Segunda, 24 de Agosto de 2026
24°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

Inimigos, inimigos; negócios à parte

CRIME ORGANIZADO E POLÍTICA PARTIDÁRIA: à procura da analogia perfeita. por Lucas Starling Albuquerque Cerqueira

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.336
23/08/2026 às 19h32
Inimigos, inimigos; negócios à parte

Lucas Starling Albuquerque Cerqueira

Mestre em Segurança Pública pela Universidade Vila Velha (UVV/ES). Policial Civil em Santa Catarina. Membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Professor da Especialização em Inteligência e Inovação Aplicadas no Enfrentamento ao Crime Organizado da UFSC e da Associação Catarinense de Ensino (ACE/SC).

As rivalidades e alianças entre organizações criminosas no Brasil influenciam diretamente os indicadores de violência e as dinâmicas dos mercados ilegais. Historicamente momentos de guerras, alianças e tréguas fazem parte da história dos grupos criminosos brasileiros. Diante da complexidade de compreender as relações entre as principais facções nacionais, a busca por analogias pode tornar o entendimento dessas relações um pouco mais fácil e auxiliar a compreensão popular, ajudando principalmente aqueles mais leigos sobre o tema. Nessa procura pela analogia perfeita, desponta uma extremamente pertinente. Talvez não seja perfeita, mas, aparentemente, é bastante didática: a política partidária brasileira. Não se busca aqui comparar ou igualar as práticas e condutas de partidos políticos a organizações criminosas, mas apontar como a forma de se relacionar de seus integrantes se assemelha.

No Brasil, a política partidária organiza candidaturas, define diretrizes ideológicas e orienta a atuação nos Poderes Executivo e Legislativo em um cenário atual fortemente polarizado. Em ano eleitoral, as questões envolvendo a política partidária ficam ainda mais evidentes, com muitos políticos mudando de partidos, criação de coligações, rompimentos, apoios informais e diversas formas de arranjos e desarranjos. Nesse contexto, alianças políticas, até então bastante improváveis, acabam ocorrendo (CNN, 2022). Políticos que aparentavam representar ideologias opostas acabam se unindo por interesses comuns (CNN, 2026). Essas parcerias desafiam convenções e destacam como determinadas circunstâncias podem sobrepor divergências. Costumam ser motivadas por fatores como: sobrevivência política, com a ocorrência de fusões ou acordos inusitados para superar cenários eleitorais desfavoráveis; situações de crise, com a união de adversários históricos contra uma ameaça ou inimigo comum; ou pragmatismo pelo poder, com a busca por recursos, cargos ou maior representatividade.

A trajetória do crime organizado brasileiro segue lógica semelhante. Por mais de duas décadas, CV e PCC mantiveram uma coexistência pacífica baseada na cooperação logística e comercial. Essa estabilidade ruiu com o projeto expansionista do PCC, que enfrentou resistência de facções regionais dispostas a preservar sua autonomia local, a exemplo do PGC e da FDN. O rompimento definitivo, consolidado em 2016, desencadeou uma guerra nacionalizada e massacres no sistema prisional. Desde então, o panorama criminal consolidou-se em uma disputa polarizada entre dois grandes blocos de grupos aliados, liderados pelos dois maiores grupos do país, caracterizada pela fragmentação regional, disputas pelo controle de rotas de escoamento de drogas e controle territorial de comunidades. Mesmo dentro dos blocos, as relações são instáveis e sujeitas a rupturas rápidas (ver “A Guerra”).

Atualmente, contudo, a expansão das facções para novos mercados e a internacionalização de suas atividades reconfiguraram essas interações. Como observa Camila Dias, no tocante à fase madura do PCC, a ampliação econômica diversifica os modos de conexão, suavizando fronteiras entre rivais. Em regiões estratégicas para a exportação de ilícitos, como os complexos portuários, a competição mercantil tende a se sobrepor aos confrontos violentos. Segundo Gabriel Patriarca, a maximização de lucros e a busca por redes operacionais confiáveis estimulam alianças de negócios em detrimento de disputas territoriais predatórias (ver “O PCC para além de São Paulo”).

No mesmo sentido, diversas notícias recentes apontam para uma relação, digamos, mais diplomática entre integrantes de facções distintas, principalmente aqueles que ocupam posições hierarquicamente superiores e com maior envolvimento nas atividades financeiras. No início de 2025, um relatório do Ministério da Justiça e Segurança Pública alertou as autoridades do Rio de Janeiro sobre uma aliança entre PCC e CV, que teriam se unido para lavar dinheiro, traficar drogas e adquirir armamentos de guerra (CNN, 2025). As investigações apontaram a intenção de criar um “comando nacional do crime”, que buscaria estabelecer uma coordenação entre diferentes grupos criminosos que atuam em estados distintos, com acordos de cooperação e divisão de áreas de atuação (CNN, 2026).

Essa aliança ou trégua durou pouco, e um “salve” foi emitido alguns meses depois, anunciando seu fim (CNN, 2025). No entanto, tal aliança momentânea evidenciou que, mesmo que exista rivalidade entre as facções, há uma comunicação entre as lideranças, o que torna possível esse tipo de arranjo. Roberto Uchôa afirma que “ainda que existam momentos de convergência estratégica, eles tendem a ser curtos, parciais e territorialmente desiguais” (Diplomatique, 2025). Levantamento da Folha de S. Paulo apontou que as alianças entre facções criminosas já atingem 17 estados. Em julho de 2026 foram deflagradas operações policiais, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, que investigavam situações em que uma mesma estrutura financeira era utilizada na lavagem de dinheiro para facções rivais.

Nesse contexto, como enfatiza Dias (2026), a ascensão socioeconômica de certas lideranças enfraquece a ideologia fundacional de enfrentamento à opressão, cedendo espaço à lógica puramente empresarial. Há, portanto, um tensionamento dicotômico entre lucro e ideologia. Dessa forma, nessa nova fase do PCC e, consequentemente, das dinâmicas do crime no Brasil, faz-se presente “o enfraquecimento da moral intragrupo, estimulado por alianças com atores ilícitos que não integram o grupo e não necessariamente compartilham seus valores”. Isso é causado pela grande diversificação de mercados e pela maior participação em atividades econômicas por parte das facções.

Portanto, sem entrar no mérito das funções políticas praticadas pelas organizações criminosas no exercício da governança criminal, ou das atividades criminosas perpetradas de forma organizada por partidos políticos, pois isso renderia um texto à parte, é possível afirmar que há uma dualidade estrutural que aproxima o crime da política partidária. Nas prisões e comunidades dominadas por organizações criminosas, a ideologia é vista e tratada de forma radical. Pessoas matam e morrem por elas. O simples fato de utilizar símbolos ou realizar gestos de uma facção rival pode resultar em uma sentença de morte (G1, 2025). Da mesma forma, guardadas as devidas proporções, o radicalismo também é visto no cenário político, em que a polarização ideológica também gera brigas acaloradas, rompimentos de relações e até mortes (UOL, 2022). Nas bases — sejam militantes radicais ou detentos e moradores de territórios dominados por facções —, a adesão ideológica e o pertencimento simbólico são vivenciados de forma rígida, resultando em polarização extrema e até violência letal. Não há tolerância.

Em contrapartida, salvo exceções mais radicais, nos escalões superiores, dirigentes e operadores pragmáticos, mesmo que de grupos ideologicamente rivais, dialogam, articulam acordos e fecham negócios, demonstrando que a busca por poder e/ou recursos financeiros frequentemente se sobrepõe às divergências históricas e ideológicas.

fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.336

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

(*) Os textos publicados não refletem, necessariamente, a opinião do Fonte Segura e são de responsabilidade de seu autor ou autores.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
ANUÁRIO BRASILEIRO Há 1 dia

O avanço do estelionato em um Brasil cada vez mais digita

A era digital transformou a forma como os crimes são praticados no Brasil. O estelionato ganhou escala, tornou-se mais sofisticado e passou a ocupar um espaço central na dinâmica da criminalidade patrimonial, impondo novos desafios à segurança pública. por Samira Bueno*, Renato Sérgio de Lima e Isabela Sobral

MÚLTIPLA VOZES Há 1 dia

MULHERES NAS POLÍCIAS: desafios para a segurança e repressão aos crimes de gênero

O baixo efetivo de mulheres nas instituições policiais pode comprometer a efetividade das políticas de enfrentamento à violência contra as mulheres, seja por dificultar a denúncia, seja por limitar a adequada condução dos relatos e a identificação das diferentes formas de violência, diante das especificidades desse tipo de crime. por Carla Campos Avanz

MÚLTIPLA VOZES  Há 1 dia

TRÁFICO NO PORTO DE SANTOS 2 – OS ATORES DOS DOIS LADOS DO ATLÂNTICO

A rede de contatos do Primeiro Comando da Capital se expandiu para além do previsto pelos órgãos policiais na década passada, quando alguns viam a organização como um fenômeno limitado - um delegado chegou a dizer que o PCC era como um homem com apenas um dente, e que a polícia o havia arrrancado. por Guaracy Mingardi

MÚLTIPLA VOZES  Há 1 dia

Oito anos da Lei Geral de Proteção de Dados: o poder de ver e o dever de proteger

Proteger dados significa impedir que o poder informacional do Estado cresça sem freios, sem critérios e sem consciência dos seus efeitos sobre vidas concretas. por Luís Lanfredi e Lidiani Fadel

ANUÁRIO BRASILEIRO Há 1 semana

O retrato do sistema socioeducativo e a persistência da resposta punitiva

Diante da redução do sistema socioeducativo pela metade em dez anos, especialistas defendem que o momento é de qualificar o atendimento e aproveitar os recursos humanos e físicos disponíveis, em vez de investir em soluções ineficazes como o encarceramento no sistema prisional adulto. por Thais Carvalho*

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
24°
Tempo limpo
Mín. 24° Máx. 26°
24° Sensação
6.2 km/h Vento
75% Umidade
30% (0.25mm) Chance chuva
05h43 Nascer do sol
17h29 Pôr do sol
Terça
26° 24°
Quarta
25° 24°
Quinta
25° 23°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 24°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,16 +0,02%
Euro
R$ 6,01 +0,02%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 436,090,56 +1,05%
Ibovespa
171,906,72 pts 0.51%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio