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SEGURANÇA PÚBLICA: o Brasil não é El Salvador

A narrativa da bukelização revela despreparo na condução da segurança pública, por conter a ideia de que seria suficiente “neutralizar” crimininosos e operar encarceramento em massa para solucionar dilemas complexos. por Alexandre Pereira da Rocha

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/EDIÇÃO N.319
07/05/2026 às 13h41 Atualizada em 07/05/2026 às 13h51
SEGURANÇA PÚBLICA: o Brasil não é El Salvador

Alexandre Pereira da Rocha

Doutor em Ciências Sociais/UnB. Policial Civil no Distrito Federal.

No Brasil dos anos 2000 emergiam debates sobre segurança cidadã, policiamento comunitário, uso de evidências na formulação de políticas públicas e propostas de reforma das corporações. Essas pautas mobilizavam acadêmicos, gestores, políticos, policiais e segmentos da sociedade civil na busca por um campo da segurança pública antidiscriminatório, democrático, plural e justo. Contudo, em 2026, ano de eleições nacionais, o cenário é de obliteração dessas propostas progressistas, visto que a tendência tem sido o predomínio de discursos e práticas punitivistas ao estilo de Nayib Bukele, de El Salvador.

Como o modelo de caráter autoritário adotado em El Salvador passou a ser apresentado como exemplo de sucesso para o Brasil? Essa pergunta não é meramente retórica; ela evidencia como o tema da segurança tem sido instrumentalizado em discursos eleitoreiros, quase como uma “bala de prata”. Na ausência de propostas consistentes e planos de governo críveis, muitos candidatos recorrem à pauta da segurança pública como forma de alienação do eleitorado. Nesse contexto, o populismo penal, com promessas de “guerra ao crime”, ofusca debates racionais sobre a própria segurança, bem como sobre educação, economia, saúde e trabalho. Daí o interesse pela divulgação do modelo Bukele no cenário eleitoral brasileiro atual: servir de cortina de fumaça para as questões essenciais do país.

Vale assinalar que, em 2014, o Brasil atingiu o nefasto recorde de país com o maior número absoluto de homicídios no mundo (60 mil mortes), enquanto El Salvador ostentava a maior taxa proporcional (60 mortes por 100 mil habitantes). Hoje, ambos os países registram quedas nesses índices: no Brasil, os números absolutos reduziram-se para cerca de 35 mil em 2024[i]; em El Salvador, a taxa caiu para 1,3 morte por 100 mil habitantes em 2025[ii].

Uma comparação acrítica pode induzir à percepção de que o modelo salvadorenho é mais eficiente, sem levar em conta o conteúdo dos “remédios” aplicados. Enquanto o Brasil provavelmente colha frutos de uma “revolução invisível”, com ações voltadas à gestão por resultados, inteligência policial e prevenção multissetorial[iii], El Salvador optou por um estado de exceção, com encarceramento em massa e suspensão de garantias processuais[iv]. No Brasil, apesar das vicissitudes ideológicas, ainda persiste a busca por uma segurança ancorada no Estado de Direito; em El Salvador, prevalece a mística do modelo punitivo para tratar os desafios da segurança pública.

No entanto, é fato que o paradigma do enfrentamento violento da criminalidade possui adeptos fervorosos em território brasileiro. No Rio de Janeiro, por exemplo, estratégias letais são frequentemente tratadas como sinônimo de eficiência. Vale citar a recente operação policial mais sangrenta da história do país, com 121 mortes, considerada exitosa por alas conservadoras[v]. Esse cenário encontra ressonância nos resultados imediatos apresentados ao estilo de Bukele.

Nesse contexto, pré-candidatos à Presidência da República de diversas esferas e orientações têm endossado o modelo de exceção salvadorenho. Flávio Bolsonaro, representante da extrema direita, já declarou que, em um eventual governo, adotará o método de Bukele[vi]. Em outra ocasião, já afirmou que criminosos devem “mofar na cadeia” e que serão “neutralizados” caso confrontem as forças policiais[vii]. Do mesmo modo, outros candidatos e ex-governadores de estados importantes, como Minas Gerais e Goiás, manifestam predileção pelo método salvadorenho. Até mesmo setores do campo progressista têm tolerado medidas de endurecimento penal para evitar desgaste político.

Por conta disso, debates sobre segurança pública cidadã e democrática no cenário eleitoral de 2026 correm o risco de serem preteridos pela narrativa punitivista. Contudo, é justamente aí que reside a missão de atores comprometidos com os ideais democráticos: não se deixarem levar pelo discurso fácil da “bukelização”. É preciso esclarecer que o modelo de Bukele implica a deterioração do Estado de Direito e a afronta aos direitos fundamentais, características próprias de regimes autoritários.

Além disso, a estratégia de Bukele não representa inovação para a realidade brasileira; trata-se de uma repaginação de ações repressivas já adotadas historicamente por alguns gestores no país, com elevado custo em vidas humanas e sem evidências de resultados sustentáveis. Com efeito, esse modelo representa um retrocesso democrático. Ademais, a narrativa da bukelização revela um despreparo na condução da segurança pública, ao supor que bastaria “neutralizar” crimininosos e operar encarceramento em massa para solucionar dilemas complexos.

Destarte, a ideia de transportar o modelo Bukele para o Brasil é mais uma farsa eleitoral já em circulação na disputa de 2026. O Brasil não é El Salvador, não porque sejamos melhores, mas porque o projeto de “bukelização” é arbitrário e, por conseguinte, inconciliável com o Estado Democrático de Direito brasileiro. Com efeito, aqui a segurança pública, malgrado sua complexidade, deve continuar almejando o caminho da democracia, da cidadania e da dignidade da pessoa humana, em vez de apostar em tentações imediatistas e autoritárias.

Referências

[i] https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/sua-seguranca/seguranca-publica/estatistica/download/dados-nacionais-de-seguranca-publica-mapa/mapa-da-seguranca-publica-2025_.pdf

[ii] https://diarioelsalvador.com/el-salvador-cerro-el-2025-con-tasa-de-1-3-homicidios-por-cada-100000-habitantes/732914/

[iii] https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/5999-atlasdaviolencia2025.pdf

[iv] https://www.oas.org/pt/CIDH/jsForm/?File=/pt/cidh/prensa/notas/2024/207.asp

[v] https://g1.globo.com/politica/noticia/2025/10/29/apos-megaoperacao-governadores-de-direita-planejam-comitiva-para-o-rio-em-apoio-a-castro.ghtml

[vi] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/04/17/flavio-el-salvador-seguranca-publica.ghtm

[vii] https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2026/03/22/flavio-diz-que-bandido-vai-mofar-na-cadeia-e-morrer-se-enfrentar-policia.htm

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