limita aos salários. Na Bahia, o Sindicato dos Policiais Civis (SINDPOC) enfrenta duras críticas de suas bases, acusado de negociar acordos sem transparência e de não pressionar o governo por reajustes dignos. Um artigo publicado no Página de Polícia chegou a chamar a entidade de "Sindicato da Desgraça", em referência à falta de resultados concretos.

Na Bahia, a situação não é diferente. Apesar de anúncios esporádicos de reajustes – como o feito pelo governador Jerônimo Rodrigues após meses de impasse –, os valores são considerados simbólicos e insuficientes. Além disso, a atuação dos sindicatos é questionada, com muitos policiais acusando as lideranças de "acordos de gabinete" que não refletem as reais necessidades da categoria.

A Polícia Civil como Trampolim: Fuga de talentos e o efeito Dominó na Segurança Pública

Desmotivação, Êxodo e Insegurança

Hoje, a Polícia Civil se transformou em mero trampolim para outras carreiras. Os novos Investigadores, Escrivães e Peritos Técnicos já ingressam na instituição de olho em concursos melhores – um fenômeno que revela o descrédito total da carreira.

Enquanto se preparam para provas da Polícia Federal, Receita Federal ou cargos do Judiciário, acumulam experiência às custas de um estado que não os valoriza. O resultado? Uma instituição que forma talentos apenas para perdê-los, perpetuando um ciclo de descontinuidade e desprofissionalização.

Outros recorrem a bicos e jornadas extras para complementar a renda, o que pode comprometer o desempenho no trabalho policial.

A desvalorização salarial tem efeitos catastróficos em cadeia:

1. Êxodo de Experiência - Investigadores veteranos, após anos de dedicação, abandonam a corporação ao perceber que motoristas de aplicativo ou vigilantes privados podem ganhar mais. A fuga de cérebros compromete operações complexas e apuração de crimes.

2. Dupla Jornada da Miséria - Aqueles que permanecem recorrem a bicos humilhantes: segurança em festas, Uber, vendas online. A exaustão física e mental se reflete em investigações negligentes, processos travados e revolta crescente.

3. Crise de Identidade Institucional - Quando a própria polícia não consegue reter seus melhores elementos, a mensagem para a sociedade é clara: a segurança pública virou terra de ninguém.

Enquanto isso, o fosso salarial entre delegados e demais categorias aprofunda o mal-estar interno. Como exigir hierarquia e disciplina quando a diferença de remuneração chega a mais de 300%, mesmo entre profissionais que dividem os mesmos riscos? A conta dessa rotatividade desenfreada quem paga é a população, condenada a um serviço policial desestruturado, onde investigações são engavetadas por falta de continuidade e o crime se fortalece na desordem institucional.

O preço da negligência salarial já está sendo cobrado – em vidas, em impunidade, em caos social. O que falta é vontade política para reverter essa equação perversa antes que o colapso seja irreversível.

Para piorar, a falta de investimento em equipamentos, treinamento e condições de trabalho agrava o cenário. O resultado é um círculo vicioso: salários baixos levam à desmotivação, que por sua vez impacta a eficiência das investigações e do policiamento, gerando mais violência e impunidade.

"Combo 2 em 1"

Na Bahia, a situação já crítica pode atingir um novo patamar de desrespeito: o governo está prestes a criar o cargo de OIP (Oficial Investigador de Polícia), uma fusão das funções do cargo de  Escrivão e Investigador, com dupla carga de atribuições – mas mantendo o mesmo salário miserável. Ou seja, o Estado pretende pagar por um profissional e explorar dois, em um verdadeiro "combo 2 em 1" que só beneficia o governo, não a segurança pública.

Enquanto isso, a administração estadual se gaba de inaugurar novas unidades policiais pelo interior, enchendo o estado de prédios vazios e discursos vazios, sem qualquer plano para valorizar os profissionais que deveriam ocupá-los. Fica a pergunta: de que adiantam delegacias modernas se não há policiais motivados, capacitados ou sequer remunerados dignamente para trabalhar nelas?

A conta dessa política de enganação, mais uma vez, será paga pela população.

Até Quando?

A situação dos Policiais Civis em São Paulo e Bahia é um retrato cruel da desvalorização histórica da segurança pública no Brasil. Estados com economias fortes, capazes de investir em infraestrutura e desenvolvimento, falham em garantir condições dignas para aqueles que protegem a população.

Enquanto governos alegam restrições orçamentárias, os profissionais da Segurança seguem subremunerados e esquecidos. Se nada mudar, a conta será paga não apenas pelos policiais, mas por toda a sociedade, que sofre com um serviço público fragilizado e uma segurança cada vez mais ineficiente.

Fontes:

·       G1 (19/05/2025) – "Delegados da Polícia Civil em SP têm a 2ª pior remuneração do país"

·       Delegados.com.br – "SP e Bahia brigam pelo título de pior salário de delegado do Brasil"

·       Página de Polícia – Críticas aos reajustes e sindicatos (Notícia 89378Notícia 88923Notícia 88729)

 

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CARLOS NASCIMENTO
CARLOS NASCIMENTO
Funcionário público aposentado Editor da Revista Página de Polícia e responsável pelos Sites: paginadepolicia.com.br, tokdemia.com.br, oservidor.com e Colunista do blog politicafc.com.br.
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