
Antônio Cícero: Vida e obra do Poeta que deu voz ao Sentimento Brasileiro. Intelectual, poeta e letrista, Cícero irmão da cantora Marina Lima, se despede deixando um legado de sensibilidade e reflexão.
Antônio Cícero Correia Lima, renomado poeta, letrista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, marcou a cultura brasileira com sua profunda sensibilidade e habilidade única de transformar sentimentos em palavras. Nascido no Rio de Janeiro em 1945, Cícero desenvolveu um vínculo artístico e pessoal especial com a irmã, a cantora Marina Lima, para quem escreveu diversos sucessos, como “À Francesa”, “Fullgás” e “Pra Começar”. A dupla é amplamente reconhecida pela criação de letras que capturam o espírito e as inquietações de uma geração.
Além da parceria com Marina, Cícero colaborou com outros grandes nomes da música brasileira, como Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso e Lulu Santos. Seu trabalho se destacou por versos sofisticados, filosóficos e, ao mesmo tempo, acessíveis. Além de letrista, Antônio Cícero se consolidou como um intelectual de relevância, refletindo sobre a cultura e a poesia com profundidade em obras como “Finalidades sem fim” e “Guardar – Poemas Escolhidos”. Em 2017, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de número 27, reconhecimento máximo de sua contribuição à literatura e à cultura brasileiras.
Cícero enfrentou uma longa e árdua batalha contra uma doença degenerativa que comprometia sua qualidade de vida, levando-o a tomar a difícil decisão de recorrer à morte assistida na Suíça. Em seus últimos dias, demonstrou a mesma serenidade e clareza que caracterizaram sua vida e obra, deixando uma carta de despedida que ecoa a delicadeza e profundidade de seu pensamento.
Leia a íntegra da carta de Antonio Cicero
“Queridos amigos,
Encontro-me na Suíça, prestes a praticar eutanásia. O que ocorre é que minha vida se tornou insuportável. Estou sofrendo de Alzheimer.
Assim, não me lembro sequer de algumas coisas que ocorreram não apenas no passado remoto, mas mesmo de coisas que ocorreram ontem.
Exceto os amigos mais íntimos, como vocês, não mais reconheço muitas pessoas que encontro na rua e com as quais já convivi. Não consigo mais escrever bons poemas nem bons ensaios de filosofia.
Não consigo me concentrar nem mesmo para ler, que era a coisa de que eu mais gostava no mundo.
Apesar de tudo isso, ainda estou lúcido bastante para reconhecer minha terrível situação.
A convivência com vocês, meus amigos, era uma das coisas — senão a coisa — mais importante da minha vida. Hoje, do jeito em que me encontro, fico até com vergonha de reencontrá-los.
Pois bem, como sou ateu desde a adolescência, tenho consciência de que quem decide se minha vida vale a pena ou não sou eu mesmo. Espero ter vivido com dignidade e espero morrer com dignidade.
Eu os amo muito e lhes envio muitos beijos e abraços!”
A obra de Antônio Cícero permanece como um tesouro da poesia e da música brasileira, uma herança de versos que desafiam e encantam. Em sua despedida, ele reafirma a importância de viver com plenitude e propósito, deixando-nos a mensagem de que, mesmo diante da dor, é possível encontrar paz. Seu legado literário e musical continua vivo, tocando profundamente aqueles que buscam significado na beleza da palavra e na reflexão poética.
A escrita de poesia caminhou junto com a atividade docente como professor universitário no Rio de Janeiro. A poesia de Antonio Cicero tornou-se conhecida quando, no final dos anos 1970, sua irmã Marina gravou em disco duas letras escritas em parceria com Cícero: “Fullgás” e “Para começar”, mais uma letra escrita com Claudio Zoli, “À francesa”.
Cicero seguiria parceiro da irmã Marina ao longo de toda carreira da compositora, mas também escreveu letras com Waly Salomão, João Bosco, Orlando Morais, Adriana Calcanhotto e Lulu Santos (co-autor, junto com Antonio Cicero e Sérgio Souza, do hit “O último romântico”, de 1984).
Com o também poeta Waly Salomão (1943–2003), organizou o projeto Banco Nacional de Ideias, ciclo de palestras com artistas e intelectuais de vários campos do conhecimento como João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, Bento Prado Júnior, Darcy Ribeiro, Derek Walcott, Tzvetan Todorov e Caetano Veloso entre 1993 e 1995.
Foi autor de livros de ensaios como “O mundo desde o fim” (1995), “Finalidades sem fim” (2005) e “Poesia e filosofia” (2012). Sua obra poética está reunida em quatro volumes: “Guardar” (1996), “A cidade e os livros” (2002), “Livro de sombras: pintura, cinema e poesia (com o artista plástico Luciano Figueiredo) (2010), “Porventura” (2012).
Antônio Cícero e Celso Fonseca | Podcast Palavra de Autor
Antonio Cicero e 10 livros fundamentais na sua formação
Antônio Cicero e Marina Lima - Unimúsica 2017
ANTONIO CICERO declama "Guardar"




