Sábado, 24 de Janeiro de 2026
25°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

Precisamos todos saber onde é Luanda

A capilaridade e adesão à construção de um coletivo pautado pela não discriminação exige uma mudança sobre o que valorizamos e, assim, legitimamos como indispensável na luta por igualdade racial.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: fontesegura.forumseguranca.org.br/ | EDIÇÃO N.275
04/05/2025 às 02h21 Atualizada em 04/05/2025 às 02h31
Precisamos todos saber onde é Luanda

É lindo de ouvir e maravilhoso de ver a potência dos versos de Gilberto Gil. Ter o privilégio de viver ao mesmo tempo desse ícone da cultura brasileira potencializa nossa capacidade de refletir sobre temas que nos exigem, para além da abertura para o debate, um pouco mais de coragem para a mudança de paradigmas, na qual tanto apostamos.

Nessa linha, enegrecer a discussão, como já propôs Sueli Carneiro, trazendo para o feminismo a centralidade que a questão racial assume quando lidamos com a caracterização da violência contra as mulheres negras, precisa estar entre os requisitos de uma cena política comprometida com o debate antirracista. Do mesmo modo, mostrar a negritude e a cultura negra a partir da referência do que é belo, do que resiste em meio às adversidades e mesmo a despeito delas, é imperioso.

Assim é que vejo, no tempo e no espaço de Gil, que navega em todos sentidos a possibilidade de nos inspirarmos e de nos deslocarmos para o lugar do território, na contemporaneidade. E esse deslocamento é físico, mas também sociopolítico. Desse modo, podemos situar a escola e a rua como espaços do cotidiano, que importam muito para o enfrentamento ao racismo. Entretanto, nossa insistência em disfarçar o racismo óbvio, aquele entranhado nas estruturas e instituições, que tem justamente tomado assento nesses espaços, apenas esvazia nossa capacidade de resistência. Aqui trago dois casos recentes que justamente nos colocam esse ponto.

Em um shopping, situado em área nobre da capital paulistana, sem qualquer titubeio, a abordagem se deu no que, aos olhos desavisados, pode parecer tão só “parte do procedimento”. O segurança se dirigiu a uma adolescente branca para lhe perguntar “se estava sendo incomodada”. O que não é um detalhe é o fato de ela estar acompanhada de outros dois colegas adolescentes – ambos negros. Ironia da situação foi ainda a circunstância de que todos esses adolescentes estavam vindo da escola – de elite, inclusive – após terem tido uma aula voltada a problematizar condutas antirracistas.

Já na Região Metropolitana de Salvador, uma mulher negra, trabalhando como baiana de receptivo, foi acusada de furto por uma  turista estrangeira, após essa mesma, juntamente com o companheiro, ter pedido para tirar uma foto. A turista, ao procurar a carteira para fazer o pagamento, não a localizou na bolsa. O que se seguiu a partir daí não é só infame, como criminoso – a trabalhadora foi acusada de furto da carteira e obrigada a tirar as próprias vestes. Ao final, a carteira foi localizada – em uma loja de roupas pela qual a turista passara antes. À trabalhadora restou a proposta, em dinheiro, para que não registrasse a ocorrência. A vítima não aceitou.

A verdade é que as dinâmicas das relações raciais inscritas na formação social brasileira têm tratado como sucessivos mal-entendidos os rotineiros casos de racismo. O ódio que estimula a discriminação e nega tratamento equitativo tem sido desconsiderado, apesar dos dados do último Anuário de Segurança Pública (FBSP, 2024) nos dizerem que os casos de racismo registraram um aumento de 77,9% em 2023.

Como disse Gil, “Só quem sabe onde é Luanda saberá lhe dar valor”. É incontornável nos voltarmos aos desdobramentos de uma sociedade mais permeável ao debate racial, é certo, porém ainda recalcitrante quanto às implicações de se colocar como antirracista. A capilaridade e adesão à construção de um coletivo pautado pela não discriminação exige uma mudança sobre o que valorizamos e, assim, legitimamos como indispensável na luta por igualdade racial.

É esse o motivo pelo qual a construção de uma política antirracista do Estado Brasileiro precisa considerar normas repressivas ao racismo, porém precisa ir além delas. Assumir as intersecções que tornam a população negra mais vulnerável à violência passa por investir em ações planejadas que promovam a igualdade,  enfrentem as disparidades de renda, envolvam a educação formal e informal, convoquem a atuação em rede, entre outros, da cultura, da saúde, da assistência social e tomem a segurança pública como um direito fundamental.

Temos então um bom ponto para pensar. O mesmo Brasil que tem se mobilizado e se deixado emocionar para celebrar o legado e a trajetória de Gil é aquele que prossegue reiteradamente assistindo, em parte incrédulo e, em outra, inerte, ao racismo a olhos nus. Nos dois lados há um ponto em comum – ainda não foi feita a ponte entre os que sabem e os que não sabem (e talvez se recusem a saber) onde é Luanda.

Juliana Brandão

Doutora em Direitos Humanos pela USP e pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

fontesegura.forumseguranca.org.br/  |  EDIÇÃO N.275

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 4 semanas

Algoritmos decidem, mas quem se responsabiliza? Os riscos da adoção desregulada de tecnologias digitais na Justiça criminal brasileira

A incorporação de reconhecimento facial, câmeras corporais e inteligência artificial no sistema de Justiça avança mais rápido do que as salvaguardas necessárias para proteger direitos fundamentais. por Pablo Nunes e Thallita Lima

MÚLTIPLAS VOZES Há 4 semanas

Por que a fórmula para superar a violência e a prisão não funciona no Brasil

É necessário ouvir quem vive nas vielas, nos becos e nos morros, quem sofre com a prisão e com a falta do mínimo existencial. por João Marcos Buch

MÚLTIPLAS VOZES Há 4 semanas

A PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção: Congresso Nacional ‘batendo cabeça’

O arranjo institucional que está emergindo no Congresso Nacional não viabiliza soluções para o principal desafio do setor, qual seja, a desarticulação e a precária cooperação entre os órgãos e entre os entes federados. por Luis Flavio Sapori e Rafael Alcadipani

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 semanas

Casos de feminicídio chocam e nos envergonham. Como a Perícia enfrenta esse tema?

Como sociedade, continuamos a demonstrar nosso despreparo para lidar com o ódio que leva à morte milhares de mulheres no Brasil. por Cássio Thyone Almeida de Rosa

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 mês

Segurança pública e cibercriminalidade:

uma proposta taxonômica às fraudes digitais. por Lígia Marques Furlanetto, Eduardo Pitrez de Aguiar Corrêa e Daiane Londero

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
23°
Parcialmente nublado
Mín. 25° Máx. 27°
23° Sensação
2.47 km/h Vento
78% Umidade
100% (0.82mm) Chance chuva
05h23 Nascer do sol
18h07 Pôr do sol
Domingo
27° 25°
Segunda
27° 26°
Terça
27° 25°
Quarta
26° 25°
Quinta
27° 25°
Publicidade
Publicidade


 


 

Publicidade
Economia
Dólar
R$ 5,29 +0,00%
Euro
R$ 6,23 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 501,993,71 -0,02%
Ibovespa
178,858,55 pts 1.86%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio