
Em recente participação no programa "De Cara com o Líder", da rádio Baiana FM, o presidente do Sindicato dos Policiais Civis da Bahia (Sindpoc), apresentou um discurso que, ao invés de refletir a independência e o senso crítico esperados de um representante sindical, aproximou-se demasiadamente da retórica institucional da cúpula da Polícia Civil da Bahia.
A entrevista, conduzida pelo vice-governador Geraldo Júnior, contou ainda com a presença de integrantes da alta gestão da Polícia Civil, o que, por si só, já compromete a isenção do debate.
Lopes reforçou a adoção dos "três Is" — investimento, integração e inteligência — como pilares do combate à criminalidade, ecoando, sem questionamentos, a política de segurança pública em curso no estado. Seu discurso, longe de apresentar demandas da categoria ou críticas estruturais, concentrou-se em exaltar ações da cúpula da Polícia Civil, como a atuação do delegado-geral André Viana e do assessor e presidente da ADPEB/Sindicato Jorge Figueiredo, em ações ostensivas contra o crime organizado.
O "sindicalista" também deixou de abordar temas sensíveis como as condições de trabalho dos policiais civis, o déficit de efetivo, os riscos à saúde mental dos profissionais ou as distorções salariais — pautas legítimas e urgentes que, tradicionalmente, cabem à entidade sindical representar. Ao silenciar sobre essas questões e adotar uma postura alinhada à gestão estadual, Lopes se distancia da missão crítica e autônoma que deveria nortear sua função.
Dessa forma, sua fala reforça a percepção de que o presidente do Sindpoc se comporta menos como um defensor dos interesses dos policiais civis e mais como um porta-voz informal da Polícia Civil da Bahia, comprometendo a credibilidade e a independência da entidade sindical que representa.
Em vez de apenas reproduzir o discurso oficial da cúpula da Segurança Pública, o presidente do Sindpoc deveria incorporar os “três Is” como fundamentos de uma gestão sindical proativa e comprometida com a base.
Investimento precisa significar, acima de tudo, a valorização dos policiais civis, com melhores salários, condições de trabalho dignas e garantias de saúde física e mental.
Integração deve ser compreendida como o fortalecimento do diálogo entre sindicato e categoria, além da articulação institucional com os poderes Legislativo e Executivo, sempre em defesa dos direitos dos servidores.
Por fim, inteligência é agir com autonomia crítica, analisando os impactos das políticas públicas sobre os trabalhadores da segurança, propondo alternativas e enfrentando, quando necessário, a gestão que negligencia as necessidades da base.
Ao não assumir esse papel, o atual presidente do Sindpoc distancia-se da função de representante legítimo dos policiais civis, atuando mais como um agente de comunicação institucional do Estado do que como liderança sindical independente.
