
Por Marcos Magalhães
Começou o segundo tempo do governo Bolsonaro. As eleições municipais já passaram, as Mesas da Câmara e do Senado já foram renovadas, o casamento com o Centrão já está oficializado em cartório. Então é tempo de se perguntar: como ficará, nessa nova etapa, a relação do Brasil com o resto do mundo?
No primeiro tempo, o governo brasileiro fez opção preferencial por seguir Donald Trump. Os olhos de Bolsonaro brilhavam ao falar do agora ex-Presidente dos Estados Unidos, tratado como ídolo também pelo ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.
O governo Bolsonaro colecionou inimizades. A principal delas com a China. Um pouco por fidelidade às diretrizes de Trump, um pouco por lealdade às causas de uma direita radical que levou Araújo ao comando da política externa, o governo brasileiro se permitiu promover reiterados gestos de provocação ao país que vem a ser seu maior parceiro comercial.
O Brasil afastou-se também de seu mais próximo aliado na América do Sul, a Argentina. Bolsonaro torceu abertamente pela vitória nas últimas eleições do então Presidente Maurício Macri, candidato à reeleição. Alertou que a “ ” poderia fazer da Argentina uma “nova Venezuela” e não prestigiou a posse de Alberto Fernández, há dois anos.
As relações com a Europa também esfriaram. Bolsonaro herdou negociações avançadas para a assinatura de um acordo de associação entre o Mercosul e a União Europeia. O acordo chegou a ser anunciado em 2019. Estabeleceria uma área de livre comércio de 700 milhões de habitantes unindo os dois lados do Atlântico. Mas tudo parou na burocracia europeia, como resultado da desastrada gestão ambiental do novo governo brasileiro.
Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, Bolsonaro entrou em confronto direto com o presidente Emmanuel Macron, que se tornou o principal obstáculo à conclusão das negociações para colocar em prática o acordo. Macron age por duplo cálculo político: quer defender os agricultores franceses e ficar bem com a turma do meio ambiente. A opção brasileira pelo confronto, porém, torna mais distante o entendimento.
Reforma
Depois das vitórias do Centrão nas eleições da Câmara e do Senado, o país caminha provavelmente para uma reforma ministerial. Estarão em jogo a coordenação política do governo e pastas importantes como a Educação, prometida ao DEM depois do acordo com o prefeito ACM Neto. E como fica o Itamaraty nesse novo momento?
Até aqui, coube ao vice-presidente, general Hamilton Mourão, estabelecer uma espécie de contraponto pragmático a posturas adotadas por Araújo e pelo grupo “ideológico” do governo, outro nome para definir os representantes da direita radical no Poder Executivo.
Se o tema é o meio ambiente, Mourão tem procurado demonstrar uma postura de negociação em foros internacionais. Quando o assunto é China, o general também tenta colocar panos quentes no estressado relacionamento bilateral. Pouco antes das eleições no Congresso o vice-presidente chegou a sugerir que seria o momento de trocar o comando do Itamaraty.
Ainda é cedo para dizer se Bolsonaro vai buscar um novo ministro. Por enquanto, Araújo ainda faz do Itamaraty um palanque para suas pregações ideológicas. No fim de janeiro, por exemplo, ele foi convidado a participar de um debate promovido pelo Fórum Econômico Mundial sobre o tema “Redefinindo a Geopolítica”.
Órfão de Trump, o chanceler brasileiro pediu que o país seja percebido pela nova administração americana como uma democracia com economia aberta, após “décadas em que o Brasil tinha uma economia semi-estatal com muita corrupção”. Talvez lhe tenha escapado o fato de que nenhuma privatização importante foi feita nos dois últimos anos.
Em oito minutos de exposição, a palavra mais citada pelo ministro foi “liberdade”. Para ele, está tudo bem que a administração Biden se preocupe com temas como a mudança climática. Mas a prioridade deveria ser outra. “Precisamos que os Estados Unidos continuem a ser a superpotência da liberdade”, pregou Araújo.
Muito bem, mas o apego à palavra “liberdade” soa estranho na boca do ministro de um presidente que gosta de expressar sua saudade do regime militar, elogia publicamente um torturador e afirma que cabe às Forças Armadas decidir se há ou não democracia no Brasil.
Opções
Retirar Araújo de cena pode não adiantar muito, se o Itamaraty permanecer sob o comando da tal ala ideológica. Talvez a nova postura adotada pelo governo em sua aliança com o Centrão possa se estender à definição da política externa.
Uma das opções sobre a mesa é a indicação para o cargo do senador Fernando Collor (Pros-AL). Ex-presidente da República, ele talvez veja na possível nomeação um passo a mais na sua reabilitação política após o impeachment. No Senado ele tem sido figura de destaque nas reuniões da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, que já presidiu.
É difícil dizer que tipo de guinada Collor promoveria na política externa brasileira. Mas algumas pistas estão disponíveis. Logo após as eleições americanas, por exemplo, ele felicitou Joe Biden e Kamala Harris.
“Brasil e Estados Unidos são as duas maiores democracias das Américas”, escreveu Collor nas redes sociais. “Estou confiante que o presidente Jair Bolsonaro vai aprofundar nossa relação bilateral, em benefício de nossos povos e região”.
Collor também tem procurado ressaltar sua preocupação com o tema ambiental. Em encontro no Senado com o vice-presidente Mourão, no ano passado, ele recordou a realização da Cúpula da Terra de 1992, durante seu mandato como presidente, e concordou com o general sobre a situação delicada em que se encontra o país nos debates mundiais sobre o meio ambiente.
“Nós chegamos ao ponto que Vossa Excelência descreveu como estarmos num canto de ringue nas cordas”, disse Collor. “É a posição em que realmente o Brasil está. O Brasil encontra-se nas cordas sendo atingido por violentos ataques de todo o mundo, inclusive internamente. E esses ataques têm alguma procedência”.
Para ele, é necessário que o Ministério das Relações Exteriores leve a “nossos parceiros internacionais a nossa boa vontade de fazer esse trabalho de proteção, de prevenção e de desenvolvimento sustentável na Amazônia”.
Collor pode ser apenas uma, entre várias opções. A escolha do nome, em um ambiente de reforma ministerial, dirá bastante sobre a futura condução da política externa. Mas a definição de uma nova postura do Brasil vai depender mesmo do presidente Jair Bolsonaro. Caberá a ele decidir se o seu recente pragmatismo vai se estender às relações exteriores.
Marcos Magalhães - Jornalista especializado em temas globais, com mestrado em Relações Internacionais pela Universidade de Southampton (Inglaterra), apresentou na TV Senado o programa Cidadania Mundo. Iniciou a carreira em 1982, como repórter da revista Veja para a região amazônica. Em Brasília, a partir de 1985, trabalhou nas sucursais de Jornal do Brasil, IstoÉ, Gazeta Mercantil, Manchete e Estado de S. Paulo, antes de ingressar na Comunicação Social do Senado, onde permaneceu até o fim de 2018.
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