Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Mudanças em marcha na Política Nacional de Segurança Pública

Governo Bolsonaro perde a chance de implementar medidas que contemplem desafios enfrentados pela sociedade e insiste em realizar uma política de liberalização de armas.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.org.br/
08/10/2021 às 10h43 Atualizada em 08/10/2021 às 10h54
Mudanças em marcha na Política Nacional de Segurança Pública

No dia 29 de setembro de 2021 foi publicado o Decreto n° 10.822, de 28 de setembro de 2021, o qual institui a revisão da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social 2021-2030. O decreto publicado no final de setembro fazia referência a duas outras normas publicadas em 2018: Lei 13.675, de 11 de junho de 2018, que criou a Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social e instituiu o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), e o Decreto n° 9.489, de 30 de agosto de 2018, que regulamenta os procedimentos para a implementação da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social.

A mudança realizada em 2021 foi cercada de grande espera e cautela pelos especialistas do setor, muito em conta pelo entendimento de segurança pública do governo Bolsonaro que, em diversas situações, colocou que os princípios basilares para a área não estavam pautados na prevenção, na garantia dos direitos humanos, na diminuição da circulação de armas, dentre outros.

A fim de compreender as mudanças advindas com o Decreto de 2021, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública realizou um quadro comparativo com algumas dimensões analisadas, que pode ser acessado aqui.

Preliminarmente, vale ressaltar que os mecanismos de governança que estavam previstos na Lei do SUSP, como o SINAPED (Sistema Nacional de Acompanhamento e Avaliação das Políticas de Segurança Pública e Defesa Social), não estão mais disponíveis no Decreto aprovado em 2021. Assim sendo, a atuação de outros entes federativos foi enfraquecida, com a União se consolidando como instância deliberativa da política de segurança do país. Nessa toada, o Ministério da Justiça tem papel central - e aqui vale ressaltar a mudança de sua função mais em um sentido deliberador do que coordenador. O governo Bolsonaro, assim, enfatiza o controle operacional da segurança pública, em detrimento do contexto subnacional e municipal.

O PNSPDS, aprovado em 2021, preocupa também em outros sentidos: categorias de análise como feminicídios e mortes decorrentes de intervenções policiais (MDIP), ambos monitorados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, realizado pelo FBSP, foram invisibilizados. As MDIP serão, assim, somados à categoria geral de homicídios, o que dificulta o dimensionamento da letalidade policial. Vale ressaltar, inclusive, que o Anuário de 2021 mostrou que, entre 2019 e 2020, o aumento foi expressivo em alguns estados, como Mato Grosso (76%), Pernambuco (56,6%), Rio Grande do Sul (48,9%) e Tocantins (48,4%). Os temas de carreiras e valorização profissional, a não ser pela previsão de realizar perfil profissiográfico, também foram conceitos invisibilizados; mesmo que ambos estivessem presentes em suas promessas de governo.

Os conceitos de polícia comunitária e proximidade saíram do foco, muito também pela centralidade da União na construção da política pública de segurança.

Ainda no âmbito dos indicadores, vale ressaltar a diferença da periodicidade a depender do tema. Em geral, os indicadores serão acompanhados a cada três meses, ou em uma periodicidade maior. Como exceção, os indicadores de policiais mortos, suicídios de policiais e crimes patrimoniais serão acompanhados mensalmente. A questão por trás da escolha da periodicidade, além da própria prioridade, está relacionada com, novamente, a centralidade do Governo Federal nesse acompanhamento - sendo uma questão operacional, a dúvida que resta é se isso não seria da alçada operacional e quais são os benefícios de serem monitorados pela União.

Como balanço geral, compreende-se que o governo Bolsonaro perde a chance de implementar uma Política Nacional de Segurança Pública que contemple os diversos desafios enfrentados pela sociedade e persiste em realizar uma política de liberalização de armas. A falta de valorização profissional - uma das suas promessas de campanha, inclusive - e o apoio às operações letais também se mostram mais evidentes no PNSPDS. Os casos recentes de quadrilhas e de violências brutais, tais como o visto em Araçatuba, interior de São Paulo, são um dos efeitos da política implementada até então, e que tende a ser continuada com o Plano aprovado.

Em suma, a revisão da Política fragiliza a ideia de cooperação, enfraquece a transparência ativa e fortalece a centralização de decisões. E, ao fazer isso, atenta contra o espírito da própria Lei que criou o SUSP, que foi pensada em uma chave não subordinativa e, sobretudo, de segurança pública como um direito.

Amanda Lagreca - Bacharel em Administração Pública pela FGV EAESP. Pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Fonte: fontesegura.org.br/

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Colunismo de intriga Há 2 semanas

2026 será o ano dos ataques aos parentes dos inimigos da direita

Um influencer fascista pregou essa semana nas redes sociais que é preciso agir logo e pegar a filha de Alexandre de Moraes. Esse sujeito só é diferente dos jornalões por ser mais autêntico, sincero e explícito. por MOISÉS MENDES

Constituição Cidadã Há 4 semanas

Entre a Constituição Cidadã e a Insegurança Jurídica

É triste para os operadores do direito (magistrados, membros do Ministério Público e advogados) ver o país vivenciar essa insegurança jurídica, chamada de ativismo judicial. por Ives Gandra da Silva Martins

A NOSSA AMAZÔNIA Há 4 semanas

PATAGÔNIA, A NOSSA AMAZÔNIA

A Amazônia, cujo maior território se encontra no Brasil, (e inclui também Peru, Colômbia, Venezuela, Bolívia, Equador, Guiana, Suriname e Guiana Francesa), a maior floresta tropical mundial, resguardo da biodiversidade e do controle do clima do orbe terrestre, podemos dizer que é a nossa Patagônia, assim como esse vasto território no sul do continente, repartido entre a Argentina e o Chile, seria a Amazônia destes dois países.por CARLOS PRONZATO

Brasil sequestrado. Há 1 mês

Síndrome de Estocolmo

Tudo bem se amamos odiar o presidiário, seus filhos e tudo o que o fascismo representa. Mas precisamos voltar a discutir temas urgentes. O Brasil precisa se livrar de seus sequestradores. por Carlos Zacarias de Sena Júnior

IGHB Há 1 mês

IGHB, ESSA LUZ NÃO VAI SE APAGAR

Mas, apesar de qualquer polêmica política, o governo tem o dever de distribuir os impostos que correspondem à cultura, de forma democrática. Em virtude desta angustiante situação, em setembro, o IGHB lançou a campanha “Não deixe esta luz se apagar”

COLUNISTAS.
COLUNISTAS.
Aqui você encontra profissionais que fazem a diferença trocando experiências e falando de tudo um pouco. Nossos Colunistas são especialmente convidados para dividir com você suas vivências cotidianas em um bate-papo recheado de utilidade e variedade. Os artigos, fotos, vídeos, tabelas e outros materiais iconográficos publicados nesse espaço “opinião” não refletem necessariamente o pensamento do Página de Polícia, sendo de total responsabilidade do(s) autor(es) as informações, juízos de valor.
Ver notícias
Salvador, BA
28°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
31° Sensação
4.93 km/h Vento
74% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 500,276,44 -0,36%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio