Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

O QUE OS NÚMEROS DIZEM PARA AS POLÍCIAS?

As corporações deveriam levar em consideração os registros da criminalidade para elaborar estratégias e ações fundamentadas em evidências. Com isso, formas de policiamento e investimentos decorreriam não de convicções e modismos, mas de acompanhamento das dinâmicas criminais.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/
12/08/2022 às 20h46
O QUE OS NÚMEROS DIZEM PARA AS POLÍCIAS?

As polícias são repositórios de dados sobre a criminalidade oriundos das quantidades de crimes noticiados, prisões efetuadas, drogas apreendidas, operações realizadas, pessoas violentadas, automóveis roubados etc. Portanto, há nas corporações uma imagem da criminalidade que é visualizada pelo conjunto dos boletins de ocorrência. Essa imagem pode não significar a realidade da criminalidade, pois podem sofrer vieses das próprias atuações policiais. Ademais, talvez os dados das corporações careçam de certos requisitos, como confiabilidade e validade. Entretanto, é desse emaranhado de dados que se conhece parte dos números da criminalidade. Assim, apesar de as polícias não serem órgãos de estatísticas, elas lidam com números. O que tais números dizem para essas organizações?

Os números das violências registrados em polícias são evidências e indicam parte das dinâmicas criminais; sobretudo as notícias apresentadas voluntariamente pelos cidadãos. Por exemplo, no Distrito Federal, no segundo trimestre de 2022 foram registradas 112.332 ocorrências e 5.830 denúncias anônimas. Nesses casos, ampla maioria dos registros se deu pela manifestação dos cidadãos que procuraram as unidades policiais para expor possíveis crimes e outras violências. Esses números, portanto, explanam as dimensões e vicissitudes do trabalho policial na Capital Federal.

Nesse sentido, é oportuno analisar mudanças nos crimes patrimoniais. Em âmbito nacional, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2022), demonstrou que os crimes contra o patrimônio têm passado por transformações. Assim, em 2014 foram notificados 513.023 casos de roubos e furtos de veículos; em 2021 passou para 334.643 casos, ou seja, redução de 35%. Por outro lado, estelionatos passaram de 446.799 registros, em 2018, para 1.265.073 registros, em 2021, o que representa alta de 183%. Nesse recorte, verifica-se que os crimes patrimoniais mais violentos caíram, enquanto crimes de fraudes e golpes aumentaram consideravelmente.

No Distrito Federal, comportamento análogo tem se observado. Ora, de 2018 para 2021, os estelionatos aumentaram 192%, sendo que os especificamente realizados pela internet tiveram salto de 468%. Por sua vez, os típicos crimes contra o patrimônio realizados com violência apresentaram queda. Por exemplo, o roubo a transeunte, no mesmo período, caiu em 49%. Parte dessas variações é efeito da pandemia covid-19, com as medidas de isolamento social; mas, além disso, pode indicar novas tendências nas dinâmicas criminais.

Ainda no caso do Distrito Federal, entre os meses de março e dezembro de 2020, a média mensal de roubos a transeunte foi de 1.500 casos, bem aquém de 2019, que apresentava 2.400 casos por mês. Parte da explicação dessa redução foi atribuída às medidas de isolamento social da pandemia da covid-19. Diante disso, a expectativa é que esses números aumentassem após as restrições de circulação da pandemia; mas eles indicam estabilidade e queda. Ora, a partir de 2021 a média mensal de registros tem ficado em 1.400 eventos, inclusive abaixo dos valores de 2020. No geral, entre 2020 e 2021 houve redução de 20% dos roubos a transeuntes. No primeiro semestre de 2022, não houve alta de roubos a transeuntes em relação ao mesmo período de 2021; além do que, observa-se queda de 50% desses roubos, em comparação com 2018. Situação análoga se verifica nos roubos de veículos, comércio e residência.

Esses números dizem para as polícias que as dinâmicas de crimes contra o patrimônio modificaram-se no período crítico da pandemia da covid-19, o que exige novas formas de policiamento. Destaca-se que crimes patrimoniais, como furtos e roubos, podem ser evitados com policiamento ostensivo por meio de rondas direcionadas aos locais e horários mais frequentes da criminalidade. Não obstante, para os estelionatos essa atividade policial praticamente não se aplica. Ademais, para o enfrentamento dos furtos e roubos as corporações apostavam em armamentos, viaturas, contratações de policiais; mas para os estelionatos essas estratégias são pouco efetivas. Com efeito, os números da criminalidade sugerem que as polícias precisam repensar suas formas de atuações.

Com o avanço do crime patrimonial no ciberespaço, como pode se observar no estelionato, as polícias deveriam investir em tecnologias, qualificação dos profissionais, cooperações com instituições dos setores do comércio e bancário. Sem deixar de mão o policiamento preventivo capaz de dissuadir ações criminais nas ruas, as corporações deveriam priorizar estratégias de rondas virtuais e recursos investigativos para melhor identificação das práticas criminais de estelionato. Nesse último caso, provavelmente o aparato policial vai precisar de menos armas e viaturas; e, por outro lado, de mais qualificação profissional e soluções tecnológicas.

Portanto, os números da criminalidade têm muito a dizer para as polícias e gestores da segurança pública. Contudo, as corporações deveriam tomar cuidado para não se guiarem exclusivamente pelas sazonalidades dos crimes; assim, por exemplo, agora direcionando todos seus esforços para o enfrentamento dos estelionatos. Elas deveriam ter os números da criminalidade para realizarem estratégias e ações fundamentadas em evidências. Com isso, formas de policiamento e investimentos nas corporações surgiriam não por convicções e modismos, mas pela evidência de que os números apontam como se processam as dinâmicas criminais.

ALEXANDRE PEREIRA DA ROCHA - Doutor em Ciências Sociais (UnB); membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Colunismo de intriga Há 2 semanas

2026 será o ano dos ataques aos parentes dos inimigos da direita

Um influencer fascista pregou essa semana nas redes sociais que é preciso agir logo e pegar a filha de Alexandre de Moraes. Esse sujeito só é diferente dos jornalões por ser mais autêntico, sincero e explícito. por MOISÉS MENDES

Constituição Cidadã Há 4 semanas

Entre a Constituição Cidadã e a Insegurança Jurídica

É triste para os operadores do direito (magistrados, membros do Ministério Público e advogados) ver o país vivenciar essa insegurança jurídica, chamada de ativismo judicial. por Ives Gandra da Silva Martins

A NOSSA AMAZÔNIA Há 4 semanas

PATAGÔNIA, A NOSSA AMAZÔNIA

A Amazônia, cujo maior território se encontra no Brasil, (e inclui também Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a maior floresta tropical mundial, resguardo da biodiversidade e do controle do clima do orbe terrestre, podemos dizer que é a nossa Patagônia, assim como esse vasto território no sul do continente, repartido entre a Argentina e o Chile, seria a Amazônia destes dois países.por CARLOS PRONZATO

Brasil sequestrado. Há 1 mês

Síndrome de Estocolmo

Tudo bem se amamos odiar o presidiário, seus filhos e tudo o que o fascismo representa. Mas precisamos voltar a discutir temas urgentes. O Brasil precisa se livrar de seus sequestradores. por Carlos Zacarias de Sena Júnior

IGHB Há 1 mês

IGHB, ESSA LUZ NÃO VAI SE APAGAR

Mas, apesar de qualquer polêmica política, o governo tem o dever de distribuir os impostos que correspondem à cultura, de forma democrática. Em virtude desta angustiante situação, em setembro, o IGHB lançou a campanha “Não deixe esta luz se apagar”

COLUNISTAS.
COLUNISTAS.
Aqui você encontra profissionais que fazem a diferença trocando experiências e falando de tudo um pouco. Nossos Colunistas são especialmente convidados para dividir com você suas vivências cotidianas em um bate-papo recheado de utilidade e variedade. Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nesse espaço “opinião” não refletem necessariamente o pensamento do Página de Polícia, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
29° Sensação
0.74 km/h Vento
76% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 501,320,23 -0,16%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio