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PESQUISA QUE VIROU SÉRIE: SOBRE “PCC PODER SECRETO”

Não há narrador, não há sociólogos ou jornalistas explicando o que está havendo. É pelo prisma dos que viveram o PCC e o combate ao PCC que conhecemos a história da facção.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Editoria
18/08/2022 às 18h49
PESQUISA QUE VIROU SÉRIE: SOBRE “PCC PODER SECRETO”

É provável que historiadores entendam mais do que nós sobre a guerra que tomou o estado de São Paulo entre o final dos anos 1980 e o começo dos anos 2000. Nesse caso, a série PCC: Poder Secreto, dirigida pelo consagrado Joel Zito Araújo e recém-lançada na plataforma de streaming HBOMax, deveria ser um dos primeiros documentos a ser consultados.

Tiro aqui era de peneira, para ter certeza que morreu”. Personagens anônimos narram no que se haviam se transformado as favelas de São Paulo, no período. Pela primeira vez, podemos ouvir aqueles que atuaram no front: mães que perderam seus filhos, seus pais, seus amigos, primos, tios e sobrinhos assassinados. Mas, sobretudo, aqueles que os mataram, na época das guerras.

Relatos daqueles que compuseram a facção, que surge das guerras, ou que se aliaram ao PCC e foram atravessados por sua força ao longo do tempo, também estiveram distantes das telas pelos quase 30 anos de existência do PCC. Cada um desses homens e mulheres toma a voz, nessa adaptação do meu livro “Irmãos: uma história do PCC” (Companhia das Letras 2018). Eles dizem: “se tivesse 3 mil presos numa cadeia, eram 6 mil facas. Era muita morte…”.

Em 1992, o Massacre do Carandiru seria o ápice dessa violência no sistema prisional paulista. No ano seguinte, o primeiro Estatuto do PCC mencionaria os eventos, em que 111 presos foram mortos, como o principal mote de sua fundação. A série conta como a organização gerou uma revolução interna, igualitarista, que em 2002 mataria os antigos “generais” da facção, e como a direção político-ideológica da facção foi apartada das finanças de cada um de seus membros, nessa nova forma de se organizar, mais adequada ao modelo expansionista previsto.

Surgia uma fraternidade criminal que não deixa de crescer desde então, apesar de todos os esforços estatais para reduzi-la. Percebemos, inclusive, que esses esforços a fortalecem, na medida em que são instrumentalizados pelo PCC. Transferências de presos levam a palavra da facção mais longe, opressões se tornam mote da ideologia da facção, encarceramento massivo entrega centenas de milhares de jovens à facção. Das cadeias às ruas e quebradas, o universo criminal ganha recursos para se especializar, se profissionalizar, ganhar escala e expandir-se por diferentes mercados. O rap do período, com destaque para os Racionais MCs, compõe a trilha sonora do documentário.

“Quando entrei para a facção, foi para combater o Estado”, nos diz o antigo braço direito de Marcola, Macarrão, em depoimento inédito. O que ele diz, paradoxalmente, é repetido de outras formas por autoridades do Estado, igualmente ouvidos no documentário. Não há narrador, não há sociólogos ou jornalistas explicando o que está havendo. É pelo prisma dos que viveram o PCC e o combate ao PCC que conhecemos a megarrebelião de 2001, os “ataques” e os “crimes de maio” de 2006, a expansão internacional da facção, a morte de grandes lideranças, a expansão faccional. O PCC ganha posições nos diferentes estados do Brasil, mas também nas fronteiras nacionais, portos, aeroportos e terras estrangeiras. Vai onde o dinheiro está. Nossa série segue esses personagens, esse dinheiro, esse conflito.

Também nos leva a conhecer os modos de funcionamento do PCC, trazendo às telas personagens e situações obtidas em duas décadas de pesquisa sobre o conflito armado que vivemos, agora em todo o país. Cadeias e periferias de muitas cidades latino-americanas, incluindo a maioria das capitais brasileiras, hoje são faccionadas. Modificando tradições há muito arraigadas, inclusive nos interiores do país, expande-se o ritmo das facções do sudeste, que interfere diretamente nas taxas de homicídios no país.

Participei de todo o processo de produção dessa série com a Boutique Filmes, junto com amigos de longa data, outros mais recentes. PCC: Poder Secreto é um trabalho coletivo que, para mim, é uma forma de entender muitas outras coisas além do PCC. Em primeiro lugar, me ensinou que é papel dos intelectuais e pesquisadores intervir no debate público, em tempos tão sombrios quanto os que vivemos. É possível ser cientificamente rigoroso em diferentes formatos de difusão do conhecimento. A sobrevivência das ciências e a qualificação do debate público, no Brasil, andam de mãos dadas. Em segundo lugar, entendi, participando dessa produção, que qualificar o debate sobre segurança em nosso país é urgente e esperado. Nossa série ficou em primeiro lugar na plataforma da HBOMax, à frente de ficções muito famosas, e em segundo na América Latina, por semanas. Em terceiro lugar, confirmei que a guerra que vivi como etnógrafo havia deixado marcas profundas em mim, e muito mais profundamente nos que a viveram com armas na mão. A série transforma a guerra em narrativa, um ato profundamente humanizador, portanto político. É o que temos que fazer, inicialmente, para que ela um dia acabe.

GABRIEL FELTRAN - Professor do Departamento de Sociologia da UFSCAR e Pesquisador do CEBRAP.

PCC - PODER SECRETO

A série “PCC - Poder Secreto”, recém-lançada pelo serviço de streaming HBO Max, mostra as origens da maior facção criminosa do Brasil por meio de uma série de entrevistas com quem participou de sua criação, casos de José Márcio Felício, o Geleião, e Orlando Mota Júnior, o Macarrão; e daqueles que se dedicaram a combatê-la. Fundada em agosto de 1993 no presídio de Taubaté, interior de São Paulo, o Primeiro Comando da Capital cresceu de forma exponencial dentro do sistema penitenciário paulista e depois passou a operar também nas ruas, administrando milhões de reais oriundos do tráfico de drogas no Brasil e mais recentemente também no Paraguai.

Thaís Nunes, que trabalhou como jornalista investigativa da série, fala  sobre “PCC”.

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