
Não é preciso gostar de Maduro para chamar a agressão estadunidense à Venezuela pelo nome. Também não é necessário nutrir simpatia pelo chavismo para dizer que houve um sequestro que infringiu o direito internacional e qualquer compreensão do que seja razoável na relação entre países. Os nomes que damos as coisas contam muito, seja na forma de noticiar os acontecimentos, seja no modo como fixamos a memória sobre os assuntos.
Esses dias vi uma colunista de um importante jornal brasileiro chamar de “cafona” o uso do termo “imperialismo”. O vídeo, de 2024, voltou a circular depois dos ataques à Venezuela. Não é preciso ser especialista para caracterizar a invasão de um país soberano por uma potência estrangeira como imperialismo, ainda que fiquemos restritos à dimensão política do evento. Diante disso, parece impossível ignorar que os principais veículos de imprensa do Brasil, que não poupam adjetivos para o país vizinho, são incapazes de dizer o óbvio sobre o governo estadunidense.
Sob Trump, os Estados Unidos desferiram um ataque inédito a um país sul-americano, vitimando, ao menos, 100 pessoas. Fizeram isso sem maquiagem ou desculpas, como as que foram utilizadas há um quarto de século, quando bombardearam o Iraque, removeram Saddam Houssein e deixaram para trás um rastro de destruição. Não há, no caso da invasão da Venezuela e do sequestro do presidente Maduro, justificativa em torno de uma suposta defesa da democracia ou de valores ocidentais.
A Venezuela jamais representou uma ameaça aos vizinhos, ao continente ou à paz mundial. Não há notícias de que viesse enriquecendo urânio ou fabricando armas químicas, supondo que isso autorizasse um ataque. Trump decidiu que iria bombardear o país latino e ao longo de várias semanas os Estados Unidos torpedearam pequenas embarcações venezuelanas, que acusavam de transportar drogas. Também alegou que o país era governado por um narcoterrorista que chefiava um cartel. Nessa altura a única justificativa para a agressão é a declarada disposição de controlar o petróleo venezuelano, entregue a petroleiras estadunidenses.
Diante do flagrante e assumido atentado às leis internacionais, restaria aos veículos de comunicação, além de noticiar os acontecimentos e buscar análises qualificadas, denunciar a agressão ao país vizinho do Brasil. Entretanto, o que boa parte da imprensa faz é dourar a pílula do agressor, como se os manuais de redação do jornalismo brasileiro, que jamais hesitaram em chamar Maduro de “ditador” e seu governo de “regime”, não pudessem qualificar os Estados Unidos de outra coisa que não uma democracia.
Há tempos os estudiosos vem chamando atenção para a natureza fascistizante do trumpismo, principal ameaça à paz mundial. Atribuir nome adequado à coisa, é função primária de quem pesquisa e de quem tem a tarefa de informar, com respeito aos seus leitores, o que se passa no mundo.
(*) Carlos Zacarias de Sena Júnior é professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Graduado em História pela Universidade Católica do Salvador, é mestre em História pela UFBA e doutor pela Universidade Federal de Pernambuco. Atua como articulista, com textos publicados no jornal A Tarde e na coluna Página de Polícia, onde analisa temas de política, história e relações internacionais.
Contato: zacasenajr@uol.com.br
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