Segunda, 07 de Setembro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

GUERRA ÀS DROGAS NO BANCO DOS RÉUS: a prisão de Duterte e os paralelos com o Brasil

O desfecho do caso do ex-presidente filipino será um teste para os limites da responsabilização internacional diante de líderes que utilizam o Estado para institucionalizar a violência.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: EDIÇÃO N.269 | fontesegura.forumseguranca.org.br/
23/03/2025 às 11h00
GUERRA ÀS DROGAS NO BANCO DOS RÉUS: a prisão de Duterte e os paralelos com o Brasil

Rodrigo Duterte, ex-presidente das Filipinas, foi preso em Manila e transferido para a custódia do Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia, na Holanda, em 12 de março de 2025. Sua prisão decorre de um mandado emitido pela Câmara Pré-Julgamento I do TPI, que o acusa de crimes contra a humanidade no contexto da chamada “guerra às drogas”. Este caso marca um precedente significativo, pois Duterte poderá se tornar o primeiro ex-chefe de Estado da Ásia a ser julgado pelo TPI por execuções extrajudiciais ligadas a uma política de segurança pública.

As acusações contra Duterte remontam à sua atuação como prefeito da cidade de Davao, onde foi associado ao grupo de extermínio Davao Death Squad (DDS). Esse histórico se intensificou durante sua presidência (2016-2022), período em que sua política de segurança pública levou a um número sem precedentes de execuções extrajudiciais. Estima-se que ao menos 6 mil pessoas tenham sido mortas. Apenas nos primeiros seis meses de seu governo, mais pessoas foram mortas em operações policiais do que em toda a década anterior (Natal e Kreuzer 2024)[1]. A retórica de Duterte encorajou a violência e a impunidade, dando carta branca à polícia para realizar execuções extrajudiciais sob a promessa de proteção contra repercussões legais. Esse ambiente institucionalizado de violência foi sancionado e protegido pelo Estado.

Importante destacar que, embora Duterte tenha desempenhado um papel central na escalada da letalidade policial, sua política de extermínio foi viabilizada pela falência deliberada das instituições de controle. O Ministério Público e a Corregedoria da Polícia, responsáveis por investigações sobre abusos, omitiram-se e, em muitos casos, arquivaram denúncias. O Congresso, dominado por aliados do ex-presidente, não apenas financiou essas operações, mas também bloqueou tentativas de investigação independente. Além disso, a Comissão de Direitos Humanos teve seu orçamento reduzido e foi enfraquecida publicamente. A Suprema Corte, por sua vez, permaneceu amplamente passiva. Dessa forma, o fracasso dessas instituições permitiu que Duterte consolidasse um regime de impunidade policial, demonstrando como o enfraquecimento dos freios e contrapesos pode institucionalizar e perpetuar a violência estatal.

A primeira audiência de Duterte no TPI já ocorreu, na qual ele foi informado dos crimes imputados. O tribunal decidirá, nos próximos meses, se há evidências suficientes para levá-lo a julgamento, um processo que pode se arrastar por anos. Se condenado, Duterte pode enfrentar prisão perpétua. Enquanto isso, sua prisão gera reações divididas nas Filipinas, com manifestações tanto em apoio quanto em repúdio à sua extradição.

O caso filipino guarda diversos paralelos com a realidade brasileira no que diz respeito à instrumentalização da segurança pública para fins políticos, tanto em nível federal quanto estadual. Assim como nas Filipinas, líderes da extrema-direita brasileira exploram o medo do crime para mobilizar apoio popular a políticas de repressão violenta. Durante o governo Bolsonaro, houve um incentivo explícito à ação policial letal, com propostas como o excludente de ilicitude. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas reduziu o programa de câmeras corporais da polícia e enfraqueceu mecanismos de controle, ao mesmo tempo que ampliou operações letais em favelas e comunidades. Esse ambiente político favorece a legitimação da violência policial como ferramenta de governança.

Outro paralelo crucial é a garantia de impunidade para agentes de segurança envolvidos em execuções extrajudiciais. No caso filipino, Duterte assegurou que policiais não seriam punidos por suas ações enquanto no Brasil há um movimento para garantir o excludente de ilicitude e outras formas de proteção jurídica para policiais envolvidos em casos de letalidade. Essa dinâmica é complementada por uma atuação tímida e até negligente das instituições de controle, sobretudo os Ministério Públicos estaduais e poderes legislativos. Esse enfraquecimento institucional favorece a consolidação de políticas de segurança baseadas na força bruta e dificulta a reversão desse ciclo de violência.

O desfecho do caso Duterte será um teste para os limites da responsabilização internacional diante de líderes que utilizam o Estado para institucionalizar a violência. No Brasil, o enfraquecimento dos mecanismos de controle e o discurso de guerra ao crime pavimentam um caminho perigoso para a consolidação de políticas de segurança baseadas na força bruta. Se essa tendência persistir, o país pode trilhar a mesma trajetória das Filipinas, onde execuções extrajudiciais sancionadas pelo Estado não apenas se normalizam internamente, mas também passam a ser enquadradas como crimes contra a humanidade, sujeitas à responsabilização internacional.

Referências [1] NATAL, Ariadne; KREUZER, Peter. Violent mandates: Presidential power, institutional failure, and the rise of police killings in Brazil and the Philippines. Frankfurt: Peace Research Institute Frankfurt (PRIF), 2024.

Ariadne Natal

Pesquisadora associada do Peace Research Institute Frankfurt; associada plena do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

EDIÇÃO N.269 | fontesegura.forumseguranca.org.br/

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  • Beta
Funcionalidade Beta
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Furto de celulares Há 1 semana

As dinâmicas de roubo e furto de celulares no Brasil

Os roubos e furtos de celulares assumem contornos distintos no Brasil. Nesse cenário, o avanço de tecnologias de proteção e o combate ao mercado ilegal se tornam fundamentais para prevenir esses crimes e reduzir a insegurança associada ao uso cotidiano dos aparelhos em espaços. por Samira Bueno e Renato Sérgio de Lima

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

POLÍCIA PARA QUEM PRECISA DE POLÍCIA: o que os números do Anuário Brasileiro de Segurança Pública (2026) apontam sobre a atividade policial

As transformações na criminalidade indicam que o policiamento tradicional – lastreado na presença ostensiva, armas, operações e viaturas – não é mais suficiente para enfrentar a delinquência em tempos de algoritmos, internet e inteligência artificial. por Alexandre Pereira da Rocha

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

DA RUA AO JUIZADO: por que segurança no futebol é política pública (e não só policiamento)

O futebol é um laboratório visível e sensível de escolhas que também estruturam a segurança pública em geral. As escolhas de cada país para a segurança dos eventos desse esporte se apresentam como um reflexo do modelo mais amplo de governança da segurança urbana. por Raquel Sousa

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 1 semana

A cabeça de bacalhau da segurança pública que atinge em cheio a perícia oficial

Protocolos policiais, que orientam uma atividade que interfere diretamente na liberdade, na intimidade e na integridade das pessoas, devem estar disponíveis de maneira clara, atualizada e verificável. A transparência só se completa quando a sociedade consegue consultar o documento e cobrar sua aplicação. por Cássio Thyone Almeida de Rosa

SEGURANÇA NO MUNDO Há 1 semana

AS EXTORSÕES EM EL SALVADOR E AS POLÍTICAS DE SEGURANÇA DE BUKELE

Por qual motivo, segundo pesquisas, os salvadorenhos apoiam um governo que restringe seus direitos políticos? A resposta está, de novo, na segurança, a área do desempenho governamental que recebe maior aprovação dos cidadãos. por Ignacio Cano

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo nublado
Mín. 25° Máx. 26°
27° Sensação
6.14 km/h Vento
73% Umidade
38% (0.36mm) Chance chuva
05h34 Nascer do sol
17h30 Pôr do sol
Terça
26° 25°
Quarta
26° 24°
Quinta
26° 24°
Sexta
26° 24°
Sábado
26° 23°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE NA BAHIA

Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 5,13 +0,07%
Euro
R$ 5,96 +0,15%
Peso Argentino
R$ 0,00 -3,12%
Bitcoin
R$ 430,312,22 -0,75%
Ibovespa
185,147,16 pts -0.02%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio