
Em Sergipe, um espaço silencioso e protegido se tornou ponto de recomeço para crianças e adolescentes que tiveram a infância atravessada pela violência sexual. O Centro de Referência no Atendimento Infantojuvenil de Sergipe (Crai/SE), equipamento da Secretaria de Estado da Saúde (SES), anexo à Maternidade Nossa Senhora de Lourdes (MNSL), é o primeiro do Norte e Nordeste e o segundo do Brasil a contar com estrutura física exclusiva e equipe especializada para esse público.
Todos os dias, em média, seis novos casos chegam à unidade. Antes da criação do Crai, as vítimas eram atendidas na maternidade, em meio a outros serviços de saúde. De acordo com a gerente do centro, a enfermeira Angélica Machado de Aragão, o fluxo na unidade é diferenciado, com privacidade, escuta qualificada e uma rede integrada para evitar a revitimização. “O Crai, hoje, dispõe de ginecologistas, assistentes sociais, psicólogas e profissionais da área policial para registro de boletim de ocorrência e solicitação de perícia. É uma equipe preparada para atender vítimas de 0 a 19 anos incompletos. Com o Crai, temos um ambiente fechado, onde a criança não precisa repetir sua história para vários profissionais. Todo mundo se comunica e trata o assunto da melhor forma possível”, explica.
O atendimento é realizado por equipe multiprofissional, composta preferencialmente por mulheres, para reduzir constrangimentos. “Optamos para que os profissionais sejam do sexo feminino, acreditando que assim há mais facilidade na abordagem, principalmente quando precisamos ter acesso ao corpo da vítima”, conta.
Além da assistência técnica, o centro foi estruturado para acolher a criança de forma sensível. Segundo Angélica, o Crai dispõe de ambiente lúdico, com recursos adequados à linguagem infantil, para que o primeiro contato não seja mais um momento de medo. “A criança chega fragilizada e precisa ser recebida em um espaço que dialogue com o universo dela. O atendimento não é apenas clínico, há um cuidado para que ela se sinta segura, possa brincar, se expressar e confiar na equipe”, ressalta.
Atendimentos
A amplitude desse trabalho aparece nos números. Em 2025, o centro de referência contabilizou um total de 7.585 atendimentos. Nos três anos de funcionamento o Crai registrou mais de 20.600 atendimentos, que envolveram desde atendimentos em psicologia, serviço social, enfermagem, consultas médicas, administração de medicamentos, coleta de material, boletim de ocorrência, além de perícias médicas.
O Crai funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, e é porta aberta. A família pode procurar o serviço diretamente, sem necessidade de encaminhamento. Também chegam casos pelo Conselho Tutelar, delegacias, escolas e unidades de saúde.
Angélica aponta que os casos agudos, ocorridos em até 72 horas, são atendidos de forma imediata. Já os casos crônicos, com mais de 72 horas, passam por agendamento para garantir avaliação completa, com perícia e acolhimento psicossocial. “É feito o acolhimento, a consulta médica e, quando necessário, a administração de antirretrovirais para prevenir HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis. O ideal é procurar o serviço o mais rápido possível”, frisa.
Todo o processo é sigiloso. O prontuário é restrito à equipe do Crai e o registro psicológico é protegido. “São informações sensíveis. A vítima não pode ser exposta novamente. Após o atendimento inicial, o acompanhamento não se encerra no Crai. A equipe realiza a devolutiva para a Atenção Primária do município de origem da vítima. A gente não desvincula totalmente da saúde. Encaminhamos com referência para que a unidade básica acompanhe essa criança e sua família. O ideal é que ela continue sendo assistida perto de casa, com suporte psicológico e social”, explica a gerente.
Escuta que acolhe
Para além dos protocolos, o atendimento se sustenta sobretudo na escuta. Para a assistente social Maria de Fátima Moreira, que também atua no Crai, o primeiro contato é decisivo. “A família precisa sentir que existe sigilo e respeito. Muitas mães dizem: ‘Moro numa comunidade pequena, não quero que ninguém saiba’. Aqui, ela desabafa e começa a amenizar um pouco essa dor”, enfatiza.
A assistente social chama atenção para um dado que se repete nos atendimentos: a maioria das violências ocorre dentro de casa. “O abuso está acontecendo, principalmente, no meio da família, no seio familiar. É um alerta para toda a sociedade. Às vezes, a pessoa de maior confiança é justamente quem comete a violência”, alerta, ao defender que pais e responsáveis observem mudanças de comportamento e conversem com as crianças sobre limites do próprio corpo. “Não é paranoia, é cuidado. Orientar para que a criança conte quando for tocada de forma inadequada”, reforça.
Impactos que vão além do corpo
A psicóloga Marluce Santos, que atua no Crai há mais de um ano, acompanha de perto as marcas invisíveis deixadas pelo abuso. “Os impactos são enormes: alteram o sono, a alimentação, o desempenho escolar e a forma de se relacionar com o mundo. Muitas falam através do brincar, de uma carta na escola ou de uma mudança no comportamento. Os sinais costumam aparecer em forma de insônia repentina, medo de tirar a roupa, irritabilidade, queda nas notas, recusa em visitar alguém que antes era próximo. Sempre nos dão sinais. Às vezes, somos nós que não conseguimos fazer a leitura”, atenta.
O tratamento psicológico no centro de referência dura, em média, seis meses, podendo ser ampliado. Em alguns casos, há necessidade de acompanhamento psiquiátrico. “A gente trabalha para que ela consiga lidar com a situação de forma saudável. Ela sempre vai lembrar, mas como uma cicatriz que já não sangra tanto”, acrescenta a psicóloga.
Apesar de a existência do serviço representar um avanço, os profissionais lembram que o ideal seria não precisar dele. A realidade, porém, impõe a necessidade de falar sobre o tema. “Não é só o ato da violência, são as consequências para a vida inteira. Por isso é fundamental procurar ajuda especializada”, complementa Angélica.
A assistente social Maria de Fátima resume o sentimento de quem trabalha diariamente com histórias tão delicadas. “É um serviço difícil, mas necessário. Nosso papel é acolher para que essa criança consiga voltar a viver”, pontua.
Rede de proteção integrada
O Crai integra a Rede de Cuidado e Proteção Social de Sergipe, articulando as secretarias de Estado da Saúde (SES), da Segurança Pública (SSP) e da Assistência Social, Inclusão e Cidadania (Seasic), Ministério Público do Trabalho, Tribunal Regional do Trabalho, MPSE e outros órgãos. No próprio centro é possível registrar boletim de ocorrência e solicitar perícia, evitando que a vítima percorra diversos locais.
Nos finais de semana e feriados, casos emergenciais devem procurar a rede hospitalar, Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), Delegacias de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGVs), Conselho Tutelar ou os canais 181 e 190. Também estão disponíveis o Disque 100 e o CVV 188. É possível entrar em contato com o Crai de segunda a sexta-feira, das 7h às 19h, pelos telefones 79 3225-8650, 79 3225-8654 ou pelo e-mail: crai.se.mnsl@gmail.com.














