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CADÊ O POVO? 

A esquerda perdeu a guerra das narrativas? Sim, abandonamos o trabalho de base junto aos excluídos, deixamos a periferia ser ocupada pelo fundamentalismo religioso, o narcotráfico e as milícias. E só agora estamos aprendendo a lidar com as trincheiras digitais.

Carlos Nascimento
Por: Carlos Nascimento Fonte: Frei Betto
04/04/2022 às 11h32
CADÊ O POVO? 

O que ocorre com o povo brasileiro? Dá pra ecoar, hoje em dia, “Viva o povo brasileiro” exaltado por João Ubaldo Ribeiro? Cadê aquele povo aguerrido que desencadeou, ao longo de sua história, tantas revoltas libertárias, hoje encobertas ou edulcoradas pelos livros didáticos?

Desde a ditadura militar (1964-1985) nosso povo não sofria tanto quanto nos três anos do (des)governo Bolsonaro. Mandato que veio para destruir como dinamites que implodem um edifício. Não há segmento do país (exceto a minoria mais rica) que não tenha sido duramente afetado por este governo.

Há retrocessos em todos os setores: economia, saúde, educação etc. O preço dos combustíveis disparou; a inflação furou o teto previsto; o desemprego aumentou; os salários perderam poder aquisitivo; a educação está sucateada; a saúde padece na UTI do descaso dos preços abusivos dos medicamentos e dos planos privados. E, sobretudo, no genocídio de quase 660 mil vidas perdidas devido à irresponsabilidade de um presidente que ignorou a vacina e prestigiou a ineficaz cloroquina.

Na área socioambiental, o trator da devastação trafega com a mesma gula destrutiva dos dentes de aço de uma motosserra. Agrotóxicos envenenam o solo e os alimentos; a Amazônia sofre o seu maior índice de desmatamento; garimpos e mineradoras contaminam rios, igarapés e lagoas, esburacando a floresta; os povos indígenas têm suas terras invadidas e espoliadas.

E cadê o povo? 

Cadê a capacidade de mobilização dos movimentos populares, dos sindicatos, das pastorais e dos partidos políticos progressistas? Serão agora meras lembranças, como em um álbum de retratos, a Passeata dos 100 mil (1968, em plena ditadura), as greves metalúrgicas no ABC paulista (1978-1980), a luta por Diretas Já (1984), o impeachment de Collor (1992), a mobilização da juventude em junho de 2013?

Sim, há manifestações pontuais, como as marchas do MST, os protestos do MTST, a dos povos indígenas em Brasília, as de gays. mulheres e negros por suas pautas identitárias, a de Caetano Veloso no “Ato pela Terra”. E há indignação por todos os lados, sobretudo nas redes digitais, embora o “fuhrer” ainda detenha apoio de mais de 30% da população.

A esquerda perdeu a guerra das narrativas? Sim, abandonamos o trabalho de base junto aos excluídos, deixamos a periferia ser ocupada pelo fundamentalismo religioso, o narcotráfico e as milícias. E só agora estamos aprendendo a lidar com as trincheiras digitais.

Ao nos afastarmos do lugar social popular, voltamos à linguagem hermética dos círculos acadêmicos. Falamos para nós mesmos. Nossa linguagem é estranha aos moradores de favelas, aos sem-terra, aos sem-teto. E apesar de tudo que sofrem – como pagar mais de R$ 100 por um botijão de gás - não se reduz o apoio de mais de 30% a Bolsonaro. Por quê?

Porque não é prioritariamente pelo estômago que as pessoas raciocinam. É, sobretudo, pelo sentido que imprimem às suas vidas. É o sentido impregnado na mente que faz um jovem se dispor a morrer na guerra. É o sentido que leva fiéis à sujeição dos ditames descabidos do padre ou do pastor. É o sentido que causa abnegação ou revolta, submissão ou reação, medo ou coragem.

Cadê a narrativa de sentido emitida pelos segmentos progressistas? Sabemos prometer, e até promover (como nos 13 anos de governos do PT) melhorias de vida à população. Mas não é a barriga que, em última instância, comanda a razão.

Eu poderia dizer tudo isso com citações de autores consagrados, mas prefiro evitar o que soaria pernóstico a muitos leitores de meus textos.

Hoje, há apenas duas narrativas disponíveis no mercado epistêmico: a capitalista e a marxista. A primeira nos impregna pelos poros, em especial agora que o planeta se encontra globocolonizado. A outra, que rompe o círculo hermético do sistema, é o marxismo, que nos abre a viabilidade de um sistema de justiça e paz. Mas esta parece soterrada pelos escombros do Muro de Berlim e por tantas atrocidades cometidas pelo desvio stalinista. O tabu de citar Marx e se assumir como marxista é compreensível. Mas não o preconceito de adotá-lo como método de análise da realidade, inclusive na ótica religiosa, como fez a Teologia da Libertação.

Será que o reformismo nos arrancará do atoleiro? Ou nos deixará no mesmo lugar, como caminhões atolados na lama das estradas de terra, apesar de seus motoristas afundarem o pé no acelerador como fazemos em períodos eleitorais?

Frei Betto é escritor, autor deO marxismo ainda é útil?(Cortez), entre outros livros. Livraria virtual: freibetto.org

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