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AS FLORES DA REVOLUÇÃO

“Que tempos são esses, quando falar de flores é quase um crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?” Pois bem, este ano vamos falar de flores, vamos falar dos cravos da revolução portuguesa.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Por CARLOS PRONZATO
27/12/2023 às 08h43
AS FLORES DA REVOLUÇÃO

Meu artigo quinzenal no jornal A Tarde, da Bahia, 26.12.2023

O período revolucionário desta gesta dos capitães de abril, se estendeu desde abril de 1974 a novembro de 1975, e representou um episódio relevante da História Contemporânea, com repercussões que extrapolaram as suas fronteiras e atraíram milhares de pessoas de outros países desejosos de vivenciar aquela experiência única que virou o país pelo avesso e onde práticas socialistas de trabalho, convivência e auto-organização foram experimentadas sem medo, quando os trabalhadores tomaram o céu de assalto.

2024 chega com a lembrança cinquentenária da Revolução dos Cravos em Portugal (25 de Abril de 1974). O recordatório do fim dos 48 anos do fascismo português (1926 - 1974) proporciona uma lufada de ar refrescante e humanitário em tempos em que o genocídio que o Estado neofascista de Israel perpetra na Palestina, com o apoio irrestrito dos EUA, parece não sensibilizar mais o mundo, assim como também o interminável desenrolar das ações bélicas na Ucrânia, onde confrontam a OTAN e os EUA contra a Rússia desde fevereiro de 2022.

Nos idos daquela década marcante dos anos 70 do século XX, os Estados Unidos estavam prestes a serem derrotados no Vietnam (1975), a Nicarágua se debatia pela sua liberação, Brasil e outros países da América continuavam em ditadura, ao tempo que diversas nações africanas conseguiam a sua independência do peso colonial das potências imperialistas da época, e Portugal era uma delas.

O ponto de partida da entrada triunfal em Lisboa do exército português rebelado contra o Estado fascista, com as colunas do MFA (Movimento das Forças Armadas) aclamadas pelo povo nas ruas - porque também isso significava a sua própria emancipação social - pode ser situado na resistência à continuidade e exaustão da política da guerra colonial iniciada em 1961 pelo presidente do Conselho de Ministros do governo ditatorial do Estado Novo, Antônio de Oliveira Salazar (1889 - 1970). Depois de 13 anos de massacres em Guiné Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Angola e Moçambique numa guerra colonial anacrônica, o contato dos capitães portugueses com o universo da resistência africana foi decisivo para delinear estratégias para a derrubada do governo da metrópole.

O período revolucionário desta gesta dos capitães de abril, se estendeu desde abril de 1974 a novembro de 1975, e representou um episódio relevante da História Contemporânea, com repercussões que extrapolaram as suas fronteiras e atraíram milhares de pessoas de outros países desejosos de vivenciar aquela experiência única que virou o país pelo avesso e onde práticas socialistas de trabalho, convivência e auto-organização foram experimentadas sem medo, quando os trabalhadores tomaram o céu de assalto.

Em tempos em que o capital mundial acelera a destruição do Homem e do planeta com a sua sede sanguinária de lucro, através de guerras irracionais, saqueio dos recursos nacionais e aniquilamento das centenárias conquistas trabalhistas, podemos trazer à tona Bertolt Brecht (1898 - 1956) e repetir com ele: “Que tempos são esses, quando falar de flores é quase um crime. Pois significa silenciar sobre tanta injustiça?” Pois bem, este ano vamos falar de flores, vamos falar dos cravos da revolução portuguesa.  

Carlos Pronzato é um cineasta, escritor, poeta, teatrólogo e ativista social, Sócio do Instituto Geográfico e Historico da Bahia (IGB). Nascido na Argentina e residente no Brasil. Artista multifacético, suas obras audiovisuais, teatrais e literárias destacam-se pelo compromisso com a cultura, a memória e as lutas populares. 

 

Contato: carlospronzato@gmail.com

 

(*) Publicado no Jornal A Tarde, (Espaço do Leitor), edição de 26.12.2023.

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