Sexta, 24 de Abril de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

ALARMADOS E DESINFORMADOS: o aumento da apreensão de fuzis no Brasil

A proliferação de armas de fabricação clandestina representa desafio adicional às autoridades, uma vez que a produção é descentralizada, não rastreável, e se aproveita de lacunas regulatórias internacionais.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.279
31/05/2025 às 22h13 Atualizada em 31/05/2025 às 22h23
ALARMADOS E DESINFORMADOS: o aumento da apreensão de fuzis no Brasil

A proliferação de armas de fabricação clandestina representa desafio adicional às autoridades, uma vez que a produção é descentralizada, não rastreável, e se aproveita de lacunas regulatórias internacionais.

Nas últimas décadas, o problema dos fuzis no crime tornou-se uma preocupação central no país, alterando drasticamente o cenário da segurança pública. Exceto pelo Rio de Janeiro, que começou a registrar apreensões já no final dos anos 1980, a presença dessas armas era relativamente rara na maioria dos estados brasileiros. Essa realidade mudou radicalmente nos últimos anos. Estados com altas taxas de violência, como Rio Grande do Norte e Bahia, saltaram de 2 e 14 fuzis apreendidos em 2018 para 34 e 99, respectivamente, em 2024. Mesmo estados tradicionalmente menos violentos, como São Paulo, registraram um aumento expressivo, passando de 111 para 570 apreensões no mesmo período. No Rio de Janeiro, onde o problema já era grave, o número subiu de 493 para 732 apreensões.

O impacto da expansão do uso de fuzis é profundo. Essas armas proporcionam aos criminosos um alcance letal superior a um quilômetro e capacidade para perfurar anteparos, tornando os confrontos policiais mais violentos, aumentando a vitimização de policiais e causando um número maior de vítimas colaterais por balas perdidas. As polícias, obrigadas a responder à altura, passaram a adquirir mais fuzis e investir em viaturas blindadas, não só em viaturas táticas (como os ‘caveirões’), mas também no policiamento comum, como recentemente observado em São Paulo. A disseminação dessas armas fortalece o poder territorial das organizações criminosas, permitindo-lhes disputar e controlar territórios e rotas de tráfico com maior eficiência.

Diversos fatores contribuíram para essa expansão. Tradicionais fontes de tráfico internacional e desvios internos de forças de segurança continuam ativos. Porém, nos últimos anos, novos canais surgiram com força devido às políticas mal elaboradas implementadas pelo governo Bolsonaro a partir de 2019, permitindo a aquisição de até 30 fuzis por CPF para CACs (Colecionadores, Atiradores e Caçadores), facilitando desvios e barateando essas armas no mercado ilegal. Adicionalmente, o tráfico de componentes e partes de armas industriais via postal tornou-se mais frequente e complexo.

Um dos fenômenos mais preocupantes dessa evolução é o crescimento significativo das chamadas “ghost guns“, armas produzidas clandestinamente, sem numeração ou qualquer registro oficial. Conforme descrito por Wintemute (2021), essas armas podem ser facilmente fabricadas em casa utilizando tecnologias como impressoras 3D e máquinas CNC (computer numeric control, que realizam usinagem em metal), capazes de produzir totalmente do zero e com precisão. Ou usando armações semi-acabadas vindas dos EUA, ou até armações de airsoft (como fazia o PM Ronnie Lessa no Rio de Janeiro). Segundo Rakhecha (2024), a proliferação dessas armas representa um desafio adicional às autoridades, já que sua produção é descentralizada, não rastreável, e se aproveita de lacunas regulatórias internacionais.

A complexidade na identificação dessas armas acarreta diagnósticos equivocados sobre suas origens. Muitas ghost guns são marcadas com falsas inscrições de marcas prestigiadas para enganar compradores e elevar seu valor no mercado ilegal. No Brasil, a mais comum é a da marca Colt. Frequentemente, essas armas montadas são atribuídas ao Paraguai, tradicional ponto de origem. No entanto, operações recentes da Polícia Federal já apontam fábricas clandestinas operando no Brasil (vide caso de Minas Gerais), produzindo localmente peças de metal e complementando com peças industriais nacionais e importadas.

Para enfrentar efetivamente esse problema, as polícias estaduais e federais devem elevar suas capacidades técnicas e operacionais. É imprescindível aprofundar os diagnósticos sobre quais plataformas específicas (AR/M4, G3, AK) estão sendo usadas, quais componentes são artesanais ou industriais, e qual sua real procedência. Diante de um fuzil sem marcas, afirmar apenas qual o tipo de arma e seu funcionamento é insuficiente em um laudo pericial. A ausência de marcas se deu por obliteração ou se trata de uma ghost gun? Caso seja ghost gun, que tipo de material está sendo usado? Há peças industriais com marcas estampadas? De qual país? Essas complementações se impõem no combate a esse novo fenômeno. A produção de notas técnicas detalhadas, como as já iniciadas pela Polícia Federal e pela Desarme do Espírito Santo, deve ser ampliada nacionalmente. Sem um diagnóstico claro e aprofundado, corre-se o risco de continuar atribuindo o problema exclusivamente a fontes externas, ignorando perigosamente o crescimento doméstico dessa ameaça cada vez mais presente e letal.

Referências:

DESARME. 2022. Orientação Técnica acerca de fuzis de fabricação ilícita/falsificados. OT/SESP/PCES/SIAE/DICCOR/DESARME: 01/2022. Polícia Civil do Estado do Espírito Santo. Vitória.

Rakhecha, V.S.D. (2024). The Societal Impact of 3D Printing: Unveiling Threats through the Lens of Ghost Guns. International Journal of Science and Research (IJSR), 13(2), 1774-1775.

Wintemute, G.J. (2021). Ghost guns: spookier than you think they are. Injury Epidemiology, 8:13.

(*) Bruno Langeani - Mestre em políticas públicas pela Universidade de York (UK), consultor sênior do Instituto Sou da Paz e associado pleno do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Autor do livro Arma de fogo no Brasil, gatilho da violência.

fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.279

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

 

*COMENTE A MATÉRIA E COMPARTILHE!*

Se *INSCREVAM* no Canal do YouTube, clique no *"GOSTEI"* e compartilhe...:

 @tvpaginadepolicia

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 3 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 3 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 3 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 3 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
27°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 27°
29° Sensação
4.68 km/h Vento
76% Umidade
100% (16.69mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h23 Pôr do sol
Sábado
27° 26°
Domingo
27° 26°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 408,377,81 -0,34%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio