Sábado, 25 de Abril de 2026
26°C 27°C
Salvador, BA
Publicidade

LOPM: LONGO PASSADO ADIANTE

Em nome da luta pela vida e pelo direito de existir na pluralidade, dirijo-me ao presidente Lula, pedindo seu veto a pontos incompatíveis a uma polícia democrática e ao programa de governo que ele defendeu.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Edição nº 209 | fontesegura.forumseguranca.org.br/
20/11/2023 às 19h35
LOPM: LONGO PASSADO ADIANTE

A aprovação no Senado da Lei Orgânica das Polícias Militares (PL 3.045/2022), em 07/11/2023, cristaliza o modelo de organização policial criado pela ditadura, em 1969. Ao invés de promover um grande debate sobre que polícias queremos, governo federal, Ministério da Justiça e Segurança Pública, senadores e deputados escolheram ratificar uma polícia sem controle civil, com enorme espaço de atuação autônoma, militarizada e politizada ao mesmo tempo, sem diversidade interna.

O modelo reiterado pelas lideranças democráticas nasceu na ditadura militar, vinculando seu presente autoritário a uma tradição de guerra interna contra revoltas populares e uma sociedade estamental e escravista. As polícias militares que se instalam durante os anos 1970-80, embora invocando um passado de glórias, respondiam a questões atuais da virada do século. Momento em que os governos no mundo endureciam a mão direita do Estado (para lembrar a analogia de Pierre Bourdieu) para gerir crises próprias do avanço da cidadania, enquanto recolhiam a mão esquerda, encolhendo as políticas sociais.

O modelo militar foi ratificado na Constituição de 1988, sem que a participação social, os limites do uso da força, a sacralização da vida, a democracia interna, a prestação de contas e a eliminação dos tratamentos discriminatórios fossem regulamentados. Nos 40 anos seguintes assistimos ao agigantamento das instituições militares e ao sucateamento da instituição civil (também sem mecanismos de controle) e do modelo investigativo.

Ao invés de refluírem no arranjo democrático, progrediram a inquisitorialidade, a doutrina do inimigo interno, a eliminação dos desviantes, o padrão abusivo do uso da força, o autoritarismo interno, a hipermasculinização e o padrão racista de atuação, gerando crises atrás de crises, fortalecendo uma corporação policial temida e evitada pelos segmentos em luta por justiça social: mulheres, juventude, negros, periféricos, trabalhadores, professores, sem-terra, sem-teto, moradores de rua, entregadores, crianças pobres, pessoas LGBTQI+.

A geração que conseguiu estabelecer uma democracia eleitoral e o avanço da cidadania hoje teme um novo golpe autoritário com a adesão de forças policiais que não acreditam na democracia nem nos direitos humanos nem nos governantes eleitos. As corporações policiais não são homogêneas internamente, mas é constatado o crescimento da politização de extrema direita nas fileiras policiais, produzindo uma confrontação aos representantes e aos valores de uma segurança pública cidadã. As dissidências internas às vezes são abertamente reprimidas, e muitas vezes encobertas por processos administrativos draconianos e por adoecimentos dos trabalhadores da polícia.

A geração democrática continua dando as costas ao problema dos direitos civis e às formas democráticas de policiamento, prevenção da violência e tratamento dos delitos. E, com isso, entrega de bandeja todo o debate da segurança nas mãos das lideranças extremistas. Os governos democráticos financiaram a adoção de doutrinas, equipamentos, sistemas e modos de gerir que foram forjados nos governos neoliberais e na doutrina da guerra ao terror. Um exemplo é o modo como as novas tecnologias foram aplicadas no policiamento ostensivo no Brasil. Ao invés de servir para dar mais controle e transparência à ação policial, reduzir vieses, aumentar a responsabilização das chefias, instruir e apoiar tecnicamente a ação policial nas ruas, caras tecnologias são usadas para mecanizar procedimentos de filtragem racial, marcar territórios e tipos sociais taxados como perigosos e vigiar as corporalidades divergentes.

Assim, não é exatamente com surpresa, mas com desgosto que eu acompanho a aprovação da LOPM sem discussão com a sociedade civil, ao avesso dos movimentos sociais que pediram ao Ministro Dino, ao Ministro Padilha, ao Senador Contarato, às lideranças dos partidos de esquerda no Congresso, audiências públicas sobre as leis orgânicas das polícias militares e civis. A recusa ao debate é a parte que mais dói em quem lutou pela segurança como um direito social neste último meio século.

Em nome dessa luta pela vida e o direito de existir na pluralidade, é que me dirijo ao presidente Lula, um articulador da paz e justiça social, pedindo seu veto a pontos incompatíveis a uma polícia democrática e ao programa de governo que ele defendeu. Não é possível uma organização pública limitar o acesso das mulheres às suas carreiras. Não é possível uma polícia ser democrática sem uma ouvidoria independente e civil, sem estar subordinada ao poder civil da Secretaria de Segurança Pública e dos governadores. Uma via de ascensão eleitoral especial, com possibilidade de fazer campanha política no exercício do cargo não é aceitável. Assim como não é aceitável a ausência de mecanismos de democracia interna e diversificação racial, de gênero e orientação sexual. Não há como compatibilizar a polícia com a democracia sem uma doutrina do uso da força e os controles internos e externos de avaliação de abusos. Não é democrático ampliar as competências da polícia militar na área ambiental sem discutir com os demais atores sociais as consequências.

A reforma tributária é um objetivo fundamental da centro-esquerda no Brasil, mas ela não pode ser trocada pela reforma do entulho autoritário que vem sendo arrastado pelas nossas polícias.

JACQUELINE SINHORETTO - Socióloga, professora da Universidade Federal de São Carlos e associada do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Edição nº 209 | fontesegura.forumseguranca.org.br/

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Episódio 5 Há 4 dias

CONVERSA DE SEGURANÇA

Podcast Conversa de Segurança – Episódio 5

PERÍCIA EM EVIDÊNCIA Há 4 dias

IA vai substituir o CSI?

A Inteligência Artificial é uma ferramenta que apresenta limitações técnicas. Uma vez que seus sistemas operam com base em probabilidades e padrões estatísticos, pode dar origem a informações incorretas com aparência de verdade.  por  Thyone Almeida de Rosa

PROFISSÃO POLÍCIA Há 4 dias

ENTRE CÂMERAS E PROTOCOLOS: Os limites da política institucional das polícias na era da transparência

Abordagem recente da PM na zona leste da capital paulista, que terminou com a morte de uma mulher, reforça debate sobre as formas de lidar com a exposição proporcionada por câmeras de celulares e redes sociais. por Juliana Lemes da Cruz

Múltiplas Vozes Há 4 dias

Orçamento Público e Militarização da Segurança: Prioridades Estatais e Expansão do Aparato Repressivo nos Estados Brasileiros

As matrizes militarizadas se caracterizam pela centralidade do policiamento ostensivo, pelo fortalecimento institucional das corporações armadas e pela adoção de estratégias repressivas como principal mecanismo de enfrentamento da violência urbana. por Giselle Florentino e Fransérgio Goulart

Múltiplas Vozes Há 2 semanas

O POLICIAL COMO PROFISSIONAL DA COMUNICAÇÃO: Voz e Escuta Ativa no Processo de Gestão de Conflitos

A escuta ativa, qualificada e humanizada, sustenta a leitura da cena de ação, a avaliação dos riscos e a tomada de decisão justa, ética e proporcional, evitando julgamentos baseados em estereótipos sociais, preconceitos e reprodução de estigmas. Por STEPHANIE MAYRA DE MORAES e FRANCIS ALBERT COTTA

FONTE SEGURA
FONTE SEGURA
Espaço dos articulistas do FONTE SEGURA/Fórum Brasileiro de Segurança Pública, dedicado a análises baseadas em dados e transparência para qualificar o debate sobre segurança pública. O projeto conecta fatos e estruturas, promove cooperação federativa e alcança leitores em diversos países.
Ver notícias
Salvador, BA
29°
Tempo nublado
Mín. 26° Máx. 27°
33° Sensação
5.36 km/h Vento
71% Umidade
100% (10.63mm) Chance chuva
05h40 Nascer do sol
17h22 Pôr do sol
Domingo
27° 27°
Segunda
28° 26°
Terça
27° 26°
Quarta
28° 26°
Quinta
27° 26°
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Anúncio
Economia
Dólar
R$ 4,98 +0,00%
Euro
R$ 5,84 +0,00%
Peso Argentino
R$ 0,00 +0,00%
Bitcoin
R$ 410,421,31 +0,16%
Ibovespa
190,745,02 pts -0.33%
Publicidade
Anúncio
Publicidade
Enquete
Nenhuma enquete cadastrada
Publicidade
Anúncio