Quinta, 22 de Outubro de 2026
25°C 26°C
Salvador, BA
Publicidade

Sem pecado e com juízo

A hoje pastora passa por cima das conquistas do campo do direito das mulheres, querendo fazer crer que se trata de tema com assento na religião e na moral dos ditos bons costumes.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: EDIÇÃO N.269 | fontesegura.forumseguranca.org.br/
23/03/2025 às 10h53
Sem pecado e com juízo

Temos consistentes razões para localizar tanto no tombo do navio, como no balanço do mar  – imortalizados na voz de Clementina de Jesus – a resiliência das mulheres negras. Isso porque, mesmo massacradas pela escravização e violentadas pela casa grande, essas mulheres sempre tiveram que buscar meios para navegar em mar revolto, nadando contra a maré e, ainda assim, alcançar terra firme. Aqui a bússola é o instinto de sobrevivência aprendido e passado como herança.

Alertando desde sempre que a situação das mulheres negras passa pela luta para serem consideradas pessoas, o feminismo negro convida para a reflexão que intersecciona gênero e raça. Não é, portanto, sem razão que a força do feminismo negro deixe atônitos todos os que se recusam a reconhecer a falácia da universalização da experiência de viver o feminino.

E isso acaba por deixar espaço para narrativas que insistem em localizar no registro do “deixa disso”, quando, na verdade, estamos frente a um cenário de recrudescimento de todas as formas de violência contra as mulheres. Foi o que a pesquisa Visível e Invisível, realizada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que neste ano chega a sua 5ª edição, revelou ao trazer dados de vitimização, de meninas e mulheres brasileiras, no início de março.

Só no último ano, 5,3 milhões de mulheres sofreram ofensas sexuais. Os parceiros íntimos e ex-parceiros íntimos seguem sendo os principais autores, com a casa sendo o espaço mais apontado como local da violência. Além disso, nove em cada 10 mulheres que sofreram violência no último ano disseram que alguém presenciou o episódio. Uma parcela de 27% dos casos foi testemunhada pelos próprios filhos das vítimas.

Apesar disso, foi noticiada amplamente na imprensa a fala de uma personalidade pública que já ocupou lugar de destaque na cena musical brasileira, e que agora atua como pastora religiosa. Em tom de pregação, ela fez apelo para que vítimas de abusos sexuais perdoassem seus agressores, aí inclusos familiares abusadores. Ironicamente, a outrora compositora do elogio ao amor livre, aquele vivido “sem pecado e sem juízo”, hoje passa por cima das conquistas do campo do direito das mulheres, querendo fazer crer que se trata de tema com assento na religião e na moral dos ditos bons costumes.

Ora, falas nesse sentido apenas reforçam a naturalização e supõem a inevitabilidade da violência contra as mulheres. Deslocam a discussão para o campo da moralidade, defendendo um ideal de família inexistente. Replicam a ideia de que a vítima seria, no fundo, a principal responsável por recompor os laços rotos de um vínculo que, confundido com amor, materializa, na verdade, a fonte da violência. Considerando que o perfil majoritário das vítimas de violência doméstica é composto pelas mulheres negras, a vulnerabilidade dessas mulheres é assim replicada à exaustão, alimentando estereótipos negativos sobre esse grupo.

Os abusos e absurdos em relações de vínculo afetivo já foram cantados por Alcione. A evidência da quebra de confiança, em meio a todos conflitos emocionais que cercam esse cenário, também coloca para a mulher a intolerância a uma relação abusiva.

E como bem nos situa bell hooks, para acabarmos com a opressão sexista, o feminismo convoca todos, homens e mulheres, meninos e meninas para participar da luta revolucionária. Por isso vale aqui ter no horizonte, como enunciou Chico César, ao dizer que sabe como pisar no coração de uma mulher, o reconhecimento das inúmeras formas de violência, que não se reduzem ao ataque à integridade física.

Não há pecado algum em denunciar a violência contra a mulher. Pelo contrário. Estamos frente a um crime que precisa ser endereçado ao juízo competente, para que a responsabilização dos autores se dê dentro dos parâmetros previstos no Estado Democrático de Direito. Além disso, ganhamos todas e todos com as formulações do feminismo negro e com as referências culturais negras. Oxalá que o motivo de espanto não seja a potência e densidade teórica dessa produção intelectual negra. Mas sim a ignorância de conhecê-la.

Juliana Brandão

Pesquisadora Sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

EDIÇÃO N.269 | fontesegura.forumseguranca.org.br/

Clique na IMAGEM e acesse a Coluna Fonte Segura/PÁGINA DE POLÍCIA, espaço destinado para publicações de artigos dos articulistas do Fonte Segura/Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  • Beta
Funcionalidade Beta
* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Quem protege também precisa ser cuidado

Pesquisa identifica sinais relevantes de sofrimento psíquico e reforça a necessidade de prevenção e cuidado institucional permanente. por Luana Maria Lima Alves, Silvia dos Santos de Almeida e Alethea Maria Carolina Sales Bernardo

MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Menos registros, mais perguntas sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes

A queda inédita nos registros de estupro de vulnerável em 2025 suscita a questão: estamos diante de uma redução efetiva da violência ou de uma mudança na capacidade de identificá-la e denunciá-la?. por Luciana Temer*

MÚLTIPLAS VOZES Há 5 dias

Material de abuso sexual infantil: novas dinâmicas da violência no ambiente digital

A violência sexual contra crianças e adolescentes ganha novas dimensões no ambiente digital. Os microdados revelam a predominância de meninas entre as vítimas e a expressiva presença de adolescentes entre os autores. por Cauê Martins*

MÚLTIPLAS VOZES Há 1 semana

Ladrões do Centro paulistano

Pesquisa exploratória sobre determinados crimes no centro da capital paulista identificou alguns padrões de comportamento de ladrões, traficantes e receptadores de bens roubados na área. por Guaracy Minga

Desaparecidas Há 1 semana

O aumento dos desaparecimentos e a urgência de respostas institucionais mais adequadas

O desaparecimento de pessoas continua sendo fenômeno de difícil compreensão, atravessado por diferentes causas e trajetórias. Enquanto os registros crescem, persistem lacunas na produção de informações, na articulação entre instituições e em uma legislação que ainda não contempla adequadamente essa diversidade. por Deise Nunes*

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
26°
Tempo limpo
Mín. 25° Máx. 26°
27° Sensação
19.48 km/h Vento
75% Umidade
99% (1.19mm) Chance chuva
05h04 Nascer do sol
17h32 Pôr do sol
Sexta
26° 25°
Sábado
27° 24°
Domingo
28° 24°
Segunda
28° 24°
Terça
27° 25°
Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL NA BAHIA

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM PERNAMBUCO

Publicidade

? LOCALIZAR UNIDADE POLICIAL EM SERGIPE

```
Economia
Dólar
R$ 5,05 +0,55%
Euro
R$ 5,67 +0,47%
Peso Argentino
R$ 0,00 +3,33%
Bitcoin
R$ 435,110,54 -4,07%
Ibovespa
204,120,13 pts -1.15%
Publicidade
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio