Sexta, 23 de Outubro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Cartas de alforria

Casal que escravizou uma mulher por 30 anos, submetendo-a a trabalho análogo à escravidão, é condenado a pagar pouco mais de R$ 7 mil. O quanto realmente vale a dignidade humana?

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.267
01/03/2025 às 22h50
Cartas de alforria

Embora ainda não tenhamos chegado a um bom acordo, como sociedade, sobre o que o dinheiro pode comprar, nosso Judiciário segue arbitrando rubricas que nos fazem refletir o quanto realmente vale a dignidade humana.

É de outro tempo e de outro registro normativo, a época em que existia como possibilidade jurídica no direito brasileiro a compra da liberdade, pelo instituto das cartas de alforria. Geralmente, os escravizados, ao comprar sua alforria, tinham que observar, além do pagamento, algumas condições. Na prática, isso significava que os escravizados alforriados se tornavam uma espécie de servos de seus antigos senhores, devendo favores, taxas e até serviços, enquanto o senhor permanecesse vivo. Ou seja, a liberdade comprada “à vista” só era entregue após a morte do senhor.

Em 2025, o caso verídico é de um casal,  que, na capital paulista, escravizou uma mulher por 30 anos, submetendo-a a trabalho análogo à escravidão, tanto no estabelecimento comercial de que são donos, como também na própria residência. Na lei brasileira em vigor desde 2003, é o Código Penal que prevê essa conduta como crime, no artigo 149.

A jornada exaustiva e as condições degradantes comprovadas não foram suficientes para a condenação em primeiro grau. Os cerca de 20 anos que transcorreram entre o início dos trabalhos forçados e a primeira denúncia foram entendidos pela magistrada federal como uma demora injustificada e isso esteve entre os pontos que embasaram a absolvição.

Após o recurso do Ministério Público Federal, o casal foi condenado. Os desembargadores do TRF3 chegaram à pena total de dois anos de reclusão em regime aberto e dez dias-multa, que é substituível por quatro salários-mínimos – dois para cada condenado – e prestação de serviços à comunidade. Em valores atualizados, estamos falando, na prática, de pouco mais de R$ 7 mil – a serem desembolsados pelo casal – como resposta jurídica a uma vida vivida na condição de escravização.

Embora o campo imagético que remete à justiça seja simbolizado pelo equilíbrio e pela imparcialidade, as desproporções no Judiciário são consistentes. É também deste ano declaração pública na imprensa de um desembargador estadual que, com vencimento médio de R$ 78 mil reais por mês, considera ter vida modesta, que chega a ser quase, como ele mesmo definiu, como a de um monge.

Difícil é justificar, tendo a dignidade humana como um valor que, juridicamente, um mês de trabalho forçado possa equivaler a pouco mais de R$ 19, enquanto que o mesmo período de trabalho de um juiz seja sinônimo de um carro popular. E para que a meritocracia, sempre tão festejada como explicação, não seja aqui também mobilizada, é salutar lembrarmos a operabilidade do racismo como interdito estrutural, que eficaz e paulatinamente afasta quaisquer possibilidades de mobilidade social.

Guarida jurídica para concessão de cartas de alforria já não há, pelo menos desde a abolição formal da escravatura, no século XIX. Contudo, não superamos nosso passado escravista. Além disso, retrocedemos no tempo e nas conquistas, quando o sistema de justiça esvazia o sentido de toda uma construção em prol de uma efetiva garantia dos direitos humanos, ao insistir em hierarquizar dignidades.

Juliana Brandão - Pesquisadora Sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.267

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Quem protege também precisa ser cuidado

Pesquisa identifica sinais relevantes de sofrimento psíquico e reforça a necessidade de prevenção e cuidado institucional permanente. por Luana Maria Lima Alves, Silvia dos Santos de Almeida e Alethea Maria Carolina Sales Bernardo

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Menos registros, mais perguntas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes

A queda inédita nos registros de estupro de vulnerável em 2025 suscita a questão: estamos diante de uma redução efetiva da violência ou de uma mudança na capacidade de identificá-la e denunciá-la?. por Luciana Temer*

MÚLTIPLAS VOZES Há 6 dias

Material de abuso sexual infantil: novas dinâmicas da violência no ambiente digital

A violência sexual contra crianças e adolescentes ganha novas dimensões no ambiente digital. Os microdados revelam a predominância de meninas entre as vítimas e a expressiva presença de adolescentes entre os autores. por Cauê Martins*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Ladrões do Centro paulistano

Pesquisa exploratória sobre determinados crimes no centro da capital paulista identificou alguns padrões de comportamento de ladrões, traficantes e receptadores de bens roubados na área. por Guaracy Minga

Desaparecidas Há 2 semanas

O aumento dos desaparecimentos e a urgência de respostas institucionais mais adequadas

O desaparecimento de pessoas continua sendo fenômeno de difícil compreensão, atravessado por diferentes causas e trajetórias. Enquanto os registros crescem, persistem lacunas na produção de informações, na articulação entre instituições e em uma legislação que ainda não contempla adequadamente essa diversidade. por Deise Nunes*

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 27°
29° Sensação
13.61 km/h Vento
75% Umidade
100% (2.55mm) Chance chuva
05h04 Nascer do sol
17h32 Pôr do sol
Sábado
27° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 24°
Terça
27° 26°
Quarta
27° 26°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL NA BAHIA

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM PERNAMBUCO

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM SERGIPE

```
Economia
Dólar
R$ 5,05 +0,07%
Euro
R$ 5,67 +0,11%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 436,716,31 +0,11%
Ibovespa
204,120,13 pts -1.15%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio